Rafael se debateu, fez força, pulou, mas a cadeira onde estava amarrado nem ao menos se mexeu, parecia parafusada no chão.
Olhou para Cássia que estava calma puxando um banco de madeira para perto dele que olhava em volta, não reconhecia o lugar onde estava, parecia um armazém vazio.
- Veja Rafael, eu só quero saber a verdade, e depois você pode ir, mas eu preciso que você me fale exatamente a verdade.
Rafael olhou nos olhos de Cássia e viu que ela estava serena, ele respirou fundo e tentou ignorar o formigamento dos braços por causa da pressão das cordas.
- Tudo bem Cássia, o que você quer saber? – falou tentando disfarçar o medo na voz.
- Você fez tudo o que fez, me fez te amar, fazer planos junto de você, e você estava o tempo todo me sacaneando pelas costas – disse Cássia, que interrompeu a frase para suspirar lembrando da recente dor do termino do seu noivado, foi quando Rafael interrompeu.
- Você quer saber o porquê eu fiz essas coisas?
Cássia abriu um sorriso estranhamente luminoso.
- Não Rafael, eu sei por que você fez essas coisas, fez por que é um mau caráter, um cafajeste. Mas você parecia uma boa pessoa, todo mundo pensa que você é uma boa pessoa, mas no fundo você é um safado, quero saber como você conseguiu enganar todos. É isso que eu quero saber.
Rafael ficou confuso no começo, mas encarou a pergunta com a sobriedade que vem de estar completamente imobilizado sem ninguém para ajuda-lo, resolveu entrar de cabeça no jogo de Cássia.
- Ok, Cássia, é bastante simples, você conheceu um Rafael que morreu. Que não existe mais, e eu uso o que sobrou dele às vezes.
Cássia se ajeitou no banquinho e cruzou as longas pernas.
- Explique melhor.
- Muito tempo atrás um outro Rafael foi noivo, e foi o noivo mais feliz do mundo, ele era honesto, ia de casa para o trabalho, e fazia absolutamente tudo para agradar sua noiva, era gentil, mandava flores, comprava joias, vivia sua vida por ela, na verdade, ela era mais importante que a própria vida desse Rafael.
- E o que aconteceu com “esse” Rafael? – perguntou Cássia.
- Ele morreu. Morreu de coração partido quando viu a noiva com um dos futuros padrinhos de casamento fazendo sexo na cama que ele havia comprado para eles. Mas veja, ele não morreu naquele instante, o coração partido continuava a bater mesmo dilacerado, mas cada movimento que ele fazia para manter a vida naquele corpo causava dor, uma dor insuportável. Um dia essa dor o fez sofrer tanto que aquele Rafael morreu.
Cássia enviou a mão nos bolsos e tirou um maço de cigarros.
- Você nunca fumou Cássia – disse Rafael.
- Agora eu fumo – respondeu Cássia – continue sua história.
- “Aquele” Rafael morreu, mas seu corpo continuou como uma nova pessoa, uma que não tem escrúpulos e que não serve a ninguém a não ser o próprio prazer, mas muito mais forte, mais confiante, mais ofensivo. Ele se tornou eu. Às vezes puxo do fundo do meu passado a carcaça daquela antiga pessoa que fui e uso como uma mascara, é assim que eu faço.
Rafael suspirou, abaixou a cabeça e uma lagrima rolou pelo seu rosto.
Cássia se levantou, acariciou o rosto de Rafael e tocou-lhe os lábios em um beijo frio, ela estava cheirando a um perfume que Rafael não conhecia. Ficou em pé na frente dele que ao olhar para ela pensou “ela está mais linda do que nunca”.
Realmente Cássia parecia mais bonita, cabeça levantada, postura ereta, cabelos brilhantes, emanava um poder e uma sensualidade que não parecia ser dela que era sempre tímida e recatada.
Ela colocou a mão no outro bolso e tirou um objeto de metal, uma navalha, Rafael engoliu seco, Cássia deu a volta na cadeira e cortou as cordas que prendiam Rafael.
- Você pode ir – disse ela guardando a lamina nos bolso.
- Posso? – indagou sem entender.
- Sim pode – ela respondeu dando as costas e saindo em direção a uma porta.
Rafael ficou olhando para aquela mulher alta com um corpo escultural, não se lembrava de Cássia ter roupas de couro tão sensuais.
- O que foi isso Cássia? O que aconteceu aqui? O que aconteceu com você? – ele perguntou enquanto esfregava os pulsos marcados pelas cordas.
Cássia olhou por cima do ombro sem se virar.
- Você matou a antiga Cássia, e agora sobrou apenas eu, a nova Cássia. Tenha uma boa vida Rafael, eu quase sou grata por você ter entrado na minha vida… quase grata – e ela abriu e atravessou a porta de metal.
Rafael ficou alguns minutos parado no mesmo lugar, estava tentando decidir-se se tinha feito bem ou mal para a vida de Cássia, mas só conseguiu ter a certeza que gostava muito mais dessa nova versão.
Era uma aldeia dessas que vocês veem em filmes. Ali as pessoas viviam felizes, não tinham muitas posses, mas, viviam bem.
Carlos destrancou a porta e, deixando a pasta sobre a mesinha ao lado da porta, entrou anunciando sua chegada:
O pequeno comboio parou em frente a um grande edifício cinza no meio do nada e eu não fazia à mínima ideia de onde estava, um homem usando terno preto e óculos escuro abriu a porta da Land Rover.
Durante gerações a humanidade criou as mais variadas historias sobre feitos impossíveis, na mitologia eram os semideuses e heróis com suas espadas e arcos, no cinema os personagens de filmes de ação com suas armas e maquinas mortais, nas histórias em quadrinhos os super-heróis com suas roupas coloridas e capas esvoaçantes.
Tinha certeza que já havia esperado demais, longos anos de covardia, depois de uma garrafa inteira de bebida o mundo havia ficado branco e vazio como uma lacuna, igual a sua vida. Resolveu terminar com isso, encheu-se de coragem e digitou o número no celular e torceu para ela atender antes que a coragem provinda do álcool fosse embora.
Sempre sentia-se assim quando chegava à rodoviaria da cidade. O mesmo buteco com salgado ruim e cerveja quente, o mesmo mendingo bêbado sentado próximo aos táxis, e estes, barrigudos, jogando dominó na mesma velha mesa de bar. O pensamento que ocorreu em sua mente foi: Que merda!
Marcela se levantou e foi até o banheiro no fim do corredor, havia muito tempo que não tomava tanta cerveja e isso apenas intensificava o efeito diurético da bebida. No banheiro pensou no rapaz que conhecerá, notou os olhares indiscretos dele, se lamentou por ele ter uma noiva.
- Gosto da fazenda, adoro os finais de semana aqui. Quando me levantei agora pela manhã escutei ao longe o barulho do rio que passa depois da estrada, suave, calmo, e assim minha audição se deleitou. O cheiro do café sendo moído e torrado na hora invadiu minhas narinas me deixando quase embriagado. Estendi a mão e peguei uma broa de milho ainda quente que havia acabado de sair do forno e mordi com gosto. O paladar foi invadido pelo gosto das ervas misturados na massa e me deliciei com isso. Olhei pela janela da cozinha e vi as árvores ao longe, os animais pastando calmamente e o sol nascendo acanhado no horizonte. Meu único sentido que não se deleitava nesse cenário brejeiro e delicioso era o tato. E foi por isso que eu peguei na bunda da Mariazinha, que estava na cozinha preparando o desjejum com tanta gana. Estava apenas aproveitando toda essa poesia sensorial. Você entende querida? Não foi por maldade ou malícia!
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