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Set 06

Viver sem saudade

Existe uma “fábula” que a palavra saudade só existe em português, bobagem claro, a menos que seu argumento seja que em outros idiomas não se escreve saudade mas sim “heimweh” ou “I miss you”.

Saudade é um sentimento contraditório até na hora de explicar, segundo o dicionário:

“Lembrança melancólica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoa(s) ou coisa(s) distante(s) ou extinta(s).”

Lembrança melancólica. Melancolia é um tipo de tristeza, portanto saudade é uma tristeza, tristeza por não ter por perto algo que é bom. Claro, caso não fosse bom o objeto de nossa saudade, não teriamos saudade. Mas não quero discutir a etimologia da palavra, estou aqui para declarar minha revolta contra a saudade. Abaixo a saudade.

Saudade faz com que fiquemos com aquele olhar perdido no horizonte, olhando para uma coisa tola que representa um momento, aquela caneta, aquela mesa, aquela peça de roupa.

E ela nem precisa ser desperta pela visão, as vezes a saudade aperta quando sentimos aquele perfume, o quando nosso paladar provoca aquela lembrança.

Percebem como isso é dolorosamente ambíguo: Lembramos de algo ou alguém que proporcionou amor ou prazer e ao invés de sorrir, ficamos tristes. E como é dolorosa a tristeza da saudade.

Acho que talvez seja pela individualidade que constitui a saudade, ninguém sente a saudade do outro, é algo tão intimo quanto o amor que temos por aquilo que causa a saudade, e também proporcionalmente intenso. Quero viver sem saudade.

Com isso ao invés de sorrir pelas boas lembranças entristecemos. Revolto-me! Não quero aceitar mais isso! Quero banir a saudade! Não quero mais esse sentimento que degenera o que deveria ser bom! Que dói tão fundo, que faz chorarmos aquele choro amargo, abafado, sofrido. Saudade que tira a concentração e rouba o sono. Saudade quero te excluir.

Mas infelizmente, a única maneira de expulgar esse sentimento, é nunca amar nada nem ninguém. Isso não vale a pena, perder todas as memorias dos bons e maus momentos, perder as risadas, os prazeres, os odores, as palavras. Não! Prefiro continuar chorando a saudade amarga, que perder o doce das lembranças.

Pois é, saudade é como viver: é ruim, mas a alternativa é bem pior.

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