Set 08

Confissão

Ele usava um lenço para enxugar o suor que escorria pela testa, as mãos tremiam enquanto descia pelo elevador. Espantou-se quando notou que estava sorrindo.Como podia ter a coragem?

Desceu na garagem e foi para o carro. O misto de satisfação e arrependimento o dominava. Ligou o carro e ganhou a rua. Ainda sentia o cheiro e isso o incomodava assim como o deixava com um ar de contentamento. Não conseguia mais se conter, sentia que dirigia sem saber para aonde estava indo, apenas seguindo o fluxo. Entrou no primeiro retorno. Achou melhor parar.

Descansou a cabeça entre as mãos sobre o volante, respirou fundo e quando levantou a cabeça notou que havia estacionado em frente a uma igreja. Desceu e entrou.

Enquanto andava pelo corredor de bancos, entre as imagens imóveis de anjos, homens e mulheres considerados santos, sentiu-se mal, culpado, sujo.

Suas mãos estavam escarlates, mas era apenas por que apertava vigorosamente o celular. Olhou para o aparelho e se viu discando os números. Ele precisava falar com alguém, precisava contar o que fez. Ligou para a noiva. Quando o telefone atendeu com um carinhoso “oi amor!”, ele pensou no que estava fazendo.

- Oi meu doce, preciso te falar uma coisa!

- Pois não meu lindo, fala, o que foi?

Então ele contou, contou tudo, sem tomar fôlego, sem parar para ouvi-la, cada detalhe fresco em sua mente. Descreveu cenário, cores, a posição dos móveis antes e como ficaram depois, tudo o que usou, como segurou e enquanto narrava seu corpo parecia reviver o momento. Foi ficando ofegante, agitado, falava cada vez mais rápido e intensamente e terminou. Então se calou para ouvir.

Mas não houve resposta, com o aparelho colado no ouvido chamou pela noiva, não escutou nada, afastou o aparelho da cabeça e viu que ele estava desligado. Ficou olhando para o aparelho apagado em sua mão como se fosse um singular artefato há muito perdido.

Ainda estava ofegante quando o celular tremeu em sua mão e começou a tocar. Era ela, levou o aparelho até o ouvido.

- Amor? Alô?

- Oi, você me ouviu?

- Não amor, a ligação caiu depois que você começou a falar. O que você ia dizer?

- Nada, apenas queria dizer que eu te amo muito e que você me faz muito feliz!

Se despediu, desligou o telefone e foi para casa.

8
comentários

8 comentários!

  1. Meu comentário é o mesmo: Cadu, vá se foder! kkkkk

    Muito bom. E arquivarei o escarlate pra falar da cor rubra em uma oportunidade perversa. Hehehehe.

    Abraços!

  2. Dêssa disse:

    E o pior que que vc já fez isso comigo, né seu bobão???

    :P pra vc!

  3. Enfim…

    Não sou a favor de sutilezas… De formalidades… Digo-lhe com todas as palavras…

    - Seu texo me lembra o filme Vannila Sky…

    “SOMOS IGUAIS EM DESGRAÇA E HÁ UM INCÊNDIO SOBRE A CHUVA RALA”

    Adoro suas escritas isto é fato!

    Parabéns, belo texto.

  4. Jão disse:

    A ignorância eh uma benção, só isso q eu digo (Y)

  5. Katy disse:

    Momentos angustiantes…rs
    Ótimo texto, parabéns!
    Bjs.

  6. Walter Cruz disse:

    Como não conheço o filme Vanilla Sky.. Digo que me emocionei com seu texto!

  7. Diu Mota disse:

    A coragem da confissão é uma só…
    Belo texto.

    Qualquer coisa passa lá no meu ponto, ok?!

    Inté

  8. Dudu X7 disse:

    Afinal, o que ele disse hein?

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