Categoria: Contos

Fev 24

Uma nova pessoa

Rafael se debateu, fez força, pulou, mas a cadeira onde estava amarrado nem ao menos se mexeu, parecia parafusada no chão.

Olhou para Cássia que estava calma puxando um banco de madeira para perto dele que olhava em volta, não reconhecia o lugar onde estava, parecia um armazém vazio.

- Veja Rafael, eu só quero saber a verdade, e depois você pode ir, mas eu preciso que você me fale exatamente a verdade.

Rafael olhou nos olhos de Cássia e viu que ela estava serena, ele respirou fundo e tentou ignorar o formigamento dos braços por causa da pressão das cordas.

- Tudo bem Cássia, o que você quer saber? – falou tentando disfarçar o medo na voz.

- Você fez tudo o que fez, me fez te amar, fazer planos junto de você, e você estava o tempo todo me sacaneando pelas costas – disse Cássia, que interrompeu a frase para suspirar lembrando da recente dor do termino do seu noivado, foi quando Rafael interrompeu.

- Você quer saber o porquê eu fiz essas coisas?

Cássia abriu um sorriso estranhamente luminoso.

- Não Rafael, eu sei por que você fez essas coisas, fez por que é um mau caráter, um cafajeste. Mas você parecia uma boa pessoa, todo mundo pensa que você é uma boa pessoa, mas no fundo você é um safado, quero saber como você conseguiu enganar todos. É isso que eu quero saber.

Rafael ficou confuso no começo, mas encarou a pergunta com a sobriedade que vem de estar completamente imobilizado sem ninguém para ajuda-lo, resolveu entrar de cabeça no jogo de Cássia.

- Ok, Cássia, é bastante simples, você conheceu um Rafael que morreu. Que não existe mais, e eu uso o que sobrou dele às vezes.

Cássia se ajeitou no banquinho e cruzou as longas pernas.

- Explique melhor.

- Muito tempo atrás um outro Rafael foi noivo, e foi o noivo mais feliz do mundo, ele era honesto, ia de casa para o trabalho, e fazia absolutamente tudo para agradar sua noiva, era gentil, mandava flores, comprava joias, vivia sua vida por ela, na verdade, ela era mais importante que a própria vida desse Rafael.

- E o que aconteceu com “esse” Rafael? – perguntou Cássia.

- Ele morreu. Morreu de coração partido quando viu a noiva com um dos futuros padrinhos de casamento fazendo sexo na cama que ele havia comprado para eles. Mas veja, ele não morreu naquele instante, o coração partido continuava a bater mesmo dilacerado, mas cada movimento que ele fazia para manter a vida naquele corpo causava dor, uma dor insuportável. Um dia essa dor o fez sofrer tanto que aquele Rafael morreu.

Cássia enviou a mão nos bolsos e tirou um maço de cigarros.

- Você nunca fumou Cássia – disse Rafael.

- Agora eu fumo – respondeu Cássia – continue sua história.

- “Aquele” Rafael morreu, mas seu corpo continuou como uma nova pessoa, uma que não tem escrúpulos e que não serve a ninguém a não ser o próprio prazer, mas muito mais forte, mais confiante, mais ofensivo. Ele se tornou eu. Às vezes puxo do fundo do meu passado a carcaça daquela antiga pessoa que fui e uso como uma mascara, é assim que eu faço.

Rafael suspirou, abaixou a cabeça e uma lagrima rolou pelo seu rosto.

Cássia se levantou, acariciou o rosto de Rafael e tocou-lhe os lábios em um beijo frio, ela estava cheirando a um perfume que Rafael não conhecia. Ficou em pé na frente dele que ao olhar para ela pensou “ela está mais linda do que nunca”.

Realmente Cássia parecia mais bonita, cabeça levantada, postura ereta, cabelos brilhantes, emanava um poder e uma sensualidade que não parecia ser dela que era sempre tímida e recatada.

Ela colocou a mão no outro bolso e tirou um objeto de metal, uma navalha, Rafael engoliu seco, Cássia deu a volta na cadeira e cortou as cordas que prendiam Rafael.

- Você pode ir – disse ela guardando a lamina nos bolso.

- Posso? – indagou sem entender.

- Sim pode – ela respondeu dando as costas e saindo em direção a uma porta.

Rafael ficou olhando para aquela mulher alta com um corpo escultural, não se lembrava de Cássia ter roupas de couro tão sensuais.

- O que foi isso Cássia? O que aconteceu aqui? O que aconteceu com você? – ele perguntou enquanto esfregava os pulsos marcados pelas cordas.

Cássia olhou por cima do ombro sem se virar.

- Você matou a antiga Cássia, e agora sobrou apenas eu, a nova Cássia. Tenha uma boa vida Rafael, eu quase sou grata por você ter entrado na minha vida… quase grata – e ela abriu e atravessou a porta de metal.

Rafael ficou alguns minutos parado no mesmo lugar, estava tentando decidir-se se tinha feito bem ou mal para a vida de Cássia, mas só conseguiu ter a certeza que gostava muito mais dessa nova versão.

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Fev 16

Vingança

Era uma aldeia dessas que vocês veem em filmes. Ali as pessoas viviam felizes, não tinham muitas posses, mas, viviam bem.

O ferreiro produzia ferraduras, o padeiro assava os pães, a costureira cerzia roupas, o agricultor plantava, e outras pessoas com outras profissões faziam o que suas ocupações determinavam.

Na festa de verão Francisco, o açougueiro, assistia a dança em volta da fogueira quando ouviu César, o marceneiro, falar que “mataria Dolores”, esposa de Francisco. O açougueiro se aproximou de César e ambos visivelmente embriagados começaram a discutir.

Tomás, o carroceiro, amigo de longa data de Francisco foi ajudar seu amigo açougueiro, empurrou César tentando afastá-lo, Moisés, o lenhador, que sempre achou Tomás um encrenqueiro, mesmo sem ter motivo nenhum para isso, e resolveu defender César, mas tropeçou em um pedaço de lenha e ao cair sua mão bateu no rosto de Clotilde, esposa de Tomás.

No dia seguinte o ferreiro recebeu encomenda de armas, Francisco foi morto com uma flecha cravada no pescoço dentro da taberna. Pedro, o taberneiro, disse que a flecha parecia com as que eram usadas por Carlos, o caçador, vizinho de César, o marceneiro, que planejava matar a esposa de Francisco.

Carlos teve sua casa queimada, e perdeu a esposa e seus dois filhos, mortos no incêndio. Os boatos de que era uma vingança de Tomás fizeram com que Carlos fosse vingar-se sobre a vingança dele, que por sua vez estava vingando Francisco.

A discórdia não parou aí. Aldeões defendiam seus amigos, mesmo os que não eram tão amigos assim, o ferreiro passou a produzir espadas e lanças, o padeiro passou a usar seu forno para forjar pontas de flechas, a costureira agora prendia cotas de metal e placas em roupas de couro, e o agricultor não tinha o que plantar por que seu campo estava encharcado de sangue que foi usado para lavar a honra de muitos.

Aparentemente muitos queriam lavar a honra com esse novo produto de higienização tão fantástico, por que muito sangue foi derramado.

Quando todos foram vingados, tiveram suas honras limpas, secas e passadas, quando todos os corpos foram enterrados então outros moradores vieram para a aldeia, se casaram, trabalharam, e contavam a historia da grande guerra que anos atrás havia se abatido sobre o local.

E ninguém nunca soube que Dolores era o nome da porca do marceneiro César e que ele a mataria para um banquete onde pretendia chamar toda a cidade, inclusive o açougueiro Francisco e sua esposa.

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Fev 31

Precisamos conversar

Carlos destrancou a porta e, deixando a pasta sobre a mesinha ao lado da porta, entrou anunciando sua chegada:

- Marta, cheguei.

Virou e se surpreendeu com a esposa sentada encolhida no canto do sofá.

- Oi querida, alguma coisa errada?

Marta olhou séria para ele, colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha e disse:

- Senta Carlos, precisamos conversar.

Ele franziu a testa diante do tom de gravidade das palavras de Marta, que esperou ele se sentar, se aproximou, olhou fundo nos olhos dele e segurou suas mãos.

- Primeiro eu quero que você saiba que eu te amo muito, que você é o homem da minha vida.

- Eu também te amo – respondeu Carlos, preocupado – o que está acontecendo?

Marta continuou.

- Eu fiz uma coisa muito errada, estou muito arrependida, mas eu não posso voltar no tempo e – lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto moreno – e eu te amo tanto, não quero te perder, então pensei muito antes de te contar.

Carlos respondeu apenas com um olhar.

- E eu não gostaria que você ficasse sabendo por outra pessoa, por que não seria justo com você, então eu resolvi…

- Ferrar com minha vida? – interrompeu Carlos.

- Como? – respondeu Marta sem entender.

- Ferrar com minha vida! É o que você resolveu? Porque se você fez algo de errado que sabe que vai me fazer sofrer, e vem me contar mesmo sabendo que eu não sei, você quer na verdade me ver sofrer.

Marta precisou de alguns segundos revendo as palavras que ouvira para compreender.

- Agora, se você me ama, você não vai fazer nada para me magoar, mas se você fizer, vai ter o mínimo de respeito de não me deixar descobrir nunca. Afinal, você não me ama?

- Amo – respondeu Marta claramente confusa.

- Então vamos fazer o seguinte, finja que não tivemos essa conversa – e Carlos se levantou do sofá.

- Mas Carlos, eu estou arrependida, estou sofrendo com meu erro.

Carlos se virou já demonstrando certa impaciência.

- O erro foi seu! Sofra sozinha, não venha me fazer sofrer junto! Chora ali no canto da sala em silêncio até passar! Mas não venha ferrar comigo!

Carlos foi para a cozinha jantar uma macarronada com almôndegas e tomar umas cervejas. Marta chorou em silêncio vários minutos, depois pensou nas palavras do marido e achou que realmente era melhor fingir que nada havia acontecido.

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Fev 08

Terráqueos

O pequeno comboio parou em frente a um grande edifício cinza no meio do nada e eu não fazia à mínima ideia de onde estava, um homem usando terno preto e óculos escuro abriu a porta da Land Rover.

- Rápido doutor, estamos atrasados!

Desci do veículo, agarrado a minha pasta, sem entender muito bem o que acontecia. Menos de duas horas atrás eu estava na minha casa tomando café da manhã, e agora estou no meio do que parece ser uma instalação secreta do governo.

Atravessamos tantas portas blindadas que não saberia dizer o número e então entrei em uma sala e fui surpreendido pela visão de ninguém menos que o Presidente.

- Doutor, é um prazer cumprimentá-lo.

Só consegui balbuciar um “igualmente senhor”, o que sucedeu após esse encontro foi ainda mais surpreendente, fui levado a uma sala onde me foi oferecida uma cadeira junto a uma mesa solida de metal onde consegui identificar, sentados em cadeiras semelhantes, algumas das mais brilhantes mentes da nossa época, físicos, matemáticos, teólogos e mais tarde fiquei sabendo até mesmo músicos e agora eu me juntava a esse seleto grupo.

Mesmo sendo um antropólogo reconhecido e confesso sem falsa modéstia, bastante premiado me senti pequeno enquanto me sentava na gelada cadeira.

- Senhores – começou a falar o presidente – peço desculpas pelas circunstâncias que foram convocados aqui essa manhã, mas tenho certeza que todos vão concordar que situação requeria tal medidas.

Várias possibilidades começaram a passar pela minha cabeça, nenhuma delas chegava nem perto da verdade.

- Ontem às duas horas da manhã segundo o horário do pacifico fomos contactos pelos serviços de segurança aeroespacial e pelo departamento de segurança do estado que estávamos recebendo a visita de uma entidade alienígena inteligente.

O murmúrio na sala cresceu até se transformar em uma quase explosão de vozes, o presidente teve que ser incisivo para continuar falando.

- Tal criatura exigiu que as maiores mentes do planeta fossem reunidas para conversarem com ele e por isso vocês foram convocados.

Confesso que ouvir todo o resto foi difícil, não consegui me focar em mais nada além de encontraríamos um ser inteligente de outro planeta. As horas que se seguiram foram usadas para trocarmos de roupa, passarmos por um processo de esterilização e instrução de alguns protocolos. Quando penso nesses momentos enquanto escrevo esse relato tudo fica nublado, mas o momento que estávamos na sala blindada é nítido em minha mente, a sala onde estávamos quando a porta se abriu e dela saiu uma criatura baixa de forma vagamente humanóide meu coração estava saindo pela boca.

As horas que se seguiram depois disso foram puro pesadelo.

Quando ele finalmente deu a reunião por encerrada os militares abriram a porta para que pudéssemos sair, fiquei sabendo mais tarde que uma força havia desativado todos os aparelhos eletrônicos no local e que por conta disso as portas não puderam ser abertas assim que perceberam que as câmeras não funcionavam.

Todos deixamos o lugar em estado de choque, alguns choravam copiosamente, eu mal conseguia andar e arrastava as pernas, voltei a mim com um general gritando enquanto me sacudia pelos ombros.

- Pelo amor do Criador homem. Me diga o que aconteceu lá dentro?

Tive que tomar fôlego e me concentrar como nunca para responder.

- Conversamos…

- Como assim “conversaram” homem, vocês passaram três horas lá dentro, por que estão nesse estado?

- Foi horrível.

- Por favor doutor, conte-nos.

Depois de alguns minutos e um copo de água consegui falar poucas palavras.

- Ele perguntou por que fazemos o que fazemos, tudo, em todos os aspectos e áreas, perguntou por que partimos o coração de outras pessoas, por que temos vergonha de fazer o que é certo, por que matamos nossa própria espécie e outras, por que somos gananciosos, por que somos… minha nossa, foi horrível.

Os militares disseram que provavelmente a criatura usou de alguma forma de poder psíquico e por isso estávamos transtornados daquela maneira, mas todos nós que participamos dessa experiência sabemos que não foi isso. A verdade é que aquela criatura representante de outra civilização que durante décadas estudava nossos hábitos sem entende-los, estava certa em não compreender a grande maioria de nossas ações mais hediondos.

Quando encontrarem essa carta, que deixo para seja lá quem encontrar, já estarei morto, a notícia do meu suicidio provavelmente não virá acompanhada da minha declaração que simplemente não suporto mais a vergonha, a gigante vergonha, e digo mais, a gigante vergonha intergaláctica de ser terráqueo.

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Fev 15

Superpoderes

Durante gerações a humanidade criou as mais variadas historias sobre feitos impossíveis, na mitologia eram os semideuses e heróis com suas espadas e arcos, no cinema os personagens de filmes de ação com suas armas e maquinas mortais, nas histórias em quadrinhos os super-heróis com suas roupas coloridas e capas esvoaçantes.

Durante milênios isso era ficção, mas não sabemos se por uma manifestação divina, ou se por uma mutação genética ou ainda se pelo simples acaso começaram a surgir os primeiros casos registrados cientificamente de humanos com capacidades sobre-humanas.

O primeiro deles foi o senhor Marcelo Gales, um homem dotado de incríveis poderes de premonição. O senhor Gales podia prever com absoluto acerto e meses de antecedência eventos que ainda não ocorreram.

O senhor Gales ao comprar um carro novo soube que ele iria bater quando um motorista bêbado ultrapassasse o sinal vermelho em um cruzamento e também que ele não ficaria machucado.

Ele ligou para os bombeiros antes de um grande incêndio em um prédio comercial no centro da cidade.

Até mesmo em eventos simples como em uma pelada de futebol com os amigos esse extraordinário humano conseguia prever qual chute se converteria em gol e qual seria apenas uma bola fora.

No entanto essa habilidade nunca lhe foi muito útil. Mesmo sabendo que bateria o carro em um cruzamento ele não conseguiu desviar a tempo, os bombeiros da cidade ameaçaram processa-lo por trote quando tentou avisa-los sobre o incêndio e mesmo no futebol saber se a bola entraria ou não nunca lhe deu uma habilidade com os pés e ele continuava um perna-de-pau.

Um dia ele conheceu uma garota, em uma festa luxuoso prédio onde morava seu patrão, olhou para ela e instantaneamente vislumbrou o futuro mais uma vez, seriam amigos, em pouco tempo a atração seria inegável, o primeiro beijo, a primeira noite juntos, a surpresa dele ao ver que ela não tinha medo de sua habilidade e sim admiração, os programas juntos, as viagens, a certeza que ela era a pessoa perfeita, o noivado, o casamento, os filhos, a crise, as crises, as brigas, o desejo de não voltar para casa depois do trabalho, o divorcio, a dor da separação, as noites sozinhos se afogando em lágrimas e bebidas.

Quando ele voltou de sua visão tinha os olhos encharcados de lágrimas, ela não entendeu o que acontecia e ficou olhando fixamente para ele esperando uma resposta para ao seu singelo “prazer em conhecê-lo”. Ele deixou o copo que segurava cair e quebrar ruidosamente no chão, ele saiu correndo trombando nos convidados atônitos com a cena, deixou o lugar e foi encontrado horas depois atropelado por um caminhão.

Alguns dizem que foi um acidente, mas outros acham que Marcelo Gales se matou por que não suportava mais o inconveniente que sua habilidade trazia, e outros ainda acreditavam que ele se matou porque sofreu do pior caso de coração partido de toda a humanidade, talvez do universo, ele teve com cruel vivacidade o coração partido por um amor antes mesmo de viver esse amor.

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Fev 16

Preenchendo a lacuna

Tinha certeza que já havia esperado demais, longos anos de covardia, depois de uma garrafa inteira de bebida o mundo havia ficado branco e vazio como uma lacuna, igual a sua vida. Resolveu terminar com isso, encheu-se de coragem e digitou o número no celular e torceu para ela atender antes que a coragem provinda do álcool fosse embora.

- Carine, preciso te contar uma coisa, quero te ver agora. Você pode? – falou tudo de uma vez sem tomar ar.

A voz do outro lado da linha estava com um entusiasmo que sempre fazia-o sorrir mesmo sem perceber.

- Thiago, como você adivinhou? Também preciso muito falar com você! Você pode vir aqui em casa agora?

- Estou ai perto, chego em dez minutos – respondeu Thiago tentando encobrir a voz levemente embargada pela bebida.

Desligou sem se despedir e começou a sua curta caminhada até a casa de Carine. Estava cansado de se esconder atrás da figura do amigo, iria contar toda a verdade. Contaria que é apaixonado há anos, que não passa um único dia sem imaginar como é beijá-la, diria como ele pode fazê-la feliz e como nunca vai fazê-la sofrer como tantos outros que ele viu passar pela vida dela.

Chegou na casa mais rápido do que imaginava, saltou o portão baixo e bateu na porta, alguns segundos pareceram uma eternidade. Quando levantou o braço para bater de novo Carine abriu a porta e saltou nos braços do amigo com um sorriso no rosto e falando algo, mas o coração de Thiago batia tão forte dentro do peito que ele não pode ouvir. Não ouviu, nem viu nada. Novamente o mundo virou de repente um grande espaço branco e ele teve certeza do que devia fazer: preenchê-lo.

- Carine, eu te amo! – disse afastando-a e segurando em seu rosto, depois beijo-a como sempre desejou fazer durante todos aqueles anos, de maneira longa e firme. Então a soltou.

Ela se afastou assustada e olhou para ele com ar de espanto.

- Você está louco Thiago, eu acabei de te contar que vou me casar com o Leandro! – disse ela quase gritando.

Foi apenas aí que Thiago notou Leandro na porta. Ficou instantaneamente sóbrio segundos antes de levar um soco que fez o mundo virar novamente um grande espaço branco, mas dessa vez preenchido com uma terrível dor no nariz quebrado.

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Fev 16

Dentro do carro

Ela não segura o sorriso quando vê o número que aparece no visor de seu celular.

- Oi Celso!

- Oi gata, tudo bom?

Ela tentou não demonstrar o entusiasmo, mas a verdade era que Celso mexia com ela, já haviam ficado várias vezes e ela sempre esperava a oportunidade de se divertir com o amigo sarado.

- Tudo bom, o que você manda? – perguntou ela.

- Então, te liguei para pedir um favor!

- Só assim para você me ligar é, para pedir coisas, olha que vou cobrar.

Ele riu do outro lado da linha, ela entendeu isso como um sinal para avançar.

- Acho que o preço vai ser outra noite como aquela depois do baile no clube, você me levou para trás do estacionamento no meu carro e fez de tudo comigo – ela faz uma pausa para suspirar – como foi gostoso, eu nunca tinha feito no carro antes, adorei. E ai? O que acha?

Celso suspirou quando ela finalmente parou de falar.

- Foi legal mesmo, vou ter que desligar agora.

- Ué! Você não ia me pedir um favor?

- Deixa para lá!

- Não, agora fala!

- Eu ia pedir seu carro emprestado para levar a Suelem em um baile no clube, mas…

E ela desligou antes que ele termina-se a frase.

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Fev 31

Nostalgia

Sempre sentia-se assim quando chegava à rodoviaria da cidade. O mesmo buteco com salgado ruim e cerveja quente, o mesmo mendingo bêbado sentado próximo aos táxis, e estes, barrigudos,   jogando dominó na mesma velha mesa de bar. O pensamento que ocorreu em sua mente foi: Que merda!

Resolve não pegar um táxi apesar da mala pesada, segue a pé para a casa dos pais e aproveita para observar a cidade.

A velha loja de chapéus virara uma velha loja de sapatos, a antiga ótica tornara-se um restaurante. A velha farmácia transformou-se numa velha padaria. E dessa maneira tudo estava no mesmo lugar.

Novamente lhe ocorreu: Que merda!

Quando passou pelo velho colégio uma nostalgia gostosa tomou seu coração, suspirou profundamente. Já havia deixado a cidade há mais de quinze anos e a última aula que assistiu naquele prédio fora há mais de vinte.

E dessa vez seu pensamento não foi de lamentação ou reprovação, mas de uma saudade boa que fez um sorriso brotar em seus lábios.

Se lembrou das brincadeiras de criança, do velho time de futebol, do primeiro beijo, da velha lanchonete, dos professores odiados e amados.

E quando se lembrou dos professores, uma em particular veio à sua mente: Rose.

- Professora Rose… – repetiu como quem saboreava as palavras.

Era sua professora de história, loira, não muito alta, sempre sorrindo, seios grandes que durante explicações empolgantes sobre reis e revoluções, faziam ele se perder na esperança de vislumbrar um pouco mais deles.

Ela tinha pernas grossas e firmes e uma bunda tão impressionantemente redonda que ele diversas vezes se perdia em pensamentos obscenos enquanto ela escrevia no quadro negro.

Seu cabelo loiro de um dourado cintilante era quase tão hipnotizante quanto seus lábios grandes carnudos e vermelhos.

Quando deu por si já estava dentro da escola conversando com o diretor, explicando que era um antigo aluno e que gostaria de visitar o prédio.

A velha inspetora de alunos encarregada de acompanhá-lo durante a visita, reconheceu naquele homem o “jovenzinho de boca suja” e relembrou os vários petelecos de reprovação que recebeu dela ao usar um palavreado inadequado.

Ele foi discreto ao perguntar pela Pofessora Rose, mas não conteve o sorriso ao saber que ela ainda dava aulas naquela mesma escola, naquela mesma sala. Prendeu a respiração ao olhar pela porta e novamente ver sua antiga professora.

Ela estava de pé explicando algum esquema no quadro, ele olhou com atenção para aquele par de pernas, seus seios, seus cabelos. E um pensamento tornou-se palavras suspiradas que escaparam de sua boca.

- Mas que merda!

E então a velha inspetora acertou-lhe um peteleco reprovador no alto da cabeça.

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Fev 25

Desculpa, não resisti

Marcela se levantou e foi até  o banheiro no fim do corredor, havia muito tempo que não tomava tanta cerveja e isso apenas intensificava o efeito diurético da bebida. No banheiro pensou no rapaz que conhecerá, notou os olhares indiscretos dele, se lamentou por ele ter uma noiva.

Quando saiu cruzou com ele no corredor, o espaço diminuto do local fez com que eles “dançarem” por alguns segundos tentando passar, ela parou e sorriu, olhou para ele, não tinha notado como ele era alto.

- Desculpa – disse ela sem graça.

Ele olhou um segundo para trás, depois segurou o rosto dela com as duas mãos e beijo sua boca vigorosamente, ela teve uma leve intenção de resistir, mas quando se deu conta estava retribuindo, de repente ele parou.

- Desculpa, eu… eu simplesmente não resisti. Você é muito maravilhosa – disse ele visivelmente constrangido.

Ela não respondeu, apenas respirou fundo recuperando o ar.

- Me encontra lá fora por favor.

Ele se encolheu contra a parede e foi ao banheiro.

Mais tarde no carro dela ele falou que nunca havia se sentido tão atraído assim por alguém, que agiu por impulso, se desculpou e beijo sua boca de novo. Terminaram em um quarto de motel.

Na semana seguinte ele foi para a festa na casa do antigo vizinho, encontrou com Roberta na saída da cozinha e enquanto ninguém olhava segurou o rosto dela com as duas mãos e beijou sua boca.

- Desculpa, eu… eu simplesmente não resisti. Você é muito maravilhosa.

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Fev 13

Poesia sensorial

- Gosto da fazenda, adoro os finais de semana aqui. Quando me levantei agora pela manhã escutei ao longe o barulho do rio que passa depois da estrada, suave, calmo, e assim minha audição se deleitou. O cheiro do café sendo moído e torrado na hora invadiu minhas narinas me deixando quase embriagado. Estendi a mão e peguei uma broa de milho ainda quente que havia acabado de sair do forno e mordi com gosto. O paladar foi invadido pelo gosto das ervas misturados na massa e me deliciei com isso. Olhei pela janela da cozinha e vi as árvores ao longe, os animais pastando calmamente e o sol nascendo acanhado no horizonte. Meu único sentido que não se deleitava nesse cenário brejeiro e delicioso era o tato. E foi por isso que eu peguei na bunda da Mariazinha, que estava na cozinha preparando o desjejum com tanta gana. Estava apenas aproveitando toda essa poesia sensorial. Você entende querida? Não foi por maldade ou malícia!

E a esposa contrariada respondeu sem entender a conotação sensível e rítmica daquela experiência sensorial.

- Você é um babaca!

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