outubro 30th, 2009

Em uma faculdade qualquer

A loira se olha no espelho, adora o que vê, está linda no vestidinho vermelho curto. Tem a certeza que vai atrair os olhares desejosos de todos os rapazes e os invejosos de todas as meninas.

O garoto com a porta trancada termina seu ato de onamismo pensando nas garotas da faculdade que ele sempre fala que já pegou, mas que na verdade nunca deram bola para ele.

Outro garoto chega à faculdade de carona com o pai, um senhor de meia idade com um principio de calvície e falta de noção do ridículo, que comenta com o filho:

- Ô filhão, olha lá aquela japinha gostosa, não foi nela que você já passou a vara?

- Foi sim pai, e naquela peituda ali também!

- Esse é meu moleque, vai lá campeão.

E parte com carro, passando devagar por uma dupla de adolescentes com idade para ser filhas do irmão mais novo dele, solta um gracejo tão elegante quanto um “pedreiro”.

A garota frustrada desce do ônibus e repara na loira com microvestido e a ruiva ao lado com um decote que em determinados ângulos permitira ver o umbigo dela. Olha para si mesmo em seu corpo mais delgado, não é uma moça feia, mas é recatada e se sente apagada perto dessas “umazinhas vulgares”, a primeira palavra que passa pela sua cabeça é “piranhas”.

O garoto que a pouco estava extravasando sua energia originada da tempestade de hormônios da adolescência com a mão chega e solta um sonoro “gostosa” para uma moça que passa com um shortinho. Ela não segura uma risada e continua seu caminho. Ele entende como “essa gostou do elogio, sou mesmo O cara”.

O filho do pai-exemplo passa pela loira e comenta sobre o que, supostamente, faria com ela em sua casa. Coisa que obviamente seria reprovada pela sua mãe, que desconfia do comportamento do pai, mas não faz nada para mudá-lo ou inibir essa influência sobre o filho.

De repente, ninguém sabe bem como, tudo explodiu, alguém gritava “vagabunda”, outro berrava “puta”, outrem “gostosa” e eventualmente alguém gritava os verbos chupar e comer.

Alguns alunos entram na sala e cumprimentam o professor com seus cabelos grisalhos.

Alguém falou sobre como isso era um absurdo, outro incentivado pelos colegas passa correndo por uma moça e dá um tapa em sua nádega a fazendo gritar.

Outro rapaz grita ao lado, e mais um depois, a cena segue como uma onda, como macacos em uma jaula pulando quando vêem algo que os exalta. Logo o caos toma conta do lugar, todos gritam e pulam e deixam suas jaulas interiores.

O rapaz onamista queria fazer sexo com ela, a moça recatada ser igual, o professor experiente que ela tivesse mais juízo, a loira queria chamar a atenção e ser desejada, o pai queria voltar a adolescência, o filho queria que o pai se orgulhasse dele, o policial queria estar com a família, o aluno de boné não queria estar na aula, o de cabelo verde queria fazer teatro, o de óculos queria se drogar.

Mas naquela noite, ninguém conseguiu fazer o que queria, e todos continuaram frustrados. Voltaram para suas jaulas e fecharam a porta mais uma vez, por enquanto.

——————————————————————————–

Jovem é xingada em faculdade por causa de roupa curta

Qualquer coincidência não é mera semelhança: aqui, aqui e aqui

(RSS 2.0, Trackback)

8 comments!!!

  1. Jão disse:

    “O espírito de manada é sempre mais forte que a razão.”
    eu costumo dizer mto uma versão dessa frase, algo como “As pessoas são inteligentes, mas o povo é burro”…, individualmente todos, por um motivo ou outro, tem um minimo senso de dignidade, sociedade, ou até mesmo ridiculo em determinadas situações…, mas se vc juntar 10 pessoas, isso some por completo, todos saem de suas jaulas particulares e vão direto ao ataque, no caso uniban, de fato um ataque, e a presa estava em desvantagem tanto numérica qto moral…
    E depois as pessoas tem coragem de dizer q um maconheirinho eh um problema social, sinceramente, kem jah foi em um estádio ou viu algo em jornais sobre brigas (guerras) entre torcidas organizadas, ou leu um poko sobre o caso uniban e outras situações de “manada” jah deve ter entendido q não precisa de drogas para que as pessoas se comportem como animais…, meus amigos maconheiros mesmo nunca tentaram lamber ngm na rua…,


    tah, foi só uma vez, mas nem morderam a pessoa =P

    [Reply]

  2. Gaúcha disse:

    Adorei esse seu texto, amor!!!

    Realmente está fantástica a maneira como você abordou a história!

    Um dos meus favoritos….

    Beijos!

    [Reply]

  3. Mary disse:

    os universitários q se acham c nivel de intelecto maior do q os outros diante de um papel desses é deprimente, só mostra q estavam mais preocupados c a roupa da guria do q c a própria profissão q escolheram. lamentável.
    falso moralismo e mta gente tosca por m², não é a toa q a uniban é o q é. uma das piores do pais, conseguiu ficar ‘na frente’ de apenas 12 universidades em 2008 , fala sério!

    [Reply]

  4. [...] Em uma faculdade qualquer – No improviso.com [...]

  5. Social comments and analytics for this post…

    This post was mentioned on Twitter by Cadu: Em uma faculdade qualquer http://migre.me/akUr #uniban…

  6. Nathália* disse:

    Não tinha visto por esse ponto…

    [Reply]

  7. Billie Blade disse:

    Não conhecia o Blog, mas gostei muito, ganhou um visitante com certeza.

    Vou linkar depois com meus outros blogs.
    Parabens, seu blog é uma ótima diversão durante o horario de trabalho.

    [Reply]

  8. Sofia disse:

    Queridinho, fantástica crônica!
    A realidade de cada um é extremamente subjetiva mesmo, né?
    Beijinhos

    [Reply]

Reply

Get Adobe Flash playerPlugin by wpburn.com wordpress themes