Tagged: crônica

Mai 31

Precisamos conversar

Carlos destrancou a porta e, deixando a pasta sobre a mesinha ao lado da porta, entrou anunciando sua chegada:

- Marta, cheguei.

Virou e se surpreendeu com a esposa sentada encolhida no canto do sofá.

- Oi querida, alguma coisa errada?

Marta olhou séria para ele, colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha e disse:

- Senta Carlos, precisamos conversar.

Ele franziu a testa diante do tom de gravidade das palavras de Marta, que esperou ele se sentar, se aproximou, olhou fundo nos olhos dele e segurou suas mãos.

- Primeiro eu quero que você saiba que eu te amo muito, que você é o homem da minha vida.

- Eu também te amo – respondeu Carlos, preocupado – o que está acontecendo?

Marta continuou.

- Eu fiz uma coisa muito errada, estou muito arrependida, mas eu não posso voltar no tempo e – lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto moreno – e eu te amo tanto, não quero te perder, então pensei muito antes de te contar.

Carlos respondeu apenas com um olhar.

- E eu não gostaria que você ficasse sabendo por outra pessoa, por que não seria justo com você, então eu resolvi…

- Ferrar com minha vida? – interrompeu Carlos.

- Como? – respondeu Marta sem entender.

- Ferrar com minha vida! É o que você resolveu? Porque se você fez algo de errado que sabe que vai me fazer sofrer, e vem me contar mesmo sabendo que eu não sei, você quer na verdade me ver sofrer.

Marta precisou de alguns segundos revendo as palavras que ouvira para compreender.

- Agora, se você me ama, você não vai fazer nada para me magoar, mas se você fizer, vai ter o mínimo de respeito de não me deixar descobrir nunca. Afinal, você não me ama?

- Amo – respondeu Marta claramente confusa.

- Então vamos fazer o seguinte, finja que não tivemos essa conversa – e Carlos se levantou do sofá.

- Mas Carlos, eu estou arrependida, estou sofrendo com meu erro.

Carlos se virou já demonstrando certa impaciência.

- O erro foi seu! Sofra sozinha, não venha me fazer sofrer junto! Chora ali no canto da sala em silêncio até passar! Mas não venha ferrar comigo!

Carlos foi para a cozinha jantar uma macarronada com almôndegas e tomar umas cervejas. Marta chorou em silêncio vários minutos, depois pensou nas palavras do marido e achou que realmente era melhor fingir que nada havia acontecido.

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Mai 20

Festa estranha

Já estavam na festa tempo o suficiente para o segundo copo de uísque, Daniel continuava analisando a situação.

- Isso me lembra de Renato Russo, festa estranha com gente esquisita.

Fernando olhou para ele pelo canto dos olhos sem mexer a cabeça e suspirou impaciente.

- Por que você fala isso?

- Já notou a música? Minha nossa! É uma soma gritante de péssimos exemplos. Já notou como vai a nossa música ultimamente? Não existe mais poesia, mensagem. É tudo para entreter, quase como os tambores que guiam o ritmo de escravos vikings remando o navio.

Fernando voltou os olhos para a pista de dança e respondeu apenas com um tímido murmúrio.

- E as pessoas aceitam isso, dançam rebolam, ao som de uma mensagem medíocre.

Neste momento a música mudou para uma seleção de forró daqueles bem bregas que fez os convidados mais animados, e alcoolizados, gritarem em comemoração.

- Pronto – declarou Daniel – agora vai para a fase brega, existe coisa mais brega que isso? Pior que eu acho que existe, aquela lista de música dos anos oitenta estava terrível, tem coisa mais cafona que Sidney Magal? Está de matar, não acha Fernando? Fernando?

Olhou e não encontrou o amigo, percorreu os olhos ao redor, pensou que ele pudesse ter ido buscar outra bebida, mas viu que seu copo continuava sobre a mesa. Encontrou-o dançando de mãos, corpo e rosto colado com uma loira de corpo escultural que sorria com algo que ele falava junto ao ouvido da beldade.

Daniel praguejou revoltado.

- Ninguém mais valoriza a boa diversão!

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Mai 04

Confissão surpresa

José abriu a porta do apartamento e conseguiu ver apenas de relance o rosto de Mônica antes de ela beija-lo de forma quase violenta, agarrando seu rosto. Ele reagiu tentando afasta-la e ela começou a falar.

- Eu tenho um tesão enorme por você José, sempre tive, sei que você é noivo, que ama ela, mas eu tenho isso dentro de mim e vim te confessar isso.

José se afastou e apoiou na parede com os olhos arregalados.

- Eu sonho com você me possuindo de maneira forte, me pegando, rasgando minhas roupas, e eu adoraria que você fizesse isso agora mesmo.

Ela pronunciava as palavras naquele tom característico de quem está embriagada enquanto puxava a blusa com se pudesse tira-la como se fosse o embrulho de um presente sendo rasgado por uma criança

- Então eu sai da festa e vim aqui, vim para fazer sexo selvagem com você, e precisava falar algo antes de perder a coragem.

José olhou para ela como se estivesse completamente sem ar.

- Ai, não acredito – falou ela demonstrando um arrependimento quase sóbrio – o que estou fazendo me oferecendo assim como uma qualquer, me perdoa, eu vou embora.

Virou-se e desceu as escadas quase correndo e caindo se sentindo uma completa idiota, desceu os últimos degraus aos tropeços.

José cambaleou até a cozinha enfiou a cabeça na pia e bebeu um grande gole de água da torneira, finalmente respirou de novo soltou um palavrão de alivio e falou ainda ofegante e tossindo.

- Caramba, quase morro engasgado com o chiclete!

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Mai 09

Eu amo vocês

Pablo sabia que aquele dia chegaria cedo ou tarde, ele não estava pronto para o  momento.

Elas estavam lado a lado, como membros de uma aliança recém-formada para extrair, a força e com uso de atos de tortura se preciso, a verdade de Pablo.

- Deixe-me ver se entendi – começou Mônica – você passou os últimos dois anos enganando a nós duas?

- Não, – respondeu Pablo enquanto terminava de preparar seu uísque – eu não menti para nenhuma de vocês, nunca!

- Você disse que me amava Pablo! – afirmou Elaine com visível embargo na voz.

- E eu amo – disse ele com convicção – e também amo você Mônica.

As duas como se tivessem ensaiado suspiraram e olharam para direções diferentes como se procurando alguma lógica no que acabaram de ouvir.

- Você não vale nada! É um cafajeste! – disse Elaine quase gritando.

- Por quê? Quem esteve do seu lado Mônica, quando você ficou doente? Quem te ajudou a conseguir um novo emprego Elaine?

- E isso te dá o direito de fazer o que você fez?

- E o que foi que eu fiz? – indagou Pablo tomando um gole trêmulo da bebida – eu não amei vocês? Quem leva vocês para jantar toda semana em um restaurante diferente? Quem envia buquês de flores, rosas para Mônica, lírios para Elaine? Quem presenteia vocês com joias e perfumes? Quem leva vocês a orgasmos mult…

- Chega Pablo! – interrompeu Mônica sentindo que aqueles argumentos começavam a soar estranhos – isso não lhe dava o direito.

- Não me dava o direito a que? Não me dava o direito de amá-las? Sim! Eu amo vocês duas, da mesma maneira, com a mesma intensidade e paixão, eu dedico parte da minha vida a vocês duas na mesma dimensão – ele largou o copo sobre o sofá com fisionomia abatida – nunca imaginei que vocês fossem tão egoístas.

- Egoístas? – se espantou Elaine que não se lembrava de ter sido chamada de egoísta antes.

- Claro, egoístas, por que vocês não podem aceitar que eu um homem é capaz de amar duas pessoas? Uma mãe não ama dois filhos? Por que eu não posso amar duas mulheres? Egoístas, egoístas sim!

Elaine abriu a boca para responder, mas não conseguiu decidir qual palavra pronunciar. Pablo continuou.

- Se eu fosse do tipo que maltrata as namoradas, que deixam elas de lado para sair com amigos, que bebe, ou pior, que bebe e bate em mulheres. Eu sou um mau namorado? Sou Elaine?

Elaine gaguejou antes de respondeu

- Não, você não é! Você é… ótimo!

- Eu sou Mônica? Sou um mau namorado?

Mônica levantou as sobrancelhas e respondeu.

- Na verdade você é o melhor homem que eu conheci… que nós conhecemos.

Houve um momento de silêncio desses que duram alguns segundos, mas são tão longos quanto a eternidade, as moças olharam para Pablo que estava de cabeça baixa olhando para o gelo que derretia dentro do destilado, viram uma grande e redonda lágrima escorrer pelo rosto claro de Pablo.

Elaine se virou para Mônica

- Vamos Mônica, eu te dou uma carona para casa.

Elas se viraram, Mônica abriu a porta, ambas olharam para ele ainda de cabeça baixa e terminando de enxugar a lágrima usando a manga da camisa vermelha. Ele levantou o olhar para a porta, deixando expostas muitas outras lágrimas que molhavam seu rosto.

- Eu amo vocês! Amo muito! Como nunca amei ninguém!

Elaine olhou para os olhos de Mônica e foi a primeira a responder.

- Eu sei Pablo, eu sei, eu também te amo meu amor.

Mônica sorriu para ele.

- Boa noite Pablo, eu também te amo.

E elas saíram fechando a porta delicadamente, Pablo se deitou no sofá pensando se poderia superar a perda dos amores de sua vida. Não chegou a conclusão nenhuma além de lágrimas, então preparou outro copo.

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Mai 18

Na minha sombra

Em uma das conversas que um pai tem com o casal de filhos pequenos a menina pergunta.

- Pai, o que eu vou ser quando crescer?

- Bem, eu espero que vocês sejam pessoas honestas e dignas, que cresçam com inteligência e possam caminhar sem minha sombra.

- Por que sem sua sombra? – perguntou o menino.

- É modo de falar filho, quer dizer que vocês vão poder ser virar sem mim, apesar que o papai sempre vai estar por perto pra ajudar.

Já era tarde e todos foram para cama. No dia seguinte a rotina de sempre: levantar, comida para o cachorro, banho, café da manhã, e lá vai o pai levá-los para a escola.

A escola fica próxima e eles vão caminhando. No caminho o pai repara que eles estão mais animados que o normal, pulando e correndo à sua frente, e salta para lá, salta para cá, um empurra o outro, o outro corre para o lado oposto, fazia tempo que não ficavam tão animados logo pela manhã. Em um cruzamento de ruas eles esperam pela mão segura do pai para atravessarem.

- Do que vocês estão brincando? – pergunta o pai curioso.

- Daquilo que o papai falou ontem. – respondeu a menina já subindo na calçada do outro lado da rua.

- O que eu falei ontem?

- Sobre ficarmos na sua sombra – e saiu correndo junto com o irmão tentando pisar na longa sombra do pai que se projetava no chão.

E o pai continuava observando orgulhoso os dois correndo e rindo felizes.

Poeticamente enquanto eles pensavam estar em cima da sombra, na verdade ela se projetava sobre as costas deles.

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Mai 08

Terráqueos

O pequeno comboio parou em frente a um grande edifício cinza no meio do nada e eu não fazia à mínima ideia de onde estava, um homem usando terno preto e óculos escuro abriu a porta da Land Rover.

- Rápido doutor, estamos atrasados!

Desci do veículo, agarrado a minha pasta, sem entender muito bem o que acontecia. Menos de duas horas atrás eu estava na minha casa tomando café da manhã, e agora estou no meio do que parece ser uma instalação secreta do governo.

Atravessamos tantas portas blindadas que não saberia dizer o número e então entrei em uma sala e fui surpreendido pela visão de ninguém menos que o Presidente.

- Doutor, é um prazer cumprimentá-lo.

Só consegui balbuciar um “igualmente senhor”, o que sucedeu após esse encontro foi ainda mais surpreendente, fui levado a uma sala onde me foi oferecida uma cadeira junto a uma mesa solida de metal onde consegui identificar, sentados em cadeiras semelhantes, algumas das mais brilhantes mentes da nossa época, físicos, matemáticos, teólogos e mais tarde fiquei sabendo até mesmo músicos e agora eu me juntava a esse seleto grupo.

Mesmo sendo um antropólogo reconhecido e confesso sem falsa modéstia, bastante premiado me senti pequeno enquanto me sentava na gelada cadeira.

- Senhores – começou a falar o presidente – peço desculpas pelas circunstâncias que foram convocados aqui essa manhã, mas tenho certeza que todos vão concordar que situação requeria tal medidas.

Várias possibilidades começaram a passar pela minha cabeça, nenhuma delas chegava nem perto da verdade.

- Ontem às duas horas da manhã segundo o horário do pacifico fomos contactos pelos serviços de segurança aeroespacial e pelo departamento de segurança do estado que estávamos recebendo a visita de uma entidade alienígena inteligente.

O murmúrio na sala cresceu até se transformar em uma quase explosão de vozes, o presidente teve que ser incisivo para continuar falando.

- Tal criatura exigiu que as maiores mentes do planeta fossem reunidas para conversarem com ele e por isso vocês foram convocados.

Confesso que ouvir todo o resto foi difícil, não consegui me focar em mais nada além de encontraríamos um ser inteligente de outro planeta. As horas que se seguiram foram usadas para trocarmos de roupa, passarmos por um processo de esterilização e instrução de alguns protocolos. Quando penso nesses momentos enquanto escrevo esse relato tudo fica nublado, mas o momento que estávamos na sala blindada é nítido em minha mente, a sala onde estávamos quando a porta se abriu e dela saiu uma criatura baixa de forma vagamente humanóide meu coração estava saindo pela boca.

As horas que se seguiram depois disso foram puro pesadelo.

Quando ele finalmente deu a reunião por encerrada os militares abriram a porta para que pudéssemos sair, fiquei sabendo mais tarde que uma força havia desativado todos os aparelhos eletrônicos no local e que por conta disso as portas não puderam ser abertas assim que perceberam que as câmeras não funcionavam.

Todos deixamos o lugar em estado de choque, alguns choravam copiosamente, eu mal conseguia andar e arrastava as pernas, voltei a mim com um general gritando enquanto me sacudia pelos ombros.

- Pelo amor do Criador homem. Me diga o que aconteceu lá dentro?

Tive que tomar fôlego e me concentrar como nunca para responder.

- Conversamos…

- Como assim “conversaram” homem, vocês passaram três horas lá dentro, por que estão nesse estado?

- Foi horrível.

- Por favor doutor, conte-nos.

Depois de alguns minutos e um copo de água consegui falar poucas palavras.

- Ele perguntou por que fazemos o que fazemos, tudo, em todos os aspectos e áreas, perguntou por que partimos o coração de outras pessoas, por que temos vergonha de fazer o que é certo, por que matamos nossa própria espécie e outras, por que somos gananciosos, por que somos… minha nossa, foi horrível.

Os militares disseram que provavelmente a criatura usou de alguma forma de poder psíquico e por isso estávamos transtornados daquela maneira, mas todos nós que participamos dessa experiência sabemos que não foi isso. A verdade é que aquela criatura representante de outra civilização que durante décadas estudava nossos hábitos sem entende-los, estava certa em não compreender a grande maioria de nossas ações mais hediondos.

Quando encontrarem essa carta, que deixo para seja lá quem encontrar, já estarei morto, a notícia do meu suicidio provavelmente não virá acompanhada da minha declaração que simplemente não suporto mais a vergonha, a gigante vergonha, e digo mais, a gigante vergonha intergaláctica de ser terráqueo.

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Mai 15

Superpoderes

Durante gerações a humanidade criou as mais variadas historias sobre feitos impossíveis, na mitologia eram os semideuses e heróis com suas espadas e arcos, no cinema os personagens de filmes de ação com suas armas e maquinas mortais, nas histórias em quadrinhos os super-heróis com suas roupas coloridas e capas esvoaçantes.

Durante milênios isso era ficção, mas não sabemos se por uma manifestação divina, ou se por uma mutação genética ou ainda se pelo simples acaso começaram a surgir os primeiros casos registrados cientificamente de humanos com capacidades sobre-humanas.

O primeiro deles foi o senhor Marcelo Gales, um homem dotado de incríveis poderes de premonição. O senhor Gales podia prever com absoluto acerto e meses de antecedência eventos que ainda não ocorreram.

O senhor Gales ao comprar um carro novo soube que ele iria bater quando um motorista bêbado ultrapassasse o sinal vermelho em um cruzamento e também que ele não ficaria machucado.

Ele ligou para os bombeiros antes de um grande incêndio em um prédio comercial no centro da cidade.

Até mesmo em eventos simples como em uma pelada de futebol com os amigos esse extraordinário humano conseguia prever qual chute se converteria em gol e qual seria apenas uma bola fora.

No entanto essa habilidade nunca lhe foi muito útil. Mesmo sabendo que bateria o carro em um cruzamento ele não conseguiu desviar a tempo, os bombeiros da cidade ameaçaram processa-lo por trote quando tentou avisa-los sobre o incêndio e mesmo no futebol saber se a bola entraria ou não nunca lhe deu uma habilidade com os pés e ele continuava um perna-de-pau.

Um dia ele conheceu uma garota, em uma festa luxuoso prédio onde morava seu patrão, olhou para ela e instantaneamente vislumbrou o futuro mais uma vez, seriam amigos, em pouco tempo a atração seria inegável, o primeiro beijo, a primeira noite juntos, a surpresa dele ao ver que ela não tinha medo de sua habilidade e sim admiração, os programas juntos, as viagens, a certeza que ela era a pessoa perfeita, o noivado, o casamento, os filhos, a crise, as crises, as brigas, o desejo de não voltar para casa depois do trabalho, o divorcio, a dor da separação, as noites sozinhos se afogando em lágrimas e bebidas.

Quando ele voltou de sua visão tinha os olhos encharcados de lágrimas, ela não entendeu o que acontecia e ficou olhando fixamente para ele esperando uma resposta para ao seu singelo “prazer em conhecê-lo”. Ele deixou o copo que segurava cair e quebrar ruidosamente no chão, ele saiu correndo trombando nos convidados atônitos com a cena, deixou o lugar e foi encontrado horas depois atropelado por um caminhão.

Alguns dizem que foi um acidente, mas outros acham que Marcelo Gales se matou por que não suportava mais o inconveniente que sua habilidade trazia, e outros ainda acreditavam que ele se matou porque sofreu do pior caso de coração partido de toda a humanidade, talvez do universo, ele teve com cruel vivacidade o coração partido por um amor antes mesmo de viver esse amor.

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Mai 13

Poesia sensorial

- Gosto da fazenda, adoro os finais de semana aqui. Quando me levantei agora pela manhã escutei ao longe o barulho do rio que passa depois da estrada, suave, calmo, e assim minha audição se deleitou. O cheiro do café sendo moído e torrado na hora invadiu minhas narinas me deixando quase embriagado. Estendi a mão e peguei uma broa de milho ainda quente que havia acabado de sair do forno e mordi com gosto. O paladar foi invadido pelo gosto das ervas misturados na massa e me deliciei com isso. Olhei pela janela da cozinha e vi as árvores ao longe, os animais pastando calmamente e o sol nascendo acanhado no horizonte. Meu único sentido que não se deleitava nesse cenário brejeiro e delicioso era o tato. E foi por isso que eu peguei na bunda da Mariazinha, que estava na cozinha preparando o desjejum com tanta gana. Estava apenas aproveitando toda essa poesia sensorial. Você entende querida? Não foi por maldade ou malícia!

E a esposa contrariada respondeu sem entender a conotação sensível e rítmica daquela experiência sensorial.

- Você é um babaca!

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Mai 31

Papai não sabe

Estávamos eu e as crianças em uma fila no shopping, um pouco mais a frente um rapaz com uma opção sexual diferente da tradicional vestindo uma calça tipicamente feminina, com sapato de salto alto tipicamente femininos, uma blusa tipicamente feminina e segurando uma bolsa que seria denominada por alguns como absolutamente fashion, e claro, com a maior cara de homem.

A menina foi a primeira a perceber.

- Pai, aquele é homem ou mulher?

Pensei em explicar sobre o terceiro sexo, mas se eu tomasse esse caminho teria que explicar sobre os outros dois com mais detalhes.

- Bem filha, é…. não sei!

- Não sabe?

- É filha, papai não sabe se é homem ou mulher.

Então o menino se manifestou.

- Vamos lá perguntar pra ele.

- Não filho, não vamos!

- Porque pai?

- Por que ele também provavelmente também não sabe.

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Mai 16

Respostas para perguntas inadequadas

- Oi, tudo bom?

- Oi – responde a moça olhando o rapaz de cima abaixo.

- Conhece o Paulo? – querendo saber se foi o dono da festa que convidou a beldade.

- Sim, colega que trabalho.

- Que legal, veio com seu namorado?

A moça não parecia acompanhada, e obviamente o moço não está interessado na existência de um namorado, ou melhor está interessado na inexistência dele.

- Não tenho namorado. – responde a moça, já visualizando as intenções do rapaz.

- Sério? Por que não? – retruca o infeliz rapaz.

É aí então que a falta de saber o que falar resulta em uma pergunta estúpida. O rapaz já teve o seu objetivo alcançado, sabe que a moça não tem namorado. Qual o objetivo de perguntar “por que” ela não tem namorado?

Abaixo algumas sugestões de respostas adequadas a essa situação:

1)    – Não quero namorar, quero ir direto para o altar.

2)    – Estou esperando as vozes na minha cabeça indicarem a pessoa certa.

3)    – Não sei por que, a propósito meu nome é Paulão, mas pode me chamar de Carol.

4)    – Meu psicólogo disse que primeiro preciso controlar minha raiva dos homens e dominar minha tendência homicida.

5)    – É cedo para isso, nem desovei completamente o corpo do meu ex ainda.

6)    – Seria complicado, meu presídio não permite visita intima.

7)    – Geralmente os homens correm quando tiro meu strap-on da bolsa.

8)    – Depois da operação de mudança de sexo, tenho que esperar pelo menos seis meses para fazer sexo.

9)    – O pessoal da clinica de doenças venéreas disse que eu preciso esperar mais algumas semanas.

10)  – Papai me fez prometer esperar ele sair da cadeia.

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