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Fev 27

Boletim de ocorrência

Entrou na sala logo atrás do oficial, sentou–se em uma cadeira que foi apontada pelo delegado calvo, que estava atrás da grande mesa de madeira com um cigarro no canto da boca.

– O nome do senhor?

Ele pigarreou, limpando a garganta.

– Arh, arhan! Fábio Rosa Souto.

Um oficial começou a redigir o depoimento em um velho computador, em uma mesa contígua.

– Profissão?

– Escritor.

O delegado olhou por cima dos óculos e deixou a cinza do cigarro cair em si, sem se importar.

– O que anda acontecendo, senhor Fábio escritor? Conte–me o que o trouxe aqui.

– Eu queria fazer uma denúncia por perseguição, é assim que se chama? Perseguição? Eu não entendo muito de direito então…

– Quem está perseguindo o senhor? – interrompeu o delegado abruptamente.

– O nome dele é Agenor.

O delegado deu uma longa baforada no cigarro, movimentou uma pilha desarrumada de papeis de cima da mesa procurando por algo. Achou um maço barato de cigarros, acendeu um na brasa do primeiro que foi jogado para trás da mesa, no chão.

– E por que o senhor Agenor está perseguindo o senhor?

Fábio suspirou e se ajeitou na dura cadeira.

– Então, ele acredita que estou tendo um caso com a esposa dele.

– E o senhor está?

Fábio pigarreou novamente.

– Arh, arhan! Isso é, bom… digo… é mesmo relevante? Adultério não é crime, é?

Novamente o delegado olhou por cima dos óculos para Fábio, deu mais uma longa baforada, olhou para o agente que redigia o depoimento.

– Então o senhor, como dizem os populares, deu uma furada na esposa do senhor Agenor, que obviamente ao descobrir o fato… Aliás, como ele descobriu?

– Não sei, não ficou claro. Talvez uma mensagem de celular, uma carta ou…

– Ou o quê, senhor Fábio escritor?

– Ou uma cueca minha, no quarto dele…

O delegado deu um tapa na mesa e levou a outra mão até a testa em um movimento reprovatório.

– O senhor largou uma cueca sua na casa do homem depois de deitar–se com a esposa dele? É isso que eu entendi?

– Foi, mas foi completamente sem querer…

– Ok, e o que o senhor Agenor anda fazendo que incomodou o senhor?

– Ele tem ligado no meu trabalho, na minha casa, no meu celular! Fazendo ameaças, doutor! Ameaças! E uma das vezes que eu liguei para Carla, ele atendeu e disse que iria até o meu serviço pra ter uma conversinha comigo se eu…

– Se você o quê, senhor Fábio? Se o senhor comesse a mulher dele de novo? Ou se o senhor largasse outra cueca em cima dos lençóis do homem?

Fábio olhou para o delegado com olhos arregalados e respondeu com incredulidade à cena que visualizara.

– A–a–acho que–que as duas co–coisas… Ou ele pro–va–vavel–mente nã,não se resig–resignou em ser tra–traído.

Uma cinza enorme caiu da ponta do cigarro do delegado. E o agente, que registrava o depoimento, virou a cadeira, mandou imprimir o depoimento para revisão e também acendeu um cigarro, prevendo que nada mais precisaria acrescentar.

– Olha só senhor Fábio, o senhor pode registrar uma ocorrência de Perturbação de Tranquilidade contra o senhor Agenor, uma vez que não houve ameaça à sua integridade física. Eu vou registrar todo o seu depoimento, vamos imprimi–lo na forma de um documento e o senhor assina esse documento. Depois vamos procurar pelo senhor Agenor para que ele possa dar a versão dele da história, com detalhes, inclusive onde ele encontrou a tal cueca. E depois ele assina também. Ele vai assinar um documento oficial, do Departamento de Polícia, que confirma que ele é um belíssimo corno graças ao senhor.

O delegado concluiu com um sorriso irônico. Fábio ficou em silêncio por alguns segundos, com os olhos ainda mais arregalados.

– Da maneira como o senhor colocou, não parece uma boa ideia, né?

– Não parece é? Eu não disse coisa alguma. Aqui estou a serviço da população e de cidadãos que procuram a lei, como o senhor. – rebateu o delegado, com sarcasmo escorrendo pelos lábios..

– Bem, acho que não precisamos continuar com isso, não é mesmo? Vai que as coisas fiquem piores se os senhores ligarem pra ele, né… Mas obrigado pelo seu tempo mesmo assim. – Fábio foi se levantando lentamente.

– Como o senhor quiser. E está tarde, senhor Fábio. Volte para casa com cuidado, viu…

O delegado desfez o sorriso sarcástico e meneando a cabeça negativamente procurava por outro maço de cigarros em cima da mesa. Fábio saiu lentamente, olhou para os dois lados antes de deixar a delegacia e foi correndo em direção ao carro estacionado. Saiu cantando pneus e quase bateu no portão enquanto olhava pelo retrovisor com a sensação de estar sendo observado.

– É cada uma que me aparece! Você viu isso? – O delegado pediu o isqueiro pra o oficial que redigira o documento. E continuou:

– Depois eu lavraria esse documento, chamaria as partes e o que aconteceria? Um corno homicida dentro da minha jurisdição!

– Então posso deletar o documento, delegado?

– Deve, né, Haroldo, deve! E Zeca! Ô Zeca! Acorda, infeliz! Todo dia chego nesse Departamento e tem uma pilha de processos na impressora! Comece agora a cumprir as demandas de hoje, ligar pros interessados!

Zeca, com a cara amassada do cochilo que tirava em cima da mesa, foi até a impressora cumprir seu trabalho. E só encontrou um único processo para ligar para as partes, um tal de Agenor.

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Esse post foi escrito a quatro mãos com o escritor, blogueiro e amigo Fernando Ramos (@colunafantasma) colunafantasma.blogspot.com   aescritasalaz.blogspot.com

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Fev 24

Uma nova pessoa

Rafael se debateu, fez força, pulou, mas a cadeira onde estava amarrado nem ao menos se mexeu, parecia parafusada no chão.

Olhou para Cássia que estava calma puxando um banco de madeira para perto dele que olhava em volta, não reconhecia o lugar onde estava, parecia um armazém vazio.

- Veja Rafael, eu só quero saber a verdade, e depois você pode ir, mas eu preciso que você me fale exatamente a verdade.

Rafael olhou nos olhos de Cássia e viu que ela estava serena, ele respirou fundo e tentou ignorar o formigamento dos braços por causa da pressão das cordas.

- Tudo bem Cássia, o que você quer saber? – falou tentando disfarçar o medo na voz.

- Você fez tudo o que fez, me fez te amar, fazer planos junto de você, e você estava o tempo todo me sacaneando pelas costas – disse Cássia, que interrompeu a frase para suspirar lembrando da recente dor do termino do seu noivado, foi quando Rafael interrompeu.

- Você quer saber o porquê eu fiz essas coisas?

Cássia abriu um sorriso estranhamente luminoso.

- Não Rafael, eu sei por que você fez essas coisas, fez por que é um mau caráter, um cafajeste. Mas você parecia uma boa pessoa, todo mundo pensa que você é uma boa pessoa, mas no fundo você é um safado, quero saber como você conseguiu enganar todos. É isso que eu quero saber.

Rafael ficou confuso no começo, mas encarou a pergunta com a sobriedade que vem de estar completamente imobilizado sem ninguém para ajuda-lo, resolveu entrar de cabeça no jogo de Cássia.

- Ok, Cássia, é bastante simples, você conheceu um Rafael que morreu. Que não existe mais, e eu uso o que sobrou dele às vezes.

Cássia se ajeitou no banquinho e cruzou as longas pernas.

- Explique melhor.

- Muito tempo atrás um outro Rafael foi noivo, e foi o noivo mais feliz do mundo, ele era honesto, ia de casa para o trabalho, e fazia absolutamente tudo para agradar sua noiva, era gentil, mandava flores, comprava joias, vivia sua vida por ela, na verdade, ela era mais importante que a própria vida desse Rafael.

- E o que aconteceu com “esse” Rafael? – perguntou Cássia.

- Ele morreu. Morreu de coração partido quando viu a noiva com um dos futuros padrinhos de casamento fazendo sexo na cama que ele havia comprado para eles. Mas veja, ele não morreu naquele instante, o coração partido continuava a bater mesmo dilacerado, mas cada movimento que ele fazia para manter a vida naquele corpo causava dor, uma dor insuportável. Um dia essa dor o fez sofrer tanto que aquele Rafael morreu.

Cássia enviou a mão nos bolsos e tirou um maço de cigarros.

- Você nunca fumou Cássia – disse Rafael.

- Agora eu fumo – respondeu Cássia – continue sua história.

- “Aquele” Rafael morreu, mas seu corpo continuou como uma nova pessoa, uma que não tem escrúpulos e que não serve a ninguém a não ser o próprio prazer, mas muito mais forte, mais confiante, mais ofensivo. Ele se tornou eu. Às vezes puxo do fundo do meu passado a carcaça daquela antiga pessoa que fui e uso como uma mascara, é assim que eu faço.

Rafael suspirou, abaixou a cabeça e uma lagrima rolou pelo seu rosto.

Cássia se levantou, acariciou o rosto de Rafael e tocou-lhe os lábios em um beijo frio, ela estava cheirando a um perfume que Rafael não conhecia. Ficou em pé na frente dele que ao olhar para ela pensou “ela está mais linda do que nunca”.

Realmente Cássia parecia mais bonita, cabeça levantada, postura ereta, cabelos brilhantes, emanava um poder e uma sensualidade que não parecia ser dela que era sempre tímida e recatada.

Ela colocou a mão no outro bolso e tirou um objeto de metal, uma navalha, Rafael engoliu seco, Cássia deu a volta na cadeira e cortou as cordas que prendiam Rafael.

- Você pode ir – disse ela guardando a lamina nos bolso.

- Posso? – indagou sem entender.

- Sim pode – ela respondeu dando as costas e saindo em direção a uma porta.

Rafael ficou olhando para aquela mulher alta com um corpo escultural, não se lembrava de Cássia ter roupas de couro tão sensuais.

- O que foi isso Cássia? O que aconteceu aqui? O que aconteceu com você? – ele perguntou enquanto esfregava os pulsos marcados pelas cordas.

Cássia olhou por cima do ombro sem se virar.

- Você matou a antiga Cássia, e agora sobrou apenas eu, a nova Cássia. Tenha uma boa vida Rafael, eu quase sou grata por você ter entrado na minha vida… quase grata – e ela abriu e atravessou a porta de metal.

Rafael ficou alguns minutos parado no mesmo lugar, estava tentando decidir-se se tinha feito bem ou mal para a vida de Cássia, mas só conseguiu ter a certeza que gostava muito mais dessa nova versão.

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Fev 31

Precisamos conversar

Carlos destrancou a porta e, deixando a pasta sobre a mesinha ao lado da porta, entrou anunciando sua chegada:

- Marta, cheguei.

Virou e se surpreendeu com a esposa sentada encolhida no canto do sofá.

- Oi querida, alguma coisa errada?

Marta olhou séria para ele, colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha e disse:

- Senta Carlos, precisamos conversar.

Ele franziu a testa diante do tom de gravidade das palavras de Marta, que esperou ele se sentar, se aproximou, olhou fundo nos olhos dele e segurou suas mãos.

- Primeiro eu quero que você saiba que eu te amo muito, que você é o homem da minha vida.

- Eu também te amo – respondeu Carlos, preocupado – o que está acontecendo?

Marta continuou.

- Eu fiz uma coisa muito errada, estou muito arrependida, mas eu não posso voltar no tempo e – lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto moreno – e eu te amo tanto, não quero te perder, então pensei muito antes de te contar.

Carlos respondeu apenas com um olhar.

- E eu não gostaria que você ficasse sabendo por outra pessoa, por que não seria justo com você, então eu resolvi…

- Ferrar com minha vida? – interrompeu Carlos.

- Como? – respondeu Marta sem entender.

- Ferrar com minha vida! É o que você resolveu? Porque se você fez algo de errado que sabe que vai me fazer sofrer, e vem me contar mesmo sabendo que eu não sei, você quer na verdade me ver sofrer.

Marta precisou de alguns segundos revendo as palavras que ouvira para compreender.

- Agora, se você me ama, você não vai fazer nada para me magoar, mas se você fizer, vai ter o mínimo de respeito de não me deixar descobrir nunca. Afinal, você não me ama?

- Amo – respondeu Marta claramente confusa.

- Então vamos fazer o seguinte, finja que não tivemos essa conversa – e Carlos se levantou do sofá.

- Mas Carlos, eu estou arrependida, estou sofrendo com meu erro.

Carlos se virou já demonstrando certa impaciência.

- O erro foi seu! Sofra sozinha, não venha me fazer sofrer junto! Chora ali no canto da sala em silêncio até passar! Mas não venha ferrar comigo!

Carlos foi para a cozinha jantar uma macarronada com almôndegas e tomar umas cervejas. Marta chorou em silêncio vários minutos, depois pensou nas palavras do marido e achou que realmente era melhor fingir que nada havia acontecido.

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Fev 09

Eu amo vocês

Pablo sabia que aquele dia chegaria cedo ou tarde, ele não estava pronto para o  momento.

Elas estavam lado a lado, como membros de uma aliança recém-formada para extrair, a força e com uso de atos de tortura se preciso, a verdade de Pablo.

- Deixe-me ver se entendi – começou Mônica – você passou os últimos dois anos enganando a nós duas?

- Não, – respondeu Pablo enquanto terminava de preparar seu uísque – eu não menti para nenhuma de vocês, nunca!

- Você disse que me amava Pablo! – afirmou Elaine com visível embargo na voz.

- E eu amo – disse ele com convicção – e também amo você Mônica.

As duas como se tivessem ensaiado suspiraram e olharam para direções diferentes como se procurando alguma lógica no que acabaram de ouvir.

- Você não vale nada! É um cafajeste! – disse Elaine quase gritando.

- Por quê? Quem esteve do seu lado Mônica, quando você ficou doente? Quem te ajudou a conseguir um novo emprego Elaine?

- E isso te dá o direito de fazer o que você fez?

- E o que foi que eu fiz? – indagou Pablo tomando um gole trêmulo da bebida – eu não amei vocês? Quem leva vocês para jantar toda semana em um restaurante diferente? Quem envia buquês de flores, rosas para Mônica, lírios para Elaine? Quem presenteia vocês com joias e perfumes? Quem leva vocês a orgasmos mult…

- Chega Pablo! – interrompeu Mônica sentindo que aqueles argumentos começavam a soar estranhos – isso não lhe dava o direito.

- Não me dava o direito a que? Não me dava o direito de amá-las? Sim! Eu amo vocês duas, da mesma maneira, com a mesma intensidade e paixão, eu dedico parte da minha vida a vocês duas na mesma dimensão – ele largou o copo sobre o sofá com fisionomia abatida – nunca imaginei que vocês fossem tão egoístas.

- Egoístas? – se espantou Elaine que não se lembrava de ter sido chamada de egoísta antes.

- Claro, egoístas, por que vocês não podem aceitar que eu um homem é capaz de amar duas pessoas? Uma mãe não ama dois filhos? Por que eu não posso amar duas mulheres? Egoístas, egoístas sim!

Elaine abriu a boca para responder, mas não conseguiu decidir qual palavra pronunciar. Pablo continuou.

- Se eu fosse do tipo que maltrata as namoradas, que deixam elas de lado para sair com amigos, que bebe, ou pior, que bebe e bate em mulheres. Eu sou um mau namorado? Sou Elaine?

Elaine gaguejou antes de respondeu

- Não, você não é! Você é… ótimo!

- Eu sou Mônica? Sou um mau namorado?

Mônica levantou as sobrancelhas e respondeu.

- Na verdade você é o melhor homem que eu conheci… que nós conhecemos.

Houve um momento de silêncio desses que duram alguns segundos, mas são tão longos quanto a eternidade, as moças olharam para Pablo que estava de cabeça baixa olhando para o gelo que derretia dentro do destilado, viram uma grande e redonda lágrima escorrer pelo rosto claro de Pablo.

Elaine se virou para Mônica

- Vamos Mônica, eu te dou uma carona para casa.

Elas se viraram, Mônica abriu a porta, ambas olharam para ele ainda de cabeça baixa e terminando de enxugar a lágrima usando a manga da camisa vermelha. Ele levantou o olhar para a porta, deixando expostas muitas outras lágrimas que molhavam seu rosto.

- Eu amo vocês! Amo muito! Como nunca amei ninguém!

Elaine olhou para os olhos de Mônica e foi a primeira a responder.

- Eu sei Pablo, eu sei, eu também te amo meu amor.

Mônica sorriu para ele.

- Boa noite Pablo, eu também te amo.

E elas saíram fechando a porta delicadamente, Pablo se deitou no sofá pensando se poderia superar a perda dos amores de sua vida. Não chegou a conclusão nenhuma além de lágrimas, então preparou outro copo.

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Fev 26

Diálogo de um casal comum

O jovem casal abraçado no sofá vendo um filme. Ela com as pernas sobre o móvel, ele abraçando sobre os ombros dela e com o outro braço aberto sobre o sofá, pernas esticadas e balançando o chinelo.

Ela se surpreende com a cena em que um casal de personagens revela um dos segredos da historia com um beijo.

- Não acredito, eles estão tendo um caso. E agora?

- Aposto que vão tentar fugir com as joias antes que alguém descubra – argumenta o marido menos envolvido na trama pensando em como aquela era uma historia clichê.

- Como pode um homem fazer uma coisas dessas?

- Qual parte? Matar, dar um golpe de milhões ou ter um caso – pergunta o cônjuge lista as atrocidades do vilão daquela trama cinematográfica barata.

- Ter um caso ora – responde a esposa sentando-se direito no sofá com ar de indignação.

O marido acha graça, entre assassinatos e estelionatos o que a deixou mais chocada foi adultério.

- Apenas acontece… – e se volta para o filme.

- Como assim acontece?

- O que? – sem tirar os olhos da televisão.

- Como assim acontece?

- Como assim acontece o que? – pergunta novamente o esposo já sentindo que falou alguma besteira.

- Você sabe do que estou falando! – esposa já começa a buscar o controle remoto para desligar a televisão.

O marido já preocupado começa a pensar no que foi que falou de errado.

- Não! Não sei do que você esta falando!

Televisão desligada.

- Como assim “acontece de um homem ter um caso”?

- Haaaa, é isso amor, bobagem.

- Um caso é uma bobagem? Traição? A destruição da nossa família? E nossos filhos?

- Não temos filhos.

- Isso não faz diferença.

- Eu estava falando do filme meu amor.

- Quem me garante que não era o seu subconsciente querendo me falar algo?

- Meu benzinho – ele faz aquele olhar que sabe que quebra as barreiras dela, ela desvia o olhar emburrada, ele a abraça – Olha pra mim benzinho.

- Sai pra lá!

- Eu te amo, te amo demais, larga de besteira – beijo no pé da orelha, golpe baixo para encerrar o assunto.

- Para… – como quem diz “continua”

- Eu amo minha esposinha linda e não preciso de mais ninguém – segue o marido ainda usando diminutivos de forma infantil.

- Está bem, desculpa.

- Vamos continuar vendo o filme?

- Ok – ela liga a televisão de novo.

Alguns minutos depois durante o intervalo comercial.

- Amorzinho. Você já me traiu? – ela pergunta demonstrando certa serenidade.

- Claro que não benzinho.

- Se tivesse me traído contaria?

- Claro que não benzinho.

- COMO ASSIM CLARO QUE NÃO SEU TRASTE!!!

- Ops…

- Ops?!?! Ops?!?! É essa sua reação.

- Não amorzinho, é que se eu hipoteticamente traísse você não te contaria isso quando você perguntasse.

- O QUE?!?!?!

- Não, espera, não foi isso que eu quis dizer.

- Então o que você quis dizer?

- Que eu nunca trairia a mulher perfeita!

- Perfeita? Eu? Sério?

- Claro amorzinho, para com isso – abraça-a mais forte.

- Mas se você traísse você me contaria?

- Claro que não benzinho.

- O QUE?!?!

- Ai ai! Vai ser uma longa noite..

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Fev 15

Chifre, galhadas ou traição mesmo

Lembrei de um texto do Luis Fernando Veríssimo, pelo menos eu acho que era dele, mas não encontrei o original, então vou transcrevê-lo como me lembro, era mais o menos assim:

Diálogo entre esposa e marido

- Querido, você já me traiu?

- Claro que não – responde o marido sem tirar os olhos do jornal.

- Como posso saber se você não está mentindo?

- Eu já menti para você antes? – retruca o marido ainda dividindo a atenção com o jornal em frente ao rosto.

- Não… – responde a desconfiada esposa, e continua – mas se tivesse mentido me contaria?

- Claro que não – responde o marido com uma sinceridade inabalada.

Como alguém já falou, “só é corno quem é curioso”, então convoco quem é fiel e mentiroso a levantar a mão. Juro que a minha está abaixada por um motivo ou pelos dois, sei lá.

Acho que seria legal ter uma melhor definição de chifre, traição, enfeite de testa. Não é tão simples como parece

Seu “ficante” ou “peguete” não pode te trair, por que não existe compromisso (por favor, sem mimimi, olha a falta de noção), então para existir a traição tem que haver o mínimo de compromisso, de relacionamento, casamento, união estável ou pelo menos namoro.

Agora que temos quem pode ser traído, quem tem conjugue/namorado(a) você corre esse risco sim.

Agora vamos definir o que é traição, para os cristãos que seguem aquele grande livro chamado Bíblia temos o seguinte:

“Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela.” Mateus 5-28

É meu amigo, nessa o Mateus pegou todo mundo, quem nunca olhou para outra mulher ou homem na rua? Não reparou na bunda da gostosa e nas pernas do gostosão que passava pela calçada atire a primeira pedra, pode mirar na minha cabeça, alguém? Alguém? Foi o que pensei.

Não podemos simplesmente limitar a traição a apenas contato físico, tipo: “ele beijou outra, então já traiu” Imagine a seguinte situação: a namorada faceira troca conversas picantes pela Internet com o gatinho sem o namorado saber. E ai? Foi traição? O namorado já pode usar os adereços na testa para ajudar na recepção da televisão?

É parece que a definição é mais complicada do que parece, vamos deixar da seguinte maneira: traição é o ato de realizar ações intimas com outra pessoa que não seja o seu conjugue/namorado(a) .

E o amor? É uma vacina contra traição? Se você ama de verdade (de mentirinha não vale), trai? Desculpe-me os mais pudicos, para não dizer ingênuos, mas isso não é verdade. Amor e intimidades (leia-se sexo se você preferir) são coisas diferentes. Não, nada de comoção das mulheres (e de alguns homens), não adianta esbravejar, são coisas distintas e o quanto antes vocês entenderem isso melhor vai ser.

Conclusão 1: a única maneira de ficar 100% imune a um belo par de galhos frontais em sua cabeça é nunca ter um relacionamento sério, mas sinceramente acho que o custo benefício não compensa, e vamos ser sinceros, quem quer ficar sempre sozinho?

Conclusão 2: a melhor maneira de evitar ter problemas quando entrar em um carro apertado ou ter a cabeça presa em fiação elétrica baixa é escolher bem o parceiro e haver muita comunicação sincera de ambas as partes, até por que senão não é comunicação, é monologo. Ou então se você preferir simplesmente não ser curioso.

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