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Fev 11

Programa de TV

O novo quadro do programa vespertino de domingo não tinha chances de fracassar; possuía todos os elementos populares para ser um sucesso. O apresentador iria procurar uma antiga celebridade fracassada, a que estivesse na pior situação possível, e presentear-lhe com uma casa nova, mobiliada e super moderna.

O felizardo ganhador da estreia do quadro não podia ter sido melhor: o antigo ajudante de palco do apresentador. Ele ficou famoso com o apelido de Pombinho por causa da coreografia engraçada que fazia com sua fantasia de pombo e o escárnio que sofria do apresentador em um clima de brincadeira em que chutava o seu traseiro aos gritos de “Xô Pombinho, xô!”

Pombinho não podia estar em situação pior: morava com a esposa e um filho embaixo de um viaduto na periferia da cidade, seus móveis se resumiam a dois colchões, um fogareiro, algumas caixas empilhadas que servem de armário e muito papelão que servia de cobertura, divisórias e cobertores em alguns dias.

O apresentador chegou ao local vestindo seu terno de dois mil reais com uma equipe pequena de cinco pessoas e começou a entrevistar seu antigo companheiro de palco.

- Pombinho, como você veio aqui, sob essa ponte?

- Então Augusto, eu trabalhei muitos anos no seu programa… Quando saí para seguir carreira solo, não tive a mesma sorte… Lancei o disco do Pombinho e investi um dinheiro em uma linha de brinquedos, mas não tive sorte.

- Então, Pombinho, estou aqui para te fazer uma surpresa. Você foi escolhido para ganhar uma casa toda mobiliada do Programa do Augusto.

Sobe a música orquestrada, a câmera fecha no rosto de Pombinho abraçando a esposa aos prantos.

Toda a construção da casa foi acompanhada pelo programa, da escolha do terreno, passando pelo trabalho da decoradora, parte elétrica, acabamentos, metais até finalmente o dia da grande entrega.

Um grande show com a banda de sucesso local em um palco em frente a casa, que estava toda coberta com redes que sustentavam balões de gás. A família ganhadora chega. Pombinho veste um terno branco e parece ter passado por um banho de loja, assim como a esposa.

- Como está o coração Pombinho? – pergunta o generoso apresentador.

- Muita emoção, meu amigo. Muita emoção.

- Então, vamos conhecer a sua casa nova?

A rede sustentando os balões é solta vindo a baixo. Os balões livres ganham os céus e a nova casa é revelada. Linda e cheirando a nova, sobe novamente a música de impacto. Augusto e a família, aos prantos, entram.

Augusto mostra a sala, os móveis, passa para a cozinha todo equipada, para a sala de jantar com os pratos postos e organizados com meia dúzia de talher cada um; sobem por uma escada e mostra o quarto da criança cheio de brinquedos; passam para o quarto do casal, Pombinho senta-se na beira da cama com lágrimas nos olhos.

- Então Pombinho, gostou da sua casa nova?

- Gostei muito Augusto, estou muito feliz.

- Então Pombinho, para encerrar nosso quadro só falta uma coisa. Abra o guarda-roupa. Eu tenho uma surpresa.

Pombinho se levanta e abre o guarda-roupa. Seu sangue gela e seus olhos arregalados parecem em destaque no vídeo com a maçã do rosto brilhando por causa das lágrimas recém-derramadas. De dentro do moderno e bonito guarda-roupa embutido, ele tira sua antiga fantasia de ajudante de palco.

- Agora Pombinho, vista-se e vamos lá embaixo no palco fazer sua apresentação.

Alguns minutos depois, Pombinho desce com sua fantasia de pombo. Seu olhar para o público que grita seu nome é apreensivo. Augusto já está no palco. Ele sobe e sua antiga música começa a tocar. Ele olha para trás procurando o olhar da esposa que está com expressão suplicante.

- Vamos lá Pombinho, vamos dançar, dança pombinho, dança.

E Pombinho dançou tão bem quanto se lembrava: mexia as asas, virava de costas e requebrava, balançava a cabeça de um lado para outro, a música aumentava seu ritmo e enquanto encaminhava-se ao seu clímax, o apresentador gritou.

- Chega, Xô Pombinho, xô pombinho – e começou a chutar o pombinho para fora do palco.

O público gargalhava e repetia “xô Pombinho”. Augusto continuava chutando o ajudante de palco. Pombinho virou-se subitamente nesse momento de frente para Augusto e avançou contra ele com tanta fúria que o derrubou em um único golpe. Subiu sobre ele e arrancou seu microfone. A equipe ficou atônita e o público não tinha certeza do que estava acontecendo quando viram Pombinho enfiar o microfone pela boca de Augusto, empurrando violentamente para dentro de sua garganta. Um segurança mais truculento conseguiu derrubar o louco enquanto a produtora tentava retirar o microfone de dentro de Augusto que sufocava.

O quadro de estreia que tinha tudo para ser um sucesso nunca foi exibido na televisão.

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Fev 18

Papai-Noel

O marido chega em casa depois do trabalho e as crianças e a esposa estão assistindo um filme natalino como outros tantos sem muito a acrescentar. Enquanto trocava de roupa, ele ouve a conversa da família.

- Mamãe… o Papai-Noel mora aonde?

- No pólo norte.

- E e lá é muito frio?

- Muito, muito mesmo.

- E ele vem no Natal trazer presentes?

- Isso mesmo

Quando o marido tem oportunidade de ficar sozinho com a esposa, pergunta:

- E essa história de Papai-noel?

- Que que tem?

- Papai-Noel não existe! Você esta mentindo para eles! – indignado.

- Mas o que tem? É uma fantasia sem nenhuma maldade.

- Quem faz os brinquedos?

- Os anões, ué…

- Sei, os anões chineses de Taiwan. Só se for. Se formos mentir sobre Papai-Noel, temos que mentir também sobre Coelho da Páscoa, sereia, bruxa, políticos honestos e rockstars que não usam drogas.

- Não seja exagerado! – protesta a esposa já perdendo a paciência.

- Como ele entra dentro de casa? – indaga o ainda relutante marido.

- Ele quem?

- Quem? Os rockstars – revoltado com a irônia – O Papai-Noel né!?!?! Como ele entra em casa?

- Sei lá, ele é mágico.

-  Mágico? Nem o Superman conseguiria fazer o que a história fala que ele faz, visitar todas as crianças do planeta em uma única noite…

- Ele não visita todas, apenas as boazinhas…

- Isso reduz bastante o trabalho, mas mesmo assim… Não gosto dessa história não. Papai-Noel não existe e não vou mentir para meus filhos.

- Para de ser chato! Apenas coloque os presentes do lado da cama deles e diga que foi o bom velhinho.

- Bom velhinho o caramba!Eu que trabalho e compro, e ele que leva o crédito? Se eu vir um velho barbudo com saco vermelho dentro de casa, ele vai é levar umas bordoadas!

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Fev 02

Melhor amigo – segunda versão

Estava arrasada! Nem sabia por onde começar: trabalho, diarista, contas, balança, mas o principal era o idiota do Felipe, ainda não conseguia acreditar no que ele tinha feito. Largou-me no sofá encolhida, chorando solitariamente.

Toca o celular, é o Anderson. Tento me segurar, mas me desabo em lágrimas. Ele diz que preciso sair para me distrair, digo que não estou no clima, mas ele diz que uma mulher linda não deve ficar em casa em uma sexta-feira à noite.

Ele chega quarenta minutos depois, abraça-me forte quando abro a porta, diz que estou linda.No sofá, começo a reclamar do meu dia , mas ele me interrompe, diz que não preciso me preocupar, que uma mulher linda como eu não devia esquentar “a sua cabecinha linda” com essas “coisas” e diz que eu devo trocar de roupa, colocar um vestido por que ele vai me levar para jantar. Protesto que não estou no clima, mas ele é persistente. Coloco um tubinho preto e um salto alto. Quando volto para a sala ele está com cara de impaciente, mas ainda assim solta um longo assovio e diz que estou maravilhosa.

Vamos a uma pizzaria animada, muitos jovens.Ele faz o pedido de uma meia calabresa, meia quatro queijos. Fico pouco a vontade, mas ele pede um vinho e começo a relaxar. Ele me faz rir e esquecer um pouco dos problemas. Terminamos rápido tanto a pizza, quanto o vinho e ele me arrasta para uma festa. Não reclamo. Começo a pensar que ele tem razão, que preciso me divertir. Eu queria dançar, mas  ele protestou que não levava jeito.Ainda sobre o efeito do vinho, arrasto ele para a pista e descubro que ele tinha razão!Ele não leva o menor jeito, mas parece ter gostado, porque tentou me beijar três vezes em apenas uma música.

Ele me leva de volta para casa, tenta me beijar mais uma vez na saída da festa, mais uma em um sinal fechado e duas quando chega ao meu prédio. Ele pergunta se pode subir para usar o banheiro.Olho para ele meio torto e penso essa é a última vez que bebo uma garrafa de vinho. Subimos, eu me jogo no sofá e ele vai para o banheiro. Coloca a cabeça no meu ombro. Começa a afagar meus cabelos. Sinto uma sensação estranha, uma vibração, era o celular dele no bolso da calça. Ele não atende.

- Você é muito linda sabia?

- Sabia!

- É?

- É, deve ser a centésima vez que você fala isso essa noite.

- E?

- E está na hora de você ir embora – me levanto em um impulso só, o puxo  pelo braço.

- Mas já?

- Sim.

- Está cedo – protesta ele, enquanto o empurro porta a fora.

- Boa noite Anderson! – estou sorrindo deliciada.

- Nem um beijinho?

Bato a porta e caio no sofá meio que rindo.Até que ele é gatinho, quem sabe na próxima?

Quando o elevador abre, Anderson sem entender o que aconteceu e lembrando-se do preço daquela garrafa de vinho pensa: mas que vadia filha de uma puta!

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Fev 27

Melhor amigo

Estava arrasada! Nem sabia por onde começar: trabalho, diarista, contas, balança, mas o principal era o idiota do Felipe, ainda não conseguia acreditar no que ele tinha feito. Largou-me no sofá encolhida, chorando solitariamente.

Toca o celular, é o Marcos. Tento me segurar, mas me desabo em lágrimas. Ele espera eu me acalmar, diz que está indo me ver imediatamente! Insisto que não precisa, que eu vou ficar bem, mas ele obstina-se que virá do mesmo jeito.

Ele chega quarenta minutos depois, abraça-me forte quando abro a porta, escuta-me reclamar no sofá, mostra-me um lado da situação que eu não tinha visto. Passa a mão no meu cabelo devagar, sorrindo-me de forma iluminada, enxuga minhas lágrimas e diz que eu devo trocar de roupa, colocar um vestido por que ele vai me levar para jantar. Protesto que não estou no clima, mas ele é persistente. Coloco um tubinho preto e um salto alto. Depois de me esperar pacientemente solta um longo assovio e diz que estou maravilhosa.

Vamos a um restaurante japonês, ele faz o pedido e conversamos sobre tudo. Marcos me faz rir e esquecer os problemas. Quando terminamos, ele me arrasta para uma festa. Eu protesto que não é preciso, mas novamente é inútil argumentar com ele. Dançamos o resto da noite. Como o Marcos dança bem! Conduzindo com força, mas com delicadeza ao mesmo tempo; suave, mas firme.

Ele me leva de volta para casa, eu me jogo no sofá e ele vai para a cozinha. Volta com uma garrafa de vinho tinto e duas taças. Serve-me uma, tira meus sapatos, encosta-se e coloca minha cabeça no seu ombro. Começa a afagar meus cabelos. Um arrepio percorre meu corpo. Olho para cima e ele está me observando sorrindo meigamente.

- Preciso te falar uma coisa.

- O que? – pergunto eu, sorrindo como quem está voando.

- Preciso ir, o Paulão falou que vai passar em casa pela manhã e eu estou morrendo de saudade dele.

Ele se despede e vai embora. Fico olhando para as taças sujas de vinho vazias na mesinha de centro depois de fechar a porta e penso: mas que viado filho de uma puta!

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Fev 24

O Gladiador

Acordou cedinho e colocou os óculos com suas grossas e pesadas lentes. Olhou-se no espelho, apenas de cueca, pensou na grana que gastou em seis meses de academia e em como essa grana parecia pouca e barata perto do sofrimento e das dores que sentia durante e após as sessões de exercícios. Estava mais esquelético do que nunca.

Entrou na cozinha e deu um pulo quando o pé descalço tocou a água fria, a cozinha estava inundada. Por algum motivo, a geladeira descongelou no meio da noite e uma água misturada com os resíduos de comida estava espalhada pelo chão, o que fez o cômodo lembrar brevemente um pântano. Suspirou e mesmo assim entrou cozinha adentro.

Abriu a geladeira e uma nova onda de água gelada banhou sua canela, pegou uma caixa de leite e despejou no copo, mas pelotas de gordura com cheiro característico encheram o copo. Pareceu ver um rosto sorrindo entre o leite. Deixou o copo sobre a pia.

Tomou um banho, se vestiu e ao sair passou pela caixa de correspondências. Lá tinha contas, propagandas, contas, folhetos, contas, contas e contas. Suspirou mais uma vez, movimentou os ombros e os deixou cair como de costume.

Chegou a parada e o ônibus não demorou, no entanto, não havia lugar para ele se sentar. Uma senhora gorda com um cheiro estranho o espremia de um lado e um loiro musculoso do outro. Ele não teve espaço para suspirar, mas pensou o que aconteceria se ele pisasse na garganta da mulher gorda, e o pensamento lhe trouxe um certo prazer tenebroso no seu âmago.

No trabalho e entrou no segundo elevador que chegou ao térreo, por que o primeiro fechou a porta na sua cara. Sentou no seu cubículo sem cumprimentar ninguém e ligou o computador. O plano de fundo do seu equipamento era uma imagem de um filme antigo, então, ouviu aquele personagem falar com ele. Não era uma voz em sua cabeça, era uma voz vinda do passado.

Com sua cabeça inclinada para frente e para a direita, levantou suas sobrancelhas, sem mexer nenhum músculo além do necessário.

Seu gerente apareceu na porta e começou a falar com ele, reclamando sobre o atraso de um relatório, mas ele não ouvia. Seu olho esquerdo começou a pular compulsivamente, como um personagem de desenho animado em uma crise de nervos, mas tudo o que ele ouvia era o som de espadas, escudos, cavalos, lanças e por fim ouviu uma ordem retumbante.

Levantou tão rápido quanto um raio. O gerente não teve tempo nem de entender o que aconteceu quando o teclado acertou sua cabeça, a sensação foi como uma martelada em sua têmpora, ele sentiu o sangue começando a escorrer pelo rosto ao mesmo tempo que uma dor lancinante atingia seu cérebro. Atordoado, ele tropeçou e caiu derrubando as lixeiras, fazendo um grande barulho. Cabeças apareceram de seus cubículos para identificar a origem do estardalhaço, e tudo o que puderam ver foi o momento em que ele, com o pé esquerdo sobre o corpo do gerente caído no chão, rasgou sua camisa, soltando um rugido de ira tão forte e alto, que fez as pessoas do escritório sentirem suas espinhas se retesando como em resposta a um medo ancestral.

Viram ele saindo, camisa (ou o que sobrara dela) aberta com um peito branco, quase pálido, sem pêlos, a mostra. Em uma mão segurava o teclado como quem segura a lâmina de uma gládio e em outra o monitor LCD como um escudo com os fios pendurados. Avançou gritando, pisando sobre o gerente, que ainda não tinha se recuperado do susto.

Acertou Reinaldo, o colega de trabalho que fazia piadinhas sobre seu porte físico e montagens com suas fotos, com o teclado com tanta força, que o periférico se despedaçou. Por um momento, seus dentes e as teclas do teclado foram vistos saltando ensanguentados de sua boca. Tudo o que ele sentiu foi um estalo no maxilar e de repente teve a sensação de estar no coliseu romano, tendo seu rosto esmigalhado por um bárbaro. Reinaldo desmaiou no momento em que sentiu os dois pés do colega de trabalho ensandecido pousarem violentamente sobre seu peito. Ele estava sendo literalmente esmagado pelo outro, que pulava sobre ele como um gorila em fúria.

Paulo, o moreno forte que havia recebido a promoção que ele estava de olho, correu para tentar segurá-lo, mas com a agilidade de um samurai, ele desviou-se e, continuando o movimento, acertou a nuca de Paulo com o monitor, derrubando-o em um único golpe. Paulo ainda teve tempo de pensar em por que tinha se levantado da cama naquele dia, sentiu muita dor, e um formigamento estranho pelo corpo todo antes que o gladiador começasse a girar o monitor sobre si mesmo como uma maça medieval, e por fim o pousasse pesadamente em sua cabeça.

Seguiu mais a frente, já todo ensanguentado e com o olhar mais determinado que jamais exibira em sua vida. Derrubou mais quatro homens, incluindo um segurança. Neste ponto, já não possuia mais armas, tudo o que usava era seus punhos, até que dois encarregados e dois funcionários conseguiram, por fim, derrubá-lo.

Ele continuava a gritar em fúria, proferia palavras, mas não parecia nenhum idioma conhecido e às vezes apenas rugia, liberando toda a raiva concentrada que esteve contida em seu peito.

A maioria dos seus colegas de trabalho ficou perguntando-se “qual mesmo era seu nome” ou “como ele enlouqueceu”.

Ele gritava palavras ininteligíveis enquanto era arrastado para fora do prédio. Nunca mais foi visto.

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Fev 20

Que nome darei?

Ele caminhava a passos largos pelo corredor, forçando-a a quase correr atrás dele com seus saltos altos e saia justa.

- Levamos muito a sério o processo de criação aqui na Beleza Pura Cosméticos.

- Entendo senhor.

- O Antônio falou onde você vai trabalhar.

- Ele falou apenas que era na área final de criação mas não foi especifico.

- Ok, é aqui.

Ele abre a porta e deixa que ela entre primeiro, uma sala grande com várias mesas amplas separadas com divisórias de um tom vermelho forte com o logo da empresa em relevo.

- Atenção por favor – falou o gerente com a voz em brado. Nem todos pararam o que estavam fazendo para olhar – Essa é Mônica, ela vai trabalhar na equipe de criação.

Mônica ruborizou e se sentiu no primeiro ano da faculdade de novo.

O Gerente seguiu entrando pela sala, Mônica olhava fixo para frente enquanto sentia os olhares que a acompanhavam.

- Esse é o Marcos – aponta o gerente para um rapaz baixo com uma camisa para fora da calça e ar despojado – ele vai te mostrar o que fazer.

Marcos se levanta e cumprimenta Mônica com um aperto de mão firme.

- Oi Mônica, esse aqui vai ser seu. O pessoal do RH passou seu login e senha para a rede?

- Passaram sim – respondeu Mônica, ainda sentindo o rosto queimar.

O gerente se despede e sai da sala com o mesmo passo largo.

Marcos começa a explicar o que Mônica vai fazer. Ela será responsável por dar nomes a uma nova linha de esmaltes. Marcos entrega a ela uma pasta com o projeto, as cores, embalagens, público alvo e até dados de produção.

- É bem simples Mônica, cada cor recebe um nome e depois vai para aprovação.

Mônica agradece a ajuda e começa a folhear a pasta, começa olhando para os dados de público, as cores, pesquisa sobre áreas de mercado, tendências, envia perguntas para várias comunidades na Internet e começa a pensar que esse não é um trabalho tão simples. O vermelho mais intenso da coleção é obviamente destinado a mulheres que querem impressionar, o rosa tem umas dez variações, alguns para mulheres que fazem o papel de mais meninas, outros para as mais ousadas.

Depois de algumas horas de trabalho, ela percebe que ainda faltam mais de 40 esmaltes para receber nomes. Começa a ficar nervosa, primeiro dia de emprego, recém formada, como passam uma tarefa assim tão importante no primeiro dia? Percebe que está suando nas mãos e devorando a tampa da caneta com mordidas nervosas.

- Marcos – Mônica fala por cima da divisória em um volume tão tímido que ele quase não ouve.

Marcos envia uma última mensagem para a morena de cabelos curtos com quem ele tem conversado a alguns dias em um chat na Internet e desvia sua atenção para Mônica.

- Você pode me dar uma ajuda Marcos? – ela diz em tom de súplica.

- Claro – ele se levanta e dá a volta na mesa.

Ela explica seu dilema, a sua atenção para dar os nomes de maneira adequada com as cores e a imagem que o produto tem que passar e como isso está enlouquecendo sua cabeça. Marcos ri abafado, ela olha com cara de reprovação. Ele engole a risada e explica.

- Mônica, é bem mais simples que isso. Espera aí que vou te mostrar – puxa uma cadeira do lado da dela e se senta – onde você passou suas últimas férias?

- Como? – responde a moça sem entender nada.

- Onde você passou suas últimas férias?

- Em uma praia da Bahia. O que isso tem haver com a coleção?

- Boa! – exclama Marcos enquanto avança sobre o teclado do computador como quem tivesse feito a descoberta da resposta de um grande mistério.

Ele digitou no website de buscas “praias do litoral brasileiro”. Uma grande lista com mais de cem praias foi listada.

- Pronto, um nome para cada cor.

- Você está me gozando?

- Mônica, confia em mim – disse ele sério.

Dois dias depois, o gerente atravessa a sala com seus passos largos até a mesa de Mônica, toca-lhe no ombro.

- Os gerente adoraram a coleção com nome de praias. Grande trabalho! – e dando meia volta, retorna por onde entrou, deixando a novata com cara de boba.

- Marcos? – ela chama por cima das divisórias.

- Oi! -  ele responde.

- Hoje eu pago o seu almoço!

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Baseado no artigo: http://msn.lilianpacce.com.br/home/nomes-de-esmaltes/

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Fev 15

A torneira da pia que pingava

O marido se levanta lá pelas 6:30 da manhã para tomar um gole de água e assaltar a geladeira (não necessáriamente nessa ordem) e a torneira da pia que pingava, escorria seu liquido fujão por debaixo da pia, formando uma discretíssima poça de água bem no corredor. O resultado não poderia ser outro, ele leva um baita escorregão, seguido de uma desastroza tentativa de se segurar em algum suporte sólido o suficiente para salvar seus 90kg de encontrar o chão molhado.

Nessa parte da narrativa seria adequado colocar uma onomatopeia para representar seu tombo, mas não encontrei nenhuma que fosse fazer justiça ao barulho surdo da queda.

- Dá pra fazer menos barulho aí, que isso, poxa vida… – solicita a esposa preocupada.

- Eu estou ótimo, obrigado por perguntar!!! – tentando descobrir qual osso que se quebrou.

No dia seguinte pela manhã, resolve consertar a porcaria da torneira, enquanto a esposa levava a filha ao médico. Certo que era apenas o caso de passar aquela fita molenga branquinha e apertar a dita cuja torneira e seus problemas estariam acabados.

Usando uma velha chave inglesa, solta a torneira com a estranha sensação de estar esquecendo alguma coisa. A sensação passou assim que a torneira foi disparada contra seu estômago, seguida, imediatamente, por um forte jato de água. Depois de algum esforço, coloca a torneira de volta e fecha o registro da casa.

Retira a torneira da parede, solta o adaptador do filtro e enrola habilidosamente a fita na rosca (olha o respeito), coloca novamente a torneira no adaptador e o adaptador no cotovelo que saia da parede.

Foi aí que a história teve seu momento trágico. Aprendam crianças: Não apertem torneiras com chaves!!! Se achando, o profissional do lar, másculo e habilidoso, exagerou na força, e ouviu um pequeno estralo, mas  sua auto-confiança lhe fez pensar: “Não foi nada”. Abre o registro e a porcaria da torneira agora vazava mais do que antes, na verdade ela estava jorrando água. Retirando novamente a peça, constatou-se pior, ele havia quebrado o cano da parede.

Foi até a loja de material de construção mais próxima, onde o atendente olha para ele e fala:

- “Você apertou isso com uma chave não foi?” , soltando um sorriso cínico em seguida, “Pra essa torneira o senhor vai precisar de um cotovelo de 3 parsec de rosca anti struts (os termos não foram bem esses), o cotovelo é de projeção ou de instrospecção?

- Heim!?!?!?! Como eu fico sabendo isso?

- Ué, tem que tirar o cotovelo pra ver.

- Não me diga que vou ter que abrir a parede!? – enquanto dá um tapa na própria testa.

- Ué, e de que outro jeito dá pra ver? – certeza que o desgraçado estava se segurando para não rir.

Volta para casa e procura pelo martelo. Usando um prego grosso, o martelo, paciência, finalmente remove o cotovelo abrindo um buraco mínimo na parede, volta a loja.

- Ôôia, o senhor voltou rapidinho, que coisa! E tirou o cotovelo certinho!

- Tá me sacaneando?

- Como?

- Nada! E aí, você tem essa peça?

- Tem, sim senhor. O senhor também vai precisar disso aqui – Joga um tubo de cola no balcão e explica o procedimento. Nisso aparece o dono da loja, olha a peça quebrada no balcão e fala:

- Apertou a torneira com uma chave não foi?

- (…)

No final, cola o cotovelo no cano, encaixa o adaptador devidamente vedado e a torneira, a esposa chega em casa quando ele terminava de limpar a pia.

- Poxa, que bagunça que você fez só pra apertar uma torneira! Você não apertou com chave não né?

- Eu não quero conversar sobre isso!

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Fev 08

Bolsa de mulher

Dizem que você pode conhecer muito de uma mulher pelo que ela carrega na bolsa. Discordo. Acho que por mais que você conheça uma mulher nunca poderá usar o termo “muito” em relação isso.

A bolsa de uma mulher pode ser algo que pode variar de extremamente simples a algo até mesmo maligno.

Já vi mulheres que carregavam guarda-chuvas em suas bolsas, daqueles pequenos que se dobram até ficar com apenas trinta centímetros, notem que aparentemente isso não é algo ruim ou estranho. Notem que denota certa prudência, até uma lógica, se elas não carregassem o maldito guarda-chuva o verão inteiro. Na primeira chuva que cair perdem o maldito guarda-chuva.

Aposto que já viram mulheres que carregam chinelos ou sapatos, dependendo do momento, usam o sapato quando estão no jantar ou na festa, e quando saem a primeira coisa que fazem é calçar o chinelo. Pergunto-me por que não usar um sapato confortável em tempo integral. Mas mulheres e seus sapatos são assunto para outro (vários) textos.

Já me recusei a mexer em uma bolsa de mulher. “Pode pegar a minha carteira na minha bolsa, por favor?” Abro aquele acessório peculiar e descubro que não quero colocar a minha mão lá dentro mesmo se eu conseguisse ver a carteira lá. Certa vez saquei o que parecia ser uma carteira e era um porta-absorvente.

Existem algumas que carregam a suas câmeras, mas as mais exóticas são as que levam fotos. Para lembrar dos entes queridos? Não! Para ilustrar suas conversas. Houve uma vez que uma velhinha sentou ao meu lado no ônibus e começou a me exibir fotos dos filhos, netos, cachorros e outros personagens de sua vida ignorando completamente o fato de eu estar com fones de ouvido e um livro aberto sobre meu colo. Foi uma viagem longa.

Lembro-me dos desenhos animados e filmes em que as mulheres se defendem batendo em um marginal qualquer com suas pesadas bolsas, tal qual um guerreiro medieval manipulando uma mortal maça estrela com correias de couro. Depois descobri que isso é coisa da ficção, as mulheres nunca usariam suas preciosas bolsas Gucci ou Chanel para acertar a cabeça de uma pobre vítima.

Quero falar em especial de uma pessoa com quem estive em uma loja que vende bolsas e carteiras. Ela passou quarenta longos minutos escolhendo uma carteira, fez questão de comprar uma com divisão para uns vinte cartões bancários diferentes, “agora vou mantê-los organizados” ela argumentou. Na primeira oportunidade que saca um cartão, paga uma conta, e o que faz? Joga a porcaria do cartão dentro da bolsa. Resultado: na próxima vez que precisa do maldito cartão passa vinte minutos tirando câmeras, fotos, guarda-chuva e a multi dividida carteira para encontrar o cartão largado no fundo da perniciosa bolsa.

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As bolsas que inovam o “look” também refletem a personalidade da mulher

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Fev 26

Diálogo de um casal comum

O jovem casal abraçado no sofá vendo um filme. Ela com as pernas sobre o móvel, ele abraçando sobre os ombros dela e com o outro braço aberto sobre o sofá, pernas esticadas e balançando o chinelo.

Ela se surpreende com a cena em que um casal de personagens revela um dos segredos da historia com um beijo.

- Não acredito, eles estão tendo um caso. E agora?

- Aposto que vão tentar fugir com as joias antes que alguém descubra – argumenta o marido menos envolvido na trama pensando em como aquela era uma historia clichê.

- Como pode um homem fazer uma coisas dessas?

- Qual parte? Matar, dar um golpe de milhões ou ter um caso – pergunta o cônjuge lista as atrocidades do vilão daquela trama cinematográfica barata.

- Ter um caso ora – responde a esposa sentando-se direito no sofá com ar de indignação.

O marido acha graça, entre assassinatos e estelionatos o que a deixou mais chocada foi adultério.

- Apenas acontece… – e se volta para o filme.

- Como assim acontece?

- O que? – sem tirar os olhos da televisão.

- Como assim acontece?

- Como assim acontece o que? – pergunta novamente o esposo já sentindo que falou alguma besteira.

- Você sabe do que estou falando! – esposa já começa a buscar o controle remoto para desligar a televisão.

O marido já preocupado começa a pensar no que foi que falou de errado.

- Não! Não sei do que você esta falando!

Televisão desligada.

- Como assim “acontece de um homem ter um caso”?

- Haaaa, é isso amor, bobagem.

- Um caso é uma bobagem? Traição? A destruição da nossa família? E nossos filhos?

- Não temos filhos.

- Isso não faz diferença.

- Eu estava falando do filme meu amor.

- Quem me garante que não era o seu subconsciente querendo me falar algo?

- Meu benzinho – ele faz aquele olhar que sabe que quebra as barreiras dela, ela desvia o olhar emburrada, ele a abraça – Olha pra mim benzinho.

- Sai pra lá!

- Eu te amo, te amo demais, larga de besteira – beijo no pé da orelha, golpe baixo para encerrar o assunto.

- Para… – como quem diz “continua”

- Eu amo minha esposinha linda e não preciso de mais ninguém – segue o marido ainda usando diminutivos de forma infantil.

- Está bem, desculpa.

- Vamos continuar vendo o filme?

- Ok – ela liga a televisão de novo.

Alguns minutos depois durante o intervalo comercial.

- Amorzinho. Você já me traiu? – ela pergunta demonstrando certa serenidade.

- Claro que não benzinho.

- Se tivesse me traído contaria?

- Claro que não benzinho.

- COMO ASSIM CLARO QUE NÃO SEU TRASTE!!!

- Ops…

- Ops?!?! Ops?!?! É essa sua reação.

- Não amorzinho, é que se eu hipoteticamente traísse você não te contaria isso quando você perguntasse.

- O QUE?!?!?!

- Não, espera, não foi isso que eu quis dizer.

- Então o que você quis dizer?

- Que eu nunca trairia a mulher perfeita!

- Perfeita? Eu? Sério?

- Claro amorzinho, para com isso – abraça-a mais forte.

- Mas se você traísse você me contaria?

- Claro que não benzinho.

- O QUE?!?!

- Ai ai! Vai ser uma longa noite..

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Fev 19

Insubstituível

Baseado em uma dessas mensagens motivacionais que você recebe por e-mail.

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O ar-condicionado deixou a sala extremamente fria, mais que o normal, o garçom passava distribuindo os copos de água. O gerente estava vermelho, sua careca brilhando sobre a luz das lâmpadas. Ele esbravejava em pé.

- Isso foi inaceitável; um dos nossos principais clientes na concorrência. Inaceitável.

A maioria estava de cabeça baixa, folheando os relatórios passados, olhando os gráficos. Reuniões tensas como essa na empresa envolvendo a equipe estavam virando uma rotina.

- Como isso aconteceu? – esbravejou novamente.

O gerente respirou fundo, pegou seu copo de água recém servido tomou um gole, sentou-se devagar olhando para a mesa. Depois levantou os olhos olhando para todos na mesa.

- Preciso lembrá-los de que ninguém é insubstituível?

O ar pareceu congelar, todos pareciam ter segurado a respiração, era claramente uma ameaça. Ele acrescentou:

- Teremos que diminuir a equipe.

Nesse ponto não foi apenas a respiração que prendemos.

Um silêncio que durou apenas alguns segundos, mas pareceu uma eternidade foi quebrado.

- Senhor? – era o jovem novato, contratado há seis meses para “reforçar” a equipe, conhecido por ser ousado e criativo.

- Que foi? – responde o gerente quase gritando para o “atrevido”, quase soltando um palavrão em seguida, pronto para tritura-lo.

- E o Beethoven? – perguntou o jovem.

- Quem?

- O senhor disse que ninguém é insubstituível e quem substituiu o Beethoven?

Silêncio.

O jovem se sentiu confiante com a hesitação e prosseguiu.

- Quem substitui Beethoven, ou Ayrton Senna, ou Elvis Presley? O talento não pode ser substituído senhor, esses nomes marcaram a historia fazendo o que gostavam e sabiam fazer bem, e jamais poderiam ser substituídos, portanto, se me permite discordar, a afirmação que ninguém é insubstituível está incorreta.

Os presentes se entreolharam, alguns inclinaram a cabeça, pensativos, claramente entendendo e concordando com aquele raciocínio.

O gerente que encarava o rapaz então levantou a cabeça, olhou alguns segundos para o teto. Suspirou mais uma vez.

- Você tem razão – aparentemente se rendendo ao argumento do rapaz – você está demitido!

- O que?!?!? – argumentou o rapaz com a boca torta e o rosto tremendo com o choque.

O gerente ignorou a reação dele, se voltou para o diretor de recursos humanos.

- Você! Contrate alguém com o talento de um Beethoven! – reunião encerrada.

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