Acordou cedinho e colocou os óculos com suas grossas e pesadas lentes. Olhou-se no espelho, apenas de cueca, pensou na grana que gastou em seis meses de academia e em como essa grana parecia pouca e barata perto do sofrimento e das dores que sentia durante e após as sessões de exercícios. Estava mais esquelético do que nunca.
Entrou na cozinha e deu um pulo quando o pé descalço tocou a água fria, a cozinha estava inundada. Por algum motivo, a geladeira descongelou no meio da noite e uma água misturada com os resíduos de comida estava espalhada pelo chão, o que fez o cômodo lembrar brevemente um pântano. Suspirou e mesmo assim entrou cozinha adentro.
Abriu a geladeira e uma nova onda de água gelada banhou sua canela, pegou uma caixa de leite e despejou no copo, mas pelotas de gordura com cheiro característico encheram o copo. Pareceu ver um rosto sorrindo entre o leite. Deixou o copo sobre a pia.
Tomou um banho, se vestiu e ao sair passou pela caixa de correspondências. Lá tinha contas, propagandas, contas, folhetos, contas, contas e contas. Suspirou mais uma vez, movimentou os ombros e os deixou cair como de costume.
Chegou a parada e o ônibus não demorou, no entanto, não havia lugar para ele se sentar. Uma senhora gorda com um cheiro estranho o espremia de um lado e um loiro musculoso do outro. Ele não teve espaço para suspirar, mas pensou o que aconteceria se ele pisasse na garganta da mulher gorda, e o pensamento lhe trouxe um certo prazer tenebroso no seu âmago.
No trabalho e entrou no segundo elevador que chegou ao térreo, por que o primeiro fechou a porta na sua cara. Sentou no seu cubículo sem cumprimentar ninguém e ligou o computador. O plano de fundo do seu equipamento era uma imagem de um filme antigo, então, ouviu aquele personagem falar com ele. Não era uma voz em sua cabeça, era uma voz vinda do passado.
Com sua cabeça inclinada para frente e para a direita, levantou suas sobrancelhas, sem mexer nenhum músculo além do necessário.
Seu gerente apareceu na porta e começou a falar com ele, reclamando sobre o atraso de um relatório, mas ele não ouvia. Seu olho esquerdo começou a pular compulsivamente, como um personagem de desenho animado em uma crise de nervos, mas tudo o que ele ouvia era o som de espadas, escudos, cavalos, lanças e por fim ouviu uma ordem retumbante.
Levantou tão rápido quanto um raio. O gerente não teve tempo nem de entender o que aconteceu quando o teclado acertou sua cabeça, a sensação foi como uma martelada em sua têmpora, ele sentiu o sangue começando a escorrer pelo rosto ao mesmo tempo que uma dor lancinante atingia seu cérebro. Atordoado, ele tropeçou e caiu derrubando as lixeiras, fazendo um grande barulho. Cabeças apareceram de seus cubículos para identificar a origem do estardalhaço, e tudo o que puderam ver foi o momento em que ele, com o pé esquerdo sobre o corpo do gerente caído no chão, rasgou sua camisa, soltando um rugido de ira tão forte e alto, que fez as pessoas do escritório sentirem suas espinhas se retesando como em resposta a um medo ancestral.
Viram ele saindo, camisa (ou o que sobrara dela) aberta com um peito branco, quase pálido, sem pêlos, a mostra. Em uma mão segurava o teclado como quem segura a lâmina de uma gládio e em outra o monitor LCD como um escudo com os fios pendurados. Avançou gritando, pisando sobre o gerente, que ainda não tinha se recuperado do susto.
Acertou Reinaldo, o colega de trabalho que fazia piadinhas sobre seu porte físico e montagens com suas fotos, com o teclado com tanta força, que o periférico se despedaçou. Por um momento, seus dentes e as teclas do teclado foram vistos saltando ensanguentados de sua boca. Tudo o que ele sentiu foi um estalo no maxilar e de repente teve a sensação de estar no coliseu romano, tendo seu rosto esmigalhado por um bárbaro. Reinaldo desmaiou no momento em que sentiu os dois pés do colega de trabalho ensandecido pousarem violentamente sobre seu peito. Ele estava sendo literalmente esmagado pelo outro, que pulava sobre ele como um gorila em fúria.
Paulo, o moreno forte que havia recebido a promoção que ele estava de olho, correu para tentar segurá-lo, mas com a agilidade de um samurai, ele desviou-se e, continuando o movimento, acertou a nuca de Paulo com o monitor, derrubando-o em um único golpe. Paulo ainda teve tempo de pensar em por que tinha se levantado da cama naquele dia, sentiu muita dor, e um formigamento estranho pelo corpo todo antes que o gladiador começasse a girar o monitor sobre si mesmo como uma maça medieval, e por fim o pousasse pesadamente em sua cabeça.
Seguiu mais a frente, já todo ensanguentado e com o olhar mais determinado que jamais exibira em sua vida. Derrubou mais quatro homens, incluindo um segurança. Neste ponto, já não possuia mais armas, tudo o que usava era seus punhos, até que dois encarregados e dois funcionários conseguiram, por fim, derrubá-lo.
Ele continuava a gritar em fúria, proferia palavras, mas não parecia nenhum idioma conhecido e às vezes apenas rugia, liberando toda a raiva concentrada que esteve contida em seu peito.
A maioria dos seus colegas de trabalho ficou perguntando-se “qual mesmo era seu nome” ou “como ele enlouqueceu”.
Ele gritava palavras ininteligíveis enquanto era arrastado para fora do prédio. Nunca mais foi visto.