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Fev 06

Dia dos pais – intimidade entre pai e filhos

Após o almoço do dia dos pais, relaxado no sofá da casa da avó enquanto assiste a um filme na pequena tevê da sala com os filhos, o pai sente-se maravilhosamente a vontade.

- Credo pai, que nojo – reclama a menina completamente revoltada depois de ouvir o flatulento barulho produzido pelo próprio pai que instalado na poltrona ao lado do sofá.

- O que foi? – responde o pai com uma cara de pau tão bem feita que seria comparada com um móvel fino.

- O papai soltou pum – declara o mais novo.

O pai arruma-se no sofá, abaixa o som da televisão através do controle remoto em suas mãos e respira fundo (mas não muito).

- Crianças, darei a vocês uma importante lição de vida, portanto prestem atenção.

As crianças se moveram em seus lugares para olharem melhor para o pai que parecia pronto para dar uma importante notícia ou revelação.

- Filha, você solta pum na frente da sua professora? Ou da diretora? Ou será que você solta pum do lado do motorista de ônibus da escola?

- Claro que não – respondeu a menina mostrando uma perplexidade infantil, mas ainda assim uma perplexidade.

- Filho – disse o pai se voltando para o menino – você arrota na frente da professora?

O menino menos moldado socialmente pela baixa idade com algum esforço solta um pequeno arroto, tão baixinho e tímido que quase poderia ser chamado de “bunitinho”, imediatamente pede desculpas.

Mesmo assim o pai olha com olhar de reprovação

- O pum, o arroto, é um sinal de intimidade, de proximidade uma proximidade que você só tem com quem você divide a sua vida, proximidade que existe apenas com as pessoas importantes da sua vida.

A menina, mais sensata, tentou argumentar, o pai não deixou continuando o discurso.

- Vocês meus filhos, jamais soltariam um pum na frente da diretora da escola de vocês simplesmente por que ela não é amiga de vocês, ela é a diretora, existe uma distância separando vocês. Isso não existe e nem nunca devia existir entre pais e filhos – terminou a sentença com um sorriso que derreteria o coração de um carrasco.

A menina novamente tentou argumentar, mas não encontrou por onde e terminou por aceitar os termos apresentados pelo pai e se aninhou no colo dele.

O filho com esforço solta um novo arrotinho, imediatamente diz: “desculpa”.

- Filho, duas coisas erradas – disse o pai arrumando a postura e fazendo a filha que já estava instalada confortavelmente nos ombros do pai se levantar – primeira se você está arrotando de propósito pedir desculpas é uma hipocrisia.

Tomou a garrafa de refrigerante da mão da criança.

- Segundo, se você quer arrotar – tomou um vigoroso e demorado gole do liquido gasoso – faça isso como um homem.

E soltou um arroto tão poderoso que fez as janelas tremerem. O jovem ainda aplaudia o pai enquanto a menina indignada com tanta testosterona no ar (mesmo ela ainda não sabendo o que é testosterona) resolveu que era uma boa hora para ler um livro. Enquanto saia da sala passou pela avó que perguntou:

- Esse barulho foi um liquidificador?

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Fev 18

Na minha sombra

Em uma das conversas que um pai tem com o casal de filhos pequenos a menina pergunta.

- Pai, o que eu vou ser quando crescer?

- Bem, eu espero que vocês sejam pessoas honestas e dignas, que cresçam com inteligência e possam caminhar sem minha sombra.

- Por que sem sua sombra? – perguntou o menino.

- É modo de falar filho, quer dizer que vocês vão poder ser virar sem mim, apesar que o papai sempre vai estar por perto pra ajudar.

Já era tarde e todos foram para cama. No dia seguinte a rotina de sempre: levantar, comida para o cachorro, banho, café da manhã, e lá vai o pai levá-los para a escola.

A escola fica próxima e eles vão caminhando. No caminho o pai repara que eles estão mais animados que o normal, pulando e correndo à sua frente, e salta para lá, salta para cá, um empurra o outro, o outro corre para o lado oposto, fazia tempo que não ficavam tão animados logo pela manhã. Em um cruzamento de ruas eles esperam pela mão segura do pai para atravessarem.

- Do que vocês estão brincando? – pergunta o pai curioso.

- Daquilo que o papai falou ontem. – respondeu a menina já subindo na calçada do outro lado da rua.

- O que eu falei ontem?

- Sobre ficarmos na sua sombra – e saiu correndo junto com o irmão tentando pisar na longa sombra do pai que se projetava no chão.

E o pai continuava observando orgulhoso os dois correndo e rindo felizes.

Poeticamente enquanto eles pensavam estar em cima da sombra, na verdade ela se projetava sobre as costas deles.

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Fev 31

Papai não sabe

Estávamos eu e as crianças em uma fila no shopping, um pouco mais a frente um rapaz com uma opção sexual diferente da tradicional vestindo uma calça tipicamente feminina, com sapato de salto alto tipicamente femininos, uma blusa tipicamente feminina e segurando uma bolsa que seria denominada por alguns como absolutamente fashion, e claro, com a maior cara de homem.

A menina foi a primeira a perceber.

- Pai, aquele é homem ou mulher?

Pensei em explicar sobre o terceiro sexo, mas se eu tomasse esse caminho teria que explicar sobre os outros dois com mais detalhes.

- Bem filha, é…. não sei!

- Não sabe?

- É filha, papai não sabe se é homem ou mulher.

Então o menino se manifestou.

- Vamos lá perguntar pra ele.

- Não filho, não vamos!

- Porque pai?

- Por que ele também provavelmente também não sabe.

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