Tagged: Crônicas

Mai 20

No final

Não viu a porta se abrir, nem mesmo quando ele entrou no quarto, apenas olhou para o lado entre um suspiro e outro e lá estava ele.

Terno preto com riscas de giz, gravata vermelho sangue, um elegante chapéu, um sorriso no rosto maduro e cheio de marcas de expressão.

- Boa noite Cleber – disse ele com uma voz firme e grave – eu cheguei

Cleber achou que teria dificuldade para se ajeitar no leito e olhar direito para o visitante, mas foi fácil.

- Eu sei quem você é, e sei por que você está aqui.

O elegante homem sorriu.

- É claro que sabe, quando chega a hora todos sabem.

- E já está na hora? – perguntou Cleber com um pingo de esperança.

- Eu nunca chego antes da hora, nem depois da hora, eu sempre chego na exata hora de cada um.

- Mas todos te evitam.

Cleber abaixou os olhos e inspecionou seus sentimentos.

- Estranho, achei que quando você chegasse eu seria tomado por medo, desespero, mas estou tranquilo, sereno.

- Sim, a maioria sente a tranquilidade da inevitabilidade do momento, algo que se vocês aceitassem com mais frequência seriam mais felizes. Vocês passam a vida tentando evitar o inevitavel e gastando tempo e energia com o que não é importante, depois reclamam que a vida é curta.

- E vai ser assim, apenas eu e você?

Ele sorriu de novo

- É sempre assim Cleber, eu vou até vocês de forma individual e exclusiva, para todos vocês, sempre sozinhos.

Cleber pareceu sentir-se triste pela primeira vez durante esta conversa, olhou para cima, e viu o rosto familiar de seus filhos, estavam olhando para ele, e seguravam suas mãos.

- Meus filhos estão aqui, não estou sozinho.

- Mas você vem sozinho comigo, vocês chegam e saem sozinhos, não importa as condições, o choro de entrar nesse mundo é apenas seu, a hora da partida também.

Cleber olhou novamente para os filhos, sem deviar os olhos deles perguntou:

- Eu fiz o que tinha que fazer?

Não recebeu resposta nos primeiros instantes então se virou novamente para a figura sóbria sentada ao lado dele, ele parecia distraído acendendo um charuto.

- Se você cumpriu sua missão? Não sei, não é minha função saber, mas se você quiser saber eu aprendi algumas coisas durante essa eternidade.

- Que tipo de coisa? – perguntou Cleber estranhando o rumo da conversa.

- Bem – disse ele dando uma tragada no charuto – você teve filhos, isso aumenta a sua herança.

- Herança?

- Sim, o que você deixa para o mundo, sua marca, sua assinatura, sei que deixar uma boa assinatura é algo bom. Você também foi um bom amigo até onde observei.

- Eu não fui uma pessoa exemplar apesar disso tudo.

- Sim, eu sei disso também, quase ninguém é, acho que vocês vivem em dias que o parametro do que é bom e ruim, certo e errado ficou muito complexo de ser compreendido, vocês sempre distorcem tudo, mas não é meu trabalho julgar.

- E o que vem agora?

- Também não sei – ele encarou o olhar de questionamento de Cleber por entre a fumaça do charuto – sério, não sei, não é meu trabalho, eu apenas levo, mas você vai descobrir assim que eu deixá-lo. O que posso falar é que o passeio é mais bonito na saída desse mundo que na chegada, paradoxal não é? Todos pensam que existe dor e choro, mas do meu lado não é assim, claro que alguns dão mais trabalho, mas no final todos entendem.

- Acho que entendo, chegar aqui é mais tumultuado, mais doloroso.

- É isso mesmo – respondeu com uma nova tragada no charuto – mas é disfarçado com festa e alegria pela nova vida, ninguém pensa que esse final é inexoravel, ninguém gosta de pensar sobre isso, talvez se vocês me vissem como realmente sou, o outro lado da mesma moeda…

- Bem, já que não tem nada que eu possa fazer, podemos ir? Está na hora?

- Como falei, nunca chego nem antes, nem depois da hora, vem comigo, eu te mostro o caminho.

E Cleber fechou os olhos, e não abriu mais…

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Mai 08

Bolsa de mulher

Dizem que você pode conhecer muito de uma mulher pelo que ela carrega na bolsa. Discordo. Acho que por mais que você conheça uma mulher nunca poderá usar o termo “muito” em relação isso.

A bolsa de uma mulher pode ser algo que pode variar de extremamente simples a algo até mesmo maligno.

Já vi mulheres que carregavam guarda-chuvas em suas bolsas, daqueles pequenos que se dobram até ficar com apenas trinta centímetros, notem que aparentemente isso não é algo ruim ou estranho. Notem que denota certa prudência, até uma lógica, se elas não carregassem o maldito guarda-chuva o verão inteiro. Na primeira chuva que cair perdem o maldito guarda-chuva.

Aposto que já viram mulheres que carregam chinelos ou sapatos, dependendo do momento, usam o sapato quando estão no jantar ou na festa, e quando saem a primeira coisa que fazem é calçar o chinelo. Pergunto-me por que não usar um sapato confortável em tempo integral. Mas mulheres e seus sapatos são assunto para outro (vários) textos.

Já me recusei a mexer em uma bolsa de mulher. “Pode pegar a minha carteira na minha bolsa, por favor?” Abro aquele acessório peculiar e descubro que não quero colocar a minha mão lá dentro mesmo se eu conseguisse ver a carteira lá. Certa vez saquei o que parecia ser uma carteira e era um porta-absorvente.

Existem algumas que carregam a suas câmeras, mas as mais exóticas são as que levam fotos. Para lembrar dos entes queridos? Não! Para ilustrar suas conversas. Houve uma vez que uma velhinha sentou ao meu lado no ônibus e começou a me exibir fotos dos filhos, netos, cachorros e outros personagens de sua vida ignorando completamente o fato de eu estar com fones de ouvido e um livro aberto sobre meu colo. Foi uma viagem longa.

Lembro-me dos desenhos animados e filmes em que as mulheres se defendem batendo em um marginal qualquer com suas pesadas bolsas, tal qual um guerreiro medieval manipulando uma mortal maça estrela com correias de couro. Depois descobri que isso é coisa da ficção, as mulheres nunca usariam suas preciosas bolsas Gucci ou Chanel para acertar a cabeça de uma pobre vítima.

Quero falar em especial de uma pessoa com quem estive em uma loja que vende bolsas e carteiras. Ela passou quarenta longos minutos escolhendo uma carteira, fez questão de comprar uma com divisão para uns vinte cartões bancários diferentes, “agora vou mantê-los organizados” ela argumentou. Na primeira oportunidade que saca um cartão, paga uma conta, e o que faz? Joga a porcaria do cartão dentro da bolsa. Resultado: na próxima vez que precisa do maldito cartão passa vinte minutos tirando câmeras, fotos, guarda-chuva e a multi dividida carteira para encontrar o cartão largado no fundo da perniciosa bolsa.

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As bolsas que inovam o “look” também refletem a personalidade da mulher

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Mai 18

Moisés

E estava Moisés no deserto pastoreando algumas cabras e pensando na vida

- Que decadência viu, de príncipe do Egito para pastor de cabras, não que o Jetro meu sogro não seja gente boa, a filha dele é boa esposa mas pôxa, eu era príncipe…

Nisso Moisés nota algo estranho ao longe

- Que ótimo, alguém botou fogo numa sarça, já quase não tem o que as cabras comerem e ainda tacam fogo na vegetação local, bando de irresponsavel.

Nisso a chama da sarça se intensifica.

- Bem, deixa esse negocio queimando ai… vou pra casa.

A chama aumenta ainda mais.

- Coisa estranha, bem, vou indo.

A chama sobe a dez metros de altura por cinco de largura.

- Mas que coisa heim, da próxima vez que for buscar lenha eu vou pegar só sarça. Fui!

Nisso uma voz vem de lugar nenhum

- Putz, que pastor burro… Moisés!!!!

- Heim, quem chama?

- MOISÉS!!!!

- Que foi?!?!?

- Aqui na sarça!!!

- Onde?

- Na sarça pôxa, uma sarça que queima a dez metros de altura e não se consome e você só pensa em ir para casa?

- Na verdade eu já estou indo, falou heim – saindo apavorado.

- MOISÉS!!! – A terra treme.

- Qu… que que fo… foi.

- Venha até mim.

- É que a Zípora minha esposa deve estar…

- AGORA!!!!

- Estou indo, estou indo…

Ao se aproximar da sarça ardente a voz volta a falar depois de um leve pigarrear.

- Moisés, tire suas alpargatas por que o solo…

- Já já es… estou ti.. tirando, é pra tirar eu tiro…

- Fica quieto e para de gaguechar, deixa eu acabar de falar pô.

- É, sim Senhor, claro…

- Onde eu estava mesmo? A sim, Moisés, tire suas alpargatas por que o solo onde você pisa é sagrado!

- Já já ti.. ti.. tirei, escuta “voz-de-trovão-que-vem-da-sarça-ardente-que-queima-e-não-se-consome”, o que… que… quer de mim?

- Moisés, eu sou o Senhor do seu povo, o Senhor de Israel, de Jacó, de Isaac, de Abraão.

- De quem?

- Mas que porcaria de judeu você é que não conhece Jacó, Isaac e Abraão?!?!

- Desculpe, eu fui criado pelos egípcios.

- É eu sei, por isso escolhi você, você já tem intimidade com a família do faraô.

- Na verdade eu fugi de lá por que eu matei um capataz egípcio e ele era meio enrolado com a esposa de um general e eu fiquei com medo de…

- Está bem, está bem, fica quieto homem…

- Ok, calei-mei.

- Eu ouvi o lamurio do meu povo por clêmencia, para que eu os liberte da escravidão dos egípcios.

- Que legal, que ótimo.

- E eu escolhi você para liderar o povo.

- Maravilha, eu sabia, eu sabia.

- Você vai guiar meu povo até uma terra maravilhosa onde eles vão viver.

- Eu sabia, sabia que eu tinha nascido para algo importante.

- Para isso quero que você vá até o faraô e diga-lhe para libertar todos os escravos israelitas imediatamente.

- Está de sacanagem né???

- O QUE??!?!?!?! – a terra treme de novo.

- Que… que… quero disser, mas como, co co como eu um simples pastor vou convencer o faraô que…

- Moisés, você não me conhece. Eu sou Jeová, sou o Verbo, aquele que tudo fez e sem mim nada foi feito, eu fiz toda a carne e tudo o que vive, em resumo, eu sou fodão. Te darei o poder para realizar a tua tarefa.

- Sério?

- Sério! Eu não dou nenhuma ordem sem preparar antes o caminho.

- Então o faraô não vai me matar?

- Que nada…

- Então tudo bem, mas como eu vou convencer o faraô que eu fui enviado pelo Senhor de Israel.

- Moisés, jogue o seu cajado no chão

E quando Moisés obedeceu seu cajado se transformou em uma serpente.

- Ai caramba – gritou Moisés antes de sair correndo esquecendo até as alpargatas para trás

- Hey, Moisés, volta, volta! VOLTE MOISÉS – terra tremendo de novo

Moisés volta pé ante pé sem tirar os olhos da cobra

- Agora Moisés, pegue a serpente pela cauda.

- Mas de jeito nenhum.

- Pode pegar, vai por mim.

- Mas olha o tamanho dela

- Você é um homem ou o que?

- Tem jeito de ser venenosa.

- PEGA LOGO!!!

- Tá bom, espera ai, tá bom, ai caramba…

Então Moisés, por livre e espontânea pressão, estica a mão e cuidadosamente pega a cobra pela cauda que instantaneamente se converte novamente em cajado

- Nossa, truque legal, eu vou pregar um susto na Zípora que ela nem…

- Moisés, parta agora de volta para o Egito e liberte meu povo. Pelo seu cajado você executará meus sinais.

- Certo, olha é uma viagem meio longa, o Senhor não podia me arrumar algo além de um cajado que vira serpente, não que não seja uma coisa bacana mas é que…

- VAI LOGO!!!

- Estou indo, já fui…

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