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Jun 01

Mentira preventiva

O casal está deitado no sofá abraçadinho ouvindo uma boa música. Ela faz um carinho nos braços fortes dele e ele retribui com um afago no cabelo dela.

- Ontem meu chefe se enrolou todo…  – começa ela, puxando a conversa.

- O que houve?  – pergunta o namorado não tão interessado assim.

- Ele foi almoçar com aquela secretária do quinto andar.

- E daí? Não tem nada demais em almoçar com uma colega de trabalho, tem? Você mesmo almoça com seus colegas, diz que seu chefe é fiel… – argumenta ele.

- Sim, é verdade. Ele é super fiel a ela, apaixonadíssimo, mas o negócio é que a esposa dele ligou bem na hora e ele falou todo nervoso que estava no mecânico. Claro que ela percebeu que ele estava mentindo e foi esperá-lo na porta do escritório. Pegou ele chegando com a secretária. Deu o maior escândalo.

- Nooosssaaa… que horrível.

- Mas também, por que ele foi mentir?

- Mentira preventiva!

- O que? – pergunta ela, parando imediatamente de acariciar o braço dele.

- É, mentira preventiva! – respondeu ele, já analisando se tinha dito alguma besteira, mas resolveu continuar.

- Que história é essa de mentira preventiva?

- Olha só, seu chefe mentiu porque se falasse que estava almoçando com uma secretária morena, alta, com seios fartos e mini-saia, ela ficaria puta com ele. Ele tentou uma mentira preventiva, já que não fazia nada de errado.

- Mas se não fazia nada de errado, por que não falou a verdade?

- Por que as mulheres não acreditam quando os homens falam a verdade. No fundo, o problema todo é esse. É como um habeas corpus preventivo.

- Está falando que a culpa é nossa?

- Sim, quer dizer, não. Olha, vocês precisam confiar na gente. Você não disse que o seu chefe é fiel, apaixonado e tal?

- Eu lá sei da vida dele. Diga-me, você já me contou uma mentira preventiva?

- Amor que isso, para com essa conversa.

- Não acredito. Você mentiu para mim? Quando foi?

- Eu não disse isso, amor.

- Mas tentou desconversar.

- Mulheres sabem instintivamente quando o homem mente, você sabe disso. Pergunta de novo.

Ela olha seriamente e penetrantemente para ele.

- Você já me contou uma dessas mentiras preventivas?

- Não, eu nunca fiz – responde ele com uma confiança que intimidaria o mais bem treinado agente policial.

- Se tivesse, eu perceberia você mentindo?

- Você é melhor em outras coisas amor.

- O QUE!?!?!

- Droga… podemos começar essa conversa de novo?

habeas corpus

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Jun 24

O Gladiador

Acordou cedinho e colocou os óculos com suas grossas e pesadas lentes. Olhou-se no espelho, apenas de cueca, pensou na grana que gastou em seis meses de academia e em como essa grana parecia pouca e barata perto do sofrimento e das dores que sentia durante e após as sessões de exercícios. Estava mais esquelético do que nunca.

Entrou na cozinha e deu um pulo quando o pé descalço tocou a água fria, a cozinha estava inundada. Por algum motivo, a geladeira descongelou no meio da noite e uma água misturada com os resíduos de comida estava espalhada pelo chão, o que fez o cômodo lembrar brevemente um pântano. Suspirou e mesmo assim entrou cozinha adentro.

Abriu a geladeira e uma nova onda de água gelada banhou sua canela, pegou uma caixa de leite e despejou no copo, mas pelotas de gordura com cheiro característico encheram o copo. Pareceu ver um rosto sorrindo entre o leite. Deixou o copo sobre a pia.

Tomou um banho, se vestiu e ao sair passou pela caixa de correspondências. Lá tinha contas, propagandas, contas, folhetos, contas, contas e contas. Suspirou mais uma vez, movimentou os ombros e os deixou cair como de costume.

Chegou a parada e o ônibus não demorou, no entanto, não havia lugar para ele se sentar. Uma senhora gorda com um cheiro estranho o espremia de um lado e um loiro musculoso do outro. Ele não teve espaço para suspirar, mas pensou o que aconteceria se ele pisasse na garganta da mulher gorda, e o pensamento lhe trouxe um certo prazer tenebroso no seu âmago.

No trabalho e entrou no segundo elevador que chegou ao térreo, por que o primeiro fechou a porta na sua cara. Sentou no seu cubículo sem cumprimentar ninguém e ligou o computador. O plano de fundo do seu equipamento era uma imagem de um filme antigo, então, ouviu aquele personagem falar com ele. Não era uma voz em sua cabeça, era uma voz vinda do passado.

Com sua cabeça inclinada para frente e para a direita, levantou suas sobrancelhas, sem mexer nenhum músculo além do necessário.

Seu gerente apareceu na porta e começou a falar com ele, reclamando sobre o atraso de um relatório, mas ele não ouvia. Seu olho esquerdo começou a pular compulsivamente, como um personagem de desenho animado em uma crise de nervos, mas tudo o que ele ouvia era o som de espadas, escudos, cavalos, lanças e por fim ouviu uma ordem retumbante.

Levantou tão rápido quanto um raio. O gerente não teve tempo nem de entender o que aconteceu quando o teclado acertou sua cabeça, a sensação foi como uma martelada em sua têmpora, ele sentiu o sangue começando a escorrer pelo rosto ao mesmo tempo que uma dor lancinante atingia seu cérebro. Atordoado, ele tropeçou e caiu derrubando as lixeiras, fazendo um grande barulho. Cabeças apareceram de seus cubículos para identificar a origem do estardalhaço, e tudo o que puderam ver foi o momento em que ele, com o pé esquerdo sobre o corpo do gerente caído no chão, rasgou sua camisa, soltando um rugido de ira tão forte e alto, que fez as pessoas do escritório sentirem suas espinhas se retesando como em resposta a um medo ancestral.

Viram ele saindo, camisa (ou o que sobrara dela) aberta com um peito branco, quase pálido, sem pêlos, a mostra. Em uma mão segurava o teclado como quem segura a lâmina de uma gládio e em outra o monitor LCD como um escudo com os fios pendurados. Avançou gritando, pisando sobre o gerente, que ainda não tinha se recuperado do susto.

Acertou Reinaldo, o colega de trabalho que fazia piadinhas sobre seu porte físico e montagens com suas fotos, com o teclado com tanta força, que o periférico se despedaçou. Por um momento, seus dentes e as teclas do teclado foram vistos saltando ensanguentados de sua boca. Tudo o que ele sentiu foi um estalo no maxilar e de repente teve a sensação de estar no coliseu romano, tendo seu rosto esmigalhado por um bárbaro. Reinaldo desmaiou no momento em que sentiu os dois pés do colega de trabalho ensandecido pousarem violentamente sobre seu peito. Ele estava sendo literalmente esmagado pelo outro, que pulava sobre ele como um gorila em fúria.

Paulo, o moreno forte que havia recebido a promoção que ele estava de olho, correu para tentar segurá-lo, mas com a agilidade de um samurai, ele desviou-se e, continuando o movimento, acertou a nuca de Paulo com o monitor, derrubando-o em um único golpe. Paulo ainda teve tempo de pensar em por que tinha se levantado da cama naquele dia, sentiu muita dor, e um formigamento estranho pelo corpo todo antes que o gladiador começasse a girar o monitor sobre si mesmo como uma maça medieval, e por fim o pousasse pesadamente em sua cabeça.

Seguiu mais a frente, já todo ensanguentado e com o olhar mais determinado que jamais exibira em sua vida. Derrubou mais quatro homens, incluindo um segurança. Neste ponto, já não possuia mais armas, tudo o que usava era seus punhos, até que dois encarregados e dois funcionários conseguiram, por fim, derrubá-lo.

Ele continuava a gritar em fúria, proferia palavras, mas não parecia nenhum idioma conhecido e às vezes apenas rugia, liberando toda a raiva concentrada que esteve contida em seu peito.

A maioria dos seus colegas de trabalho ficou perguntando-se “qual mesmo era seu nome” ou “como ele enlouqueceu”.

Ele gritava palavras ininteligíveis enquanto era arrastado para fora do prédio. Nunca mais foi visto.

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Jun 20

Que nome darei?

Ele caminhava a passos largos pelo corredor, forçando-a a quase correr atrás dele com seus saltos altos e saia justa.

- Levamos muito a sério o processo de criação aqui na Beleza Pura Cosméticos.

- Entendo senhor.

- O Antônio falou onde você vai trabalhar.

- Ele falou apenas que era na área final de criação mas não foi especifico.

- Ok, é aqui.

Ele abre a porta e deixa que ela entre primeiro, uma sala grande com várias mesas amplas separadas com divisórias de um tom vermelho forte com o logo da empresa em relevo.

- Atenção por favor – falou o gerente com a voz em brado. Nem todos pararam o que estavam fazendo para olhar – Essa é Mônica, ela vai trabalhar na equipe de criação.

Mônica ruborizou e se sentiu no primeiro ano da faculdade de novo.

O Gerente seguiu entrando pela sala, Mônica olhava fixo para frente enquanto sentia os olhares que a acompanhavam.

- Esse é o Marcos – aponta o gerente para um rapaz baixo com uma camisa para fora da calça e ar despojado – ele vai te mostrar o que fazer.

Marcos se levanta e cumprimenta Mônica com um aperto de mão firme.

- Oi Mônica, esse aqui vai ser seu. O pessoal do RH passou seu login e senha para a rede?

- Passaram sim – respondeu Mônica, ainda sentindo o rosto queimar.

O gerente se despede e sai da sala com o mesmo passo largo.

Marcos começa a explicar o que Mônica vai fazer. Ela será responsável por dar nomes a uma nova linha de esmaltes. Marcos entrega a ela uma pasta com o projeto, as cores, embalagens, público alvo e até dados de produção.

- É bem simples Mônica, cada cor recebe um nome e depois vai para aprovação.

Mônica agradece a ajuda e começa a folhear a pasta, começa olhando para os dados de público, as cores, pesquisa sobre áreas de mercado, tendências, envia perguntas para várias comunidades na Internet e começa a pensar que esse não é um trabalho tão simples. O vermelho mais intenso da coleção é obviamente destinado a mulheres que querem impressionar, o rosa tem umas dez variações, alguns para mulheres que fazem o papel de mais meninas, outros para as mais ousadas.

Depois de algumas horas de trabalho, ela percebe que ainda faltam mais de 40 esmaltes para receber nomes. Começa a ficar nervosa, primeiro dia de emprego, recém formada, como passam uma tarefa assim tão importante no primeiro dia? Percebe que está suando nas mãos e devorando a tampa da caneta com mordidas nervosas.

- Marcos – Mônica fala por cima da divisória em um volume tão tímido que ele quase não ouve.

Marcos envia uma última mensagem para a morena de cabelos curtos com quem ele tem conversado a alguns dias em um chat na Internet e desvia sua atenção para Mônica.

- Você pode me dar uma ajuda Marcos? – ela diz em tom de súplica.

- Claro – ele se levanta e dá a volta na mesa.

Ela explica seu dilema, a sua atenção para dar os nomes de maneira adequada com as cores e a imagem que o produto tem que passar e como isso está enlouquecendo sua cabeça. Marcos ri abafado, ela olha com cara de reprovação. Ele engole a risada e explica.

- Mônica, é bem mais simples que isso. Espera aí que vou te mostrar – puxa uma cadeira do lado da dela e se senta – onde você passou suas últimas férias?

- Como? – responde a moça sem entender nada.

- Onde você passou suas últimas férias?

- Em uma praia da Bahia. O que isso tem haver com a coleção?

- Boa! – exclama Marcos enquanto avança sobre o teclado do computador como quem tivesse feito a descoberta da resposta de um grande mistério.

Ele digitou no website de buscas “praias do litoral brasileiro”. Uma grande lista com mais de cem praias foi listada.

- Pronto, um nome para cada cor.

- Você está me gozando?

- Mônica, confia em mim – disse ele sério.

Dois dias depois, o gerente atravessa a sala com seus passos largos até a mesa de Mônica, toca-lhe no ombro.

- Os gerente adoraram a coleção com nome de praias. Grande trabalho! – e dando meia volta, retorna por onde entrou, deixando a novata com cara de boba.

- Marcos? – ela chama por cima das divisórias.

- Oi! -  ele responde.

- Hoje eu pago o seu almoço!

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Baseado no artigo: http://msn.lilianpacce.com.br/home/nomes-de-esmaltes/

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Jun 19

Insubstituível

Baseado em uma dessas mensagens motivacionais que você recebe por e-mail.

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O ar-condicionado deixou a sala extremamente fria, mais que o normal, o garçom passava distribuindo os copos de água. O gerente estava vermelho, sua careca brilhando sobre a luz das lâmpadas. Ele esbravejava em pé.

- Isso foi inaceitável; um dos nossos principais clientes na concorrência. Inaceitável.

A maioria estava de cabeça baixa, folheando os relatórios passados, olhando os gráficos. Reuniões tensas como essa na empresa envolvendo a equipe estavam virando uma rotina.

- Como isso aconteceu? – esbravejou novamente.

O gerente respirou fundo, pegou seu copo de água recém servido tomou um gole, sentou-se devagar olhando para a mesa. Depois levantou os olhos olhando para todos na mesa.

- Preciso lembrá-los de que ninguém é insubstituível?

O ar pareceu congelar, todos pareciam ter segurado a respiração, era claramente uma ameaça. Ele acrescentou:

- Teremos que diminuir a equipe.

Nesse ponto não foi apenas a respiração que prendemos.

Um silêncio que durou apenas alguns segundos, mas pareceu uma eternidade foi quebrado.

- Senhor? – era o jovem novato, contratado há seis meses para “reforçar” a equipe, conhecido por ser ousado e criativo.

- Que foi? – responde o gerente quase gritando para o “atrevido”, quase soltando um palavrão em seguida, pronto para tritura-lo.

- E o Beethoven? – perguntou o jovem.

- Quem?

- O senhor disse que ninguém é insubstituível e quem substituiu o Beethoven?

Silêncio.

O jovem se sentiu confiante com a hesitação e prosseguiu.

- Quem substitui Beethoven, ou Ayrton Senna, ou Elvis Presley? O talento não pode ser substituído senhor, esses nomes marcaram a historia fazendo o que gostavam e sabiam fazer bem, e jamais poderiam ser substituídos, portanto, se me permite discordar, a afirmação que ninguém é insubstituível está incorreta.

Os presentes se entreolharam, alguns inclinaram a cabeça, pensativos, claramente entendendo e concordando com aquele raciocínio.

O gerente que encarava o rapaz então levantou a cabeça, olhou alguns segundos para o teto. Suspirou mais uma vez.

- Você tem razão – aparentemente se rendendo ao argumento do rapaz – você está demitido!

- O que?!?!? – argumentou o rapaz com a boca torta e o rosto tremendo com o choque.

O gerente ignorou a reação dele, se voltou para o diretor de recursos humanos.

- Você! Contrate alguém com o talento de um Beethoven! – reunião encerrada.

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Jun 25

Minutos finais

Preciso manter o foco, me concentrar, nesse tipo de crise se você não manter a calma coloca tudo a perder.

Me movimento sem sair muito do lugar, isso ajuda na circulação, tento observar meu superior sem me fazer notar. Sei que ele está lá, olhando para mim. Minhas mãos estão nervosas, dedos batendo.

Observo o relógio, está quase no momento.

Ouço minha própria respiração, tento respirar mais devagar, está quase na hora, preciso ser exato. Um minuto antes ou um minuto depois e colocarei tudo a perder.

Levo um pouco de água a minha boca seca, engulo devagar. Observo o relógio mais uma vez, ele parou? Não! Está funcionando, mas parece que o tempo não anda. Respiro fundo

Preciso manter a calma, o tempo está passando como sempre passou. Fecho meus olhos, relaxo por um segundo. NÃO! Acorde homem, quer perder sua oportunidade de sair daqui! Observo o relógio de novo, o tempo não passa

- Mantenha a calma homem, já passamos por isso antes – repito para mim mesmo.

Penso se não me ouviram, será que falei alto ou apenas pensei? A tensão está me enlouquecendo, o barulho ambiente, o sol se pondo no horizonte trazendo a noite. Sim, a noite, onde poderei sair.

Quase lá, apenas mais alguns segundos… e… AGORA!!! Me levanto de um lance só, coloco-me em posição, passo pela porta.

- Boa noite a todos e bom final de semana!!!!

Minha nossa, como os minutos finais do expediente de sexta-feira demoram para passar.

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