Tagged: cotidiano

março 7th, 2010

Sobre o jugo dessa poderosa força

Vem sem aviso. Você levanta um dia pela manhã e simplesmente acontece. Todos estão propensos a ela, ninguém escapa: pobres, ricos, solteiros, casados. Todos um dia vão se submeter a sua força implacável.

Nesse momento, alguns estarão mais preparados, terão serenidade apesar do medo e do desespero que tentará dominar seus corações.

Outros, sentirão o pânico desse momento que dominará o cerne de suas almas tentando  desesperados encontrar uma mão amiga.

Seu único desejo pode ser de, assim como um soldado ferido nas frentes inimigas, procurar um lugar seguro. Mas assim como em uma guerra, nem sempre isso é possível.

Alguns terão a sorte de estarem em um lugar confortável ou mesmo em braços e lares aconchegantes, onde o gentio será recebido com a compreensão de quem já sofreu do mesmo mal.

Estamos todos condenados  a um dia passar por ela que é a foça que irá nos relembrar de nossa finitude. Mesmo o mais bravo guerreiro um dia se sentirá humilde e pequeno diante da luta que terá que travar contra a revolta que oprime seu interior de forma cruel.

Existem poucas situações, se realmente houver, que podem fazer a pessoa se sentir tão submissa e simplória. Tudo o que ela quer é um local livre de inquietações, a chance de expulsar a revolta que oprime seu interior.

Quando esse momento chegar, pode ser que o suor escorra pelo seu rosto, que suas pernas tremam, que o mundo gire fora do eixo te desequilibrando. Mas por incrível que pareça, esses sinais virão para aqueles que são cheios de auspício.

Pior será o destino daqueles que não sentirão ela chegando, que serão tomados de súbito. Pode acontecer quando, sozinhos em casa, sem ninguém para testemunhar sua tristeza; dentro do seu carro em meio a uma viagem em uma estrada perigosa; durante um banho ou ainda durante uma festa alegre, entre seus amigos a tempo de sentir todo o compadecimento deles antes mesmo de notar direito o que aconteceu.

Todos estão sujeitos a uma grande e assombrosa diarreia.

março 1st, 2010

Mentira preventiva

O casal está deitado no sofá abraçadinho ouvindo uma boa música. Ela faz um carinho nos braços fortes dele e ele retribui com um afago no cabelo dela.

- Ontem meu chefe se enrolou todo…  – começa ela, puxando a conversa.

- O que houve?  – pergunta o namorado não tão interessado assim.

- Ele foi almoçar com aquela secretária do quinto andar.

- E daí? Não tem nada demais em almoçar com uma colega de trabalho, tem? Você mesmo almoça com seus colegas, diz que seu chefe é fiel… – argumenta ele.

- Sim, é verdade. Ele é super fiel a ela, apaixonadíssimo, mas o negócio é que a esposa dele ligou bem na hora e ele falou todo nervoso que estava no mecânico. Claro que ela percebeu que ele estava mentindo e foi esperá-lo na porta do escritório. Pegou ele chegando com a secretária. Deu o maior escândalo.

- Nooosssaaa… que horrível.

- Mas também, por que ele foi mentir?

- Mentira preventiva!

- O que? – pergunta ela, parando imediatamente de acariciar o braço dele.

- É, mentira preventiva! – respondeu ele, já analisando se tinha dito alguma besteira, mas resolveu continuar.

- Que história é essa de mentira preventiva?

- Olha só, seu chefe mentiu porque se falasse que estava almoçando com uma secretária morena, alta, com seios fartos e mini-saia, ela ficaria puta com ele. Ele tentou uma mentira preventiva, já que não fazia nada de errado.

- Mas se não fazia nada de errado, por que não falou a verdade?

- Por que as mulheres não acreditam quando os homens falam a verdade. No fundo, o problema todo é esse. É como um habeas corpus preventivo.

- Está falando que a culpa é nossa?

- Sim, quer dizer, não. Olha, vocês precisam confiar na gente. Você não disse que o seu chefe é fiel, apaixonado e tal?

- Eu lá sei da vida dele. Diga-me, você já me contou uma mentira preventiva?

- Amor que isso, para com essa conversa.

- Não acredito. Você mentiu para mim? Quando foi?

- Eu não disse isso, amor.

- Mas tentou desconversar.

- Mulheres sabem instintivamente quando o homem mente, você sabe disso. Pergunta de novo.

Ela olha seriamente e penetrantemente para ele.

- Você já me contou uma dessas mentiras preventivas?

- Não, eu nunca fiz – responde ele com uma confiança que intimidaria o mais bem treinado agente policial.

- Se tivesse, eu perceberia você mentindo?

- Você é melhor em outras coisas amor.

- O QUE!?!?!

- Droga… podemos começar essa conversa de novo?

habeas corpus

dezembro 18th, 2009

Papai-Noel

O marido chega em casa depois do trabalho e as crianças e a esposa estão assistindo um filme natalino como outros tantos sem muito a acrescentar. Enquanto trocava de roupa, ele ouve a conversa da família.

- Mamãe… o Papai-Noel mora aonde?

- No pólo norte.

- E e lá é muito frio?

- Muito, muito mesmo.

- E ele vem no Natal trazer presentes?

- Isso mesmo

Quando o marido tem oportunidade de ficar sozinho com a esposa, pergunta:

- E essa história de Papai-noel?

- Que que tem?

- Papai-Noel não existe! Você esta mentindo para eles! – indignado.

- Mas o que tem? É uma fantasia sem nenhuma maldade.

- Quem faz os brinquedos?

- Os anões, ué…

- Sei, os anões chineses de Taiwan. Só se for. Se formos mentir sobre Papai-Noel, temos que mentir também sobre Coelho da Páscoa, sereia, bruxa, políticos honestos e rockstars que não usam drogas.

- Não seja exagerado! – protesta a esposa já perdendo a paciência.

- Como ele entra dentro de casa? – indaga o ainda relutante marido.

- Ele quem?

- Quem? Os rockstars – revoltado com a irônia – O Papai-Noel né!?!?! Como ele entra em casa?

- Sei lá, ele é mágico.

-  Mágico? Nem o Superman conseguiria fazer o que a história fala que ele faz, visitar todas as crianças do planeta em uma única noite…

- Ele não visita todas, apenas as boazinhas…

- Isso reduz bastante o trabalho, mas mesmo assim… Não gosto dessa história não. Papai-Noel não existe e não vou mentir para meus filhos.

- Para de ser chato! Apenas coloque os presentes do lado da cama deles e diga que foi o bom velhinho.

- Bom velhinho o caramba!Eu que trabalho e compro, e ele que leva o crédito? Se eu vir um velho barbudo com saco vermelho dentro de casa, ele vai é levar umas bordoadas!

novembro 15th, 2009

A torneira da pia que pingava

O marido se levanta lá pelas 6:30 da manhã para tomar um gole de água e assaltar a geladeira (não necessáriamente nessa ordem) e a torneira da pia que pingava, escorria seu liquido fujão por debaixo da pia, formando uma discretíssima poça de água bem no corredor. O resultado não poderia ser outro, ele leva um baita escorregão, seguido de uma desastroza tentativa de se segurar em algum suporte sólido o suficiente para salvar seus 90kg de encontrar o chão molhado.

Nessa parte da narrativa seria adequado colocar uma onomatopeia para representar seu tombo, mas não encontrei nenhuma que fosse fazer justiça ao barulho surdo da queda.

- Dá pra fazer menos barulho aí, que isso, poxa vida… – solicita a esposa preocupada.

- Eu estou ótimo, obrigado por perguntar!!! – tentando descobrir qual osso que se quebrou.

No dia seguinte pela manhã, resolve consertar a porcaria da torneira, enquanto a esposa levava a filha ao médico. Certo que era apenas o caso de passar aquela fita molenga branquinha e apertar a dita cuja torneira e seus problemas estariam acabados.

Usando uma velha chave inglesa, solta a torneira com a estranha sensação de estar esquecendo alguma coisa. A sensação passou assim que a torneira foi disparada contra seu estômago, seguida, imediatamente, por um forte jato de água. Depois de algum esforço, coloca a torneira de volta e fecha o registro da casa.

Retira a torneira da parede, solta o adaptador do filtro e enrola habilidosamente a fita na rosca (olha o respeito), coloca novamente a torneira no adaptador e o adaptador no cotovelo que saia da parede.

Foi aí que a história teve seu momento trágico. Aprendam crianças: Não apertem torneiras com chaves!!! Se achando, o profissional do lar, másculo e habilidoso, exagerou na força, e ouviu um pequeno estralo, mas  sua auto-confiança lhe fez pensar: “Não foi nada”. Abre o registro e a porcaria da torneira agora vazava mais do que antes, na verdade ela estava jorrando água. Retirando novamente a peça, constatou-se pior, ele havia quebrado o cano da parede.

Foi até a loja de material de construção mais próxima, onde o atendente olha para ele e fala:

- “Você apertou isso com uma chave não foi?” , soltando um sorriso cínico em seguida, “Pra essa torneira o senhor vai precisar de um cotovelo de 3 parsec de rosca anti struts (os termos não foram bem esses), o cotovelo é de projeção ou de instrospecção?

- Heim!?!?!?! Como eu fico sabendo isso?

- Ué, tem que tirar o cotovelo pra ver.

- Não me diga que vou ter que abrir a parede!? – enquanto dá um tapa na própria testa.

- Ué, e de que outro jeito dá pra ver? – certeza que o desgraçado estava se segurando para não rir.

Volta para casa e procura pelo martelo. Usando um prego grosso, o martelo, paciência, finalmente remove o cotovelo abrindo um buraco mínimo na parede, volta a loja.

- Ôôia, o senhor voltou rapidinho, que coisa! E tirou o cotovelo certinho!

- Tá me sacaneando?

- Como?

- Nada! E aí, você tem essa peça?

- Tem, sim senhor. O senhor também vai precisar disso aqui – Joga um tubo de cola no balcão e explica o procedimento. Nisso aparece o dono da loja, olha a peça quebrada no balcão e fala:

- Apertou a torneira com uma chave não foi?

- (…)

No final, cola o cotovelo no cano, encaixa o adaptador devidamente vedado e a torneira, a esposa chega em casa quando ele terminava de limpar a pia.

- Poxa, que bagunça que você fez só pra apertar uma torneira! Você não apertou com chave não né?

- Eu não quero conversar sobre isso!

outubro 28th, 2009

Então ela entrou no ônibus

Ele correu quando viu o ônibus chegando ao ponto, pensou em gritar, mas o senso de ridículo o impediu. Alcançou o ônibus subindo em um único pulo, cumprimentou o motorista que respondeu com um aceno de cabeça, pagou a passagem e passou pela catraca.

Escolheu um lugar ao lado de um senhor que dormia profundamente apesar dos movimentos desabridos do ônibus.

Pegou seu MP3 player e encaixou os fones no ouvido, não escutava a música, apenas preferia o som dos fones de ouvido que o do ônibus e outros carros passando pela cidade.

Então ela entrou no ônibus, em uma parada cheia, várias pessoas também entraram, mas ele não conseguiu tirar os olhos dela. O cabelo solto balançou quando o ônibus reiniciou o movimento, ela ainda não tinha passado pela catraca, colocou as mãos morenas e pequenas dentro da bolsa e tirou o dinheiro, empinou graciosamente o corpo para frente para passar para o outro lado do veículo.

Ele estava absolutamente hipnotizado, ela não era muito alta, nem muito baixa, vestia uma calça jeans justa e tênis, uma blusa preta com um decote que faria qualquer homem tropeçar ao cruzar o seu caminho.

Ela tira um livro da bolsa e começa a ler.

Eu preciso puxar assunto, o que eu falo? O que eu falo? – pensa o jovem com o coração disparado. Ele sabia que não era apenas uma mulher atraente no ônibus, era a mulher que ele queria, ou pelo menos ele precisava saber se ela podia ser.

Ele olha fixo para frente – o que eu falo? Pensa! – não era uma questão simples – como se aborda uma desconhecida em um ônibus?

Não posso simplesmente chegar e falar “oi tudo bem?” ou posso? Não vou parecer patético?

Preciso pensar em algo engraçado, algo que a faça rir. Não, espera, vou parecer um palhaço, pensa – olha novamente para ela. Tão linda, tão serena, lendo seu livro, o cabelo negro escorrendo pelos ombros e colo.

Não vou deixar essa oportunidade passar, mas o que eu falo? Você vem sempre aqui? Não, claro que não! Isso é para festas! Nem isso! “Você vem sempre aqui” não serve para nada – o jovem parecia estar a frente de um enigma que representava vida ou morte.

Teve um surto de energia moral diante dessa situação – vou simplesmente ser sincero: “Oi, escuta, você é linda demais, posso te ligar qualquer dia desses?” – Ai minha nossa, o que ela vai pensar. Que tipo de homem aborda uma mulher assim?

O que eu falo? O que eu falo? – e a mente do rapaz continuava sua busca pela aproximação ideal.

De repente ela se levantou, ele congelou por um momento – respirou fundo, tomou coragem – soltou um “Oi, tudo bom?”, mas inaudível de tão retraído, se virou ainda a tempo de vê-la descer do ônibus.

E ele nunca mais a viu de novo.

outubro 26th, 2009

Diálogo de um casal comum

O jovem casal abraçado no sofá vendo um filme. Ela com as pernas sobre o móvel, ele abraçando sobre os ombros dela e com o outro braço aberto sobre o sofá, pernas esticadas e balançando o chinelo.

Ela se surpreende com a cena em que um casal de personagens revela um dos segredos da historia com um beijo.

- Não acredito, eles estão tendo um caso. E agora?

- Aposto que vão tentar fugir com as joias antes que alguém descubra – argumenta o marido menos envolvido na trama pensando em como aquela era uma historia clichê.

- Como pode um homem fazer uma coisas dessas?

- Qual parte? Matar, dar um golpe de milhões ou ter um caso – pergunta o cônjuge lista as atrocidades do vilão daquela trama cinematográfica barata.

- Ter um caso ora – responde a esposa sentando-se direito no sofá com ar de indignação.

O marido acha graça, entre assassinatos e estelionatos o que a deixou mais chocada foi adultério.

- Apenas acontece… – e se volta para o filme.

- Como assim acontece?

- O que? – sem tirar os olhos da televisão.

- Como assim acontece?

- Como assim acontece o que? – pergunta novamente o esposo já sentindo que falou alguma besteira.

- Você sabe do que estou falando! – esposa já começa a buscar o controle remoto para desligar a televisão.

O marido já preocupado começa a pensar no que foi que falou de errado.

- Não! Não sei do que você esta falando!

Televisão desligada.

- Como assim “acontece de um homem ter um caso”?

- Haaaa, é isso amor, bobagem.

- Um caso é uma bobagem? Traição? A destruição da nossa família? E nossos filhos?

- Não temos filhos.

- Isso não faz diferença.

- Eu estava falando do filme meu amor.

- Quem me garante que não era o seu subconsciente querendo me falar algo?

- Meu benzinho – ele faz aquele olhar que sabe que quebra as barreiras dela, ela desvia o olhar emburrada, ele a abraça – Olha pra mim benzinho.

- Sai pra lá!

- Eu te amo, te amo demais, larga de besteira – beijo no pé da orelha, golpe baixo para encerrar o assunto.

- Para… – como quem diz “continua”

- Eu amo minha esposinha linda e não preciso de mais ninguém – segue o marido ainda usando diminutivos de forma infantil.

- Está bem, desculpa.

- Vamos continuar vendo o filme?

- Ok – ela liga a televisão de novo.

Alguns minutos depois durante o intervalo comercial.

- Amorzinho. Você já me traiu? – ela pergunta demonstrando certa serenidade.

- Claro que não benzinho.

- Se tivesse me traído contaria?

- Claro que não benzinho.

- COMO ASSIM CLARO QUE NÃO SEU TRASTE!!!

- Ops…

- Ops?!?! Ops?!?! É essa sua reação.

- Não amorzinho, é que se eu hipoteticamente traísse você não te contaria isso quando você perguntasse.

- O QUE?!?!?!

- Não, espera, não foi isso que eu quis dizer.

- Então o que você quis dizer?

- Que eu nunca trairia a mulher perfeita!

- Perfeita? Eu? Sério?

- Claro amorzinho, para com isso – abraça-a mais forte.

- Mas se você traísse você me contaria?

- Claro que não benzinho.

- O QUE?!?!

- Ai ai! Vai ser uma longa noite..

outubro 5th, 2009

Frases sem nenhum préstimo

Existem expressões triviais do nosso dia-a-dia que estranhamente são socialmente aceitáveis, mas em minha opinião são dignas de no mínimo uma boa repressão.

Poxa, você sumiu heim!

Essa nunca vai ser dita em uma situação adequada como para Madeleine McCann. É sempre apenas como um desculpa patética para puxar papo. Em 99% dos casos a pessoa não sumiu, ela estava no mesmo lugar de onde sempre pode ser encontrada, apenas não deu noticias da própria vida para o interlocutor por que não lhe interessa fazê-lo por causa do total desprezo que tem por ele.

Lembra de mim?

Se você é uma pessoa de respeito só faz essa pergunta quando tem certeza que o indagado sabe quem você é. Por outro lado se você perguntar isso para uma pessoa cuja maior impressão que você despertou foi a sensação de mau estar por ela tentar desesperadamente lembrar de que lugar  ela tem uma leve lembrança, as vezes nem isso, de sua fisionomia saiba que você deveria ser punido com tapa na nuca e chute na canela.

Se melhorar estraga

Como assim? Dá para perceber a insanidade que está encapsulada nessa sentença? Se melhorar fica melhor, se melhorar e estragar não melhorou, estragou. Se você acha que não pode ficar melhor é falta de imaginação, esse é o inverso do nosso último exemplo.

Fica assim não!

Geralmente essa é proferida quando a pessoa derramou vinho tinto no terno novo, perdeu a carteira e teve o carro riscado, então como toda pessoa normal e com o mínimo de sanidade senta-se em qualquer lugar e segura a cabeça entre as mãos com aquele olhar perdido no horizonte. E ai vem um infeliz “amigo”, toca seu ombro e diz, “poxa, fica assim não”. E quer que fique como, maldito!?!? Dando pulos de alegria. Essa frase só fica ainda mais repulsiva quando combinada com a próxima da nossa lista.

Podia ser pior!

Podia ser pior é o equivalente a “se não chover, vai fazer sol”. É uma afirmação absolutamente óbvia que não tem a menor ou mais remota chance de servir como consolo ou reconforto para alguém,  ainda mais se esse alguém estiver passando por alguma dificuldade. É claro que podia ser pior! Sempre pode ser pior. Você podia ter a cabeça acertada por um meteorito, você podia estar sendo devorado por zumbis, você podia ter sido atropelado por um caminhão de esterco de rinocerontes. SEMPRE PODE SER PIOR, assim como sempre pode ser melhor (vide: se melhorar estraga), se você não consegue imaginar isso está lhe faltando imaginação. Mas o mais importante, saber que podia ser pior, não significa que não está ruim o bastante.

setembro 29th, 2009

Morar sozinho

Sim, a independência, o poder de arrumar como você quiser, de ir e vir e largar em qualquer lugar. Você finalmente chegou lá! Você mora sozinho! \o/

Os motivos são os mais diversos, você pode estar indo morar em outra cidade por causa do emprego/estudos, pode estar querendo a famigerada independência, ou pode simplesmente ter sido expulso pelos pais que já estavam de saco cheio de você em casa. Não importa, agora você tem seu espaço.

Pode fazer o que quiser a hora que quiser, mas será que tudo são flores? Vou, a partir daqui, dividir esse texto em partes.

Cozinha

A primeira coisa que você vai perceber é que você vai comer muito congelado. É pizza congelada, é lasanha, é aqueles nudgets de frango, você vai se entupir disso até não poder mais, vai amassar as embalagens e jogar no lixo se sentindo um personagem de Friends em cena solo, e ai você vai cansar disso. Você não vai poder ver um maldito nudgets na sua vida sem desejar enfiá-lo na orelha de quem estiver te oferecendo.

Ai vem a fase instantâneos, miojo, cup-noodles, salsicha (eu sei, eu sei, salsicha não é instantâneo, mas vai entrar na mistura aqui também).

Tem aqueles que passam pela fase “terei uma alimentação saudável” e resolvem entupir a geladeira de frutas e verduras que ele não vai comer. E sabe por que? Por que tem um fast-food perto e você esta cansado e não quer preparar comida a essa hora, “eu acabei de chegar do trabalho, o dia foi duro, mereço esse consolo” e é isso que você vai dizer.

Mas a verdade é que você vai fazer isso por causa também do temível monstro que mora na pia, a louça suja, essa terrível criatura tem o dom de crescer exponencialmente. Uma das minhas frustações maiores é preparar uma bela refeição (sim, sou homem de forno e fogão, ui) e depois de comer e ficar satisfeito pensar que tenho uma louça para lavar.

Falar sozinho

Sim, você vai falar sozinho… não é por um desajuste mental, é apenas um efeito causado por estar sozinho nos horários que geralmente você não estava, aliás, pensando bem isso deve ser a característica de um desajuste mental sim.

Você vai falar com a televisão, mesmo sabendo que ela não vai responder. Você vai se flagrar também falando como se estivesse em um seriado sitcom. Mas atenção, se você começar a ouvir os aplausos e risadas cada vez que falar uma gracinha procure ajuda profissional com urgência.

Limpar a casa

Limpar a casa possui uma certa inversão, no meu ver, na relação cozinhar/lavar louça que eu citei anteriormente. Você limpa a casa, se estressa, cansa, mas quando termina está tudo limpo, lindo e cheiroso. Você vai estar um completo trapo.

No entanto assim como a louça limpar a casa tem efeito acumulativo, isso por que você pode chegar do trabalho e jogar a roupa em cima da tábua de passar roupa e deixar lá, você pode acumular aquele monte de papel na sua mesa até o computador sumir em baixo deles.

Afinal, você mora sozinho, é dono do seu nariz… mas toda ação tem uma reação, a primeira pessoa/ficante/parente que falar que está indo te visitar vai fazer você limpar o lugar todo até as duas da manhã como um alucinado.

Lavar e passar roupa

Eis uma atividade que as figuras paternas devem ter a obrigação moral de ensinar aos filhos. Quando o filho está deixando o ninho os pais deviam chama-lo e perguntar “Você sabe lavar/passar sua roupa?” em caso de resposta negativa responder carinhosamente “você vai se mudar coisa nenhuma” “talvez seja melhor você esperar um pouco mais”.

Eu sei, hoje em dia modernas e baratas máquinas de lavar fazem praticamente todo o trabalho de lavar uma roupa, mas existem detalhes importantes, assim que você deixar a primeira camisa branca completamente rosa por tê-la lavado junto com aquele shorts você vai descobrir que a maquina de lavar é apenas… bem… uma maquina.

Quanto a passar roupa você vai começar escolhendo aquelas que não precisam passar, mas vai chegar o dia que você vai ter aquela reunião, ou outro compromisso formal onde vai precisar de uma roupa mais formal e que nesse momento esta roupa vai estar até com a marca do cabide por conseqüência das semanas esquecidas no guarda-roupa e vai descobrir que mesmo os modernos ferros de passar roupa que não grudam desligam sozinhos, vaporizam a roupa ainda precisam de uma mão habilidosa para não deixar a roupa parecendo que acabou de sair do estômago de uma vaca.

setembro 25th, 2009

Minutos finais

Preciso manter o foco, me concentrar, nesse tipo de crise se você não manter a calma coloca tudo a perder.

Me movimento sem sair muito do lugar, isso ajuda na circulação, tento observar meu superior sem me fazer notar. Sei que ele está lá, olhando para mim. Minhas mãos estão nervosas, dedos batendo.

Observo o relógio, está quase no momento.

Ouço minha própria respiração, tento respirar mais devagar, está quase na hora, preciso ser exato. Um minuto antes ou um minuto depois e colocarei tudo a perder.

Levo um pouco de água a minha boca seca, engulo devagar. Observo o relógio mais uma vez, ele parou? Não! Está funcionando, mas parece que o tempo não anda. Respiro fundo

Preciso manter a calma, o tempo está passando como sempre passou. Fecho meus olhos, relaxo por um segundo. NÃO! Acorde homem, quer perder sua oportunidade de sair daqui! Observo o relógio de novo, o tempo não passa

- Mantenha a calma homem, já passamos por isso antes – repito para mim mesmo.

Penso se não me ouviram, será que falei alto ou apenas pensei? A tensão está me enlouquecendo, o barulho ambiente, o sol se pondo no horizonte trazendo a noite. Sim, a noite, onde poderei sair.

Quase lá, apenas mais alguns segundos… e… AGORA!!! Me levanto de um lance só, coloco-me em posição, passo pela porta.

- Boa noite a todos e bom final de semana!!!!

Minha nossa, como os minutos finais do expediente de sexta-feira demoram para passar.

junho 4th, 2009

Como foi seu dia?

Marido chega em casa depois do trabalho. No dia anterior teve uma briga com a esposa, nem se lembra mais o porquê da briga. Tenta ser amigável.

- Boa noite anjo.

- Boa noite.

Pelo menos ela respondeu, já é um começo

- Como foi o seu dia – arrisca tentando se aproximar da fera

- Pra que você quer saber?

Poxa, ela não poderia simplesmente perceber minhas intenções de trégua e paz e colaborar. Tinha que fazer uma pergunta difícil? Pensamos, por que eu quero saber como foi o dia dela?

- Ué… por que eu me importo com você. Como foi seu dia?

- Se você se importasse mesmo não fazia as coisas que faz.

- Que foi que eu fiz? – não era conversa mole ou cinismo, eu realmente não lembrava

- Cínico!

Xiiiii, a coisa ta feia.

- Olha, desculpa se eu falei alguma coisa que te ofendeu – respira fundo – O que você fez de bom hoje?

Sem resposta, silêncio, esse ponto é delicado, você não sabe se ela quer que você insista ou não.

- Meu anjo, to te pedindo desculpas, vamos ficar bem… Você ta chateada?

- Não! – resposta seca e sem rodeios.

- Que ótimo! Esta brava, irritada?

- Não!

- Com dor?

- Não! Já disse que não…

- Então, como foi seu dia?

Silêncio de novo.

- Amor…. estou falando com você – perdendo a paciência.

- O que é que você quer?

Suspiro

- Quero saber como foi o seu dia!

- Pra que você quer saber – visível mente irritada – você acha que eu vou conversar com você como se não tivesse nada errado.

- Mas você falou que não tem – confuso.

- Cínico.

Poxa, mas ela disse que… então quer dizer que… mas é que eu… desisto.

Tomo um banho, durante um silencioso jantar ela pergunta

- Como foi seu dia?

Fique tentado a responder “- Para que você quer saber?”, mas me contive

- Meu dia foi bom!

- Você não vai perguntar como foi o meu?

- Não!

- Por que não?

- Tenho medo, muito medo.

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