Abriu a porta e apareceu com seu vestido vermelho curto, seu salto alto e seu cabelo solto. Olhou para cima e abriu um sorriso ao olhar para a lua. Sentiu-se como se tivesse de novo vinte anos, apesar de nunca ter agido assim quando realmente o tinha.
Caminhou pela rua estreita andando fora da calçada, acenou com uma ponta de escárnio para a a vizinha da frente que observava tudo com olhar de reprovação. A vizinha recolheu sua cabeça coberta pelo lenço para dentro de casa antes de bater a janela dizendo em tom indiscreto para que pudesse ser ouvida:
- Vagabunda!
Ao invés de ficar chateada ou responder, ela apenas sorriu fazendo pouco caso.
Antes de chegar ao final da rua cruzou com a benemérita presidenta da associação de moradores do bairro. Esta olhou para ela dos pés as cabeça, desviou o olhar com um movimento brusco da cabeça quando notou seu sorriso de satisfação.
- Piriguete!
Ao cruzar com o marido da louvável presidenta, que se apressava caminhando atrás da esposa segurando as pesadas sacolas de compras, cumprimentou polidamente.
- Boa noite, Alberto!
- Boa!… noi… noite – gaguejou enquanto se equilibrava entre segurar as compras, desviar o olhar das longas pernas e não derrubar as sacolas.
Ela se afastou segurando a risada enquanto ouvia a esposa que repreendia o marido por dar atenção para “essa mulherzinha”.
Lembrou da época que era convidada para jantar com os vizinhos, de quando chorava no sofá delas sofrendo suas dores amargas, de quando consternava-se melancólica enquanto observava as famílias “amigas” a sua volta trazendo lembranças doloridas.
Lembrou de tudo isso sem nenhuma saudade e continuou caminhando até seu destino com o mais malicioso dos sorrisos nos lábios.
