O pequeno comboio parou em frente a um grande edifício cinza no meio do nada e eu não fazia à mínima ideia de onde estava, um homem usando terno preto e óculos escuro abriu a porta da Land Rover.
- Rápido doutor, estamos atrasados!
Desci do veículo, agarrado a minha pasta, sem entender muito bem o que acontecia. Menos de duas horas atrás eu estava na minha casa tomando café da manhã, e agora estou no meio do que parece ser uma instalação secreta do governo.
Atravessamos tantas portas blindadas que não saberia dizer o número e então entrei em uma sala e fui surpreendido pela visão de ninguém menos que o Presidente.
- Doutor, é um prazer cumprimentá-lo.
Só consegui balbuciar um “igualmente senhor”, o que sucedeu após esse encontro foi ainda mais surpreendente, fui levado a uma sala onde me foi oferecida uma cadeira junto a uma mesa solida de metal onde consegui identificar, sentados em cadeiras semelhantes, algumas das mais brilhantes mentes da nossa época, físicos, matemáticos, teólogos e mais tarde fiquei sabendo até mesmo músicos e agora eu me juntava a esse seleto grupo.
Mesmo sendo um antropólogo reconhecido e confesso sem falsa modéstia, bastante premiado me senti pequeno enquanto me sentava na gelada cadeira.
- Senhores – começou a falar o presidente – peço desculpas pelas circunstâncias que foram convocados aqui essa manhã, mas tenho certeza que todos vão concordar que situação requeria tal medidas.
Várias possibilidades começaram a passar pela minha cabeça, nenhuma delas chegava nem perto da verdade.
- Ontem às duas horas da manhã segundo o horário do pacifico fomos contactos pelos serviços de segurança aeroespacial e pelo departamento de segurança do estado que estávamos recebendo a visita de uma entidade alienígena inteligente.
O murmúrio na sala cresceu até se transformar em uma quase explosão de vozes, o presidente teve que ser incisivo para continuar falando.
- Tal criatura exigiu que as maiores mentes do planeta fossem reunidas para conversarem com ele e por isso vocês foram convocados.
Confesso que ouvir todo o resto foi difícil, não consegui me focar em mais nada além de encontraríamos um ser inteligente de outro planeta. As horas que se seguiram foram usadas para trocarmos de roupa, passarmos por um processo de esterilização e instrução de alguns protocolos. Quando penso nesses momentos enquanto escrevo esse relato tudo fica nublado, mas o momento que estávamos na sala blindada é nítido em minha mente, a sala onde estávamos quando a porta se abriu e dela saiu uma criatura baixa de forma vagamente humanóide meu coração estava saindo pela boca.
As horas que se seguiram depois disso foram puro pesadelo.
Quando ele finalmente deu a reunião por encerrada os militares abriram a porta para que pudéssemos sair, fiquei sabendo mais tarde que uma força havia desativado todos os aparelhos eletrônicos no local e que por conta disso as portas não puderam ser abertas assim que perceberam que as câmeras não funcionavam.
Todos deixamos o lugar em estado de choque, alguns choravam copiosamente, eu mal conseguia andar e arrastava as pernas, voltei a mim com um general gritando enquanto me sacudia pelos ombros.
- Pelo amor do Criador homem. Me diga o que aconteceu lá dentro?
Tive que tomar fôlego e me concentrar como nunca para responder.
- Conversamos…
- Como assim “conversaram” homem, vocês passaram três horas lá dentro, por que estão nesse estado?
- Foi horrível.
- Por favor doutor, conte-nos.
Depois de alguns minutos e um copo de água consegui falar poucas palavras.
- Ele perguntou por que fazemos o que fazemos, tudo, em todos os aspectos e áreas, perguntou por que partimos o coração de outras pessoas, por que temos vergonha de fazer o que é certo, por que matamos nossa própria espécie e outras, por que somos gananciosos, por que somos… minha nossa, foi horrível.
Os militares disseram que provavelmente a criatura usou de alguma forma de poder psíquico e por isso estávamos transtornados daquela maneira, mas todos nós que participamos dessa experiência sabemos que não foi isso. A verdade é que aquela criatura representante de outra civilização que durante décadas estudava nossos hábitos sem entende-los, estava certa em não compreender a grande maioria de nossas ações mais hediondos.
Quando encontrarem essa carta, que deixo para seja lá quem encontrar, já estarei morto, a notícia do meu suicidio provavelmente não virá acompanhada da minha declaração que simplemente não suporto mais a vergonha, a gigante vergonha, e digo mais, a gigante vergonha intergaláctica de ser terráqueo.