Category: Contos

junho 16th, 2010

Dentro do carro

Ela não segura o sorriso quando vê o número que aparece no visor de seu celular.

- Oi Celso!

- Oi gata, tudo bom?

Ela tentou não demonstrar o entusiasmo, mas a verdade era que Celso mexia com ela, já haviam ficado várias vezes e ela sempre esperava a oportunidade de se divertir com o amigo sarado.

- Tudo bom, o que você manda? – perguntou ela.

- Então, te liguei para pedir um favor!

- Só assim para você me ligar é, para pedir coisas, olha que vou cobrar.

Ele riu do outro lado da linha, ela entendeu isso como um sinal para avançar.

- Acho que o preço vai ser outra noite como aquela depois do baile no clube, você me levou para trás do estacionamento no meu carro e fez de tudo comigo – ela faz uma pausa para suspirar – como foi gostoso, eu nunca tinha feito no carro antes, adorei. E ai? O que acha?

Celso suspirou quando ela finalmente parou de falar.

- Foi legal mesmo, vou ter que desligar agora.

- Ué! Você não ia me pedir um favor?

- Deixa para lá!

- Não, agora fala!

- Eu ia pedir seu carro emprestado para levar a Suelem em um baile no clube, mas…

E ela desligou antes que ele termina-se a frase.

maio 31st, 2010

Nostalgia

Sempre sentia-se assim quando chegava à rodoviaria da cidade. O mesmo buteco com salgado ruim e cerveja quente, o mesmo mendingo bêbado sentado próximo aos táxis, e estes, barrigudos,   jogando dominó na mesma velha mesa de bar. O pensamento que ocorreu em sua mente foi: Que merda!

Resolve não pegar um táxi apesar da mala pesada, segue a pé para a casa dos pais e aproveita para observar a cidade.

A velha loja de chapéus virara uma velha loja de sapatos, a antiga ótica tornara-se um restaurante. A velha farmácia transformou-se numa velha padaria. E dessa maneira tudo estava no mesmo lugar.

Novamente lhe ocorreu: Que merda!

Quando passou pelo velho colégio uma nostalgia gostosa tomou seu coração, suspirou profundamente. Já havia deixado a cidade há mais de quinze anos e a última aula que assistiu naquele prédio fora há mais de vinte.

E dessa vez seu pensamento não foi de lamentação ou reprovação, mas de uma saudade boa que fez um sorriso brotar em seus lábios.

Se lembrou das brincadeiras de criança, do velho time de futebol, do primeiro beijo, da velha lanchonete, dos professores odiados e amados.

E quando se lembrou dos professores, uma em particular veio à sua mente: Rose.

- Professora Rose… – repetiu como quem saboreava as palavras.

Era sua professora de história, loira, não muito alta, sempre sorrindo, seios grandes que durante explicações empolgantes sobre reis e revoluções, faziam ele se perder na esperança de vislumbrar um pouco mais deles.

Ela tinha pernas grossas e firmes e uma bunda tão impressionantemente redonda que ele diversas vezes se perdia em pensamentos obscenos enquanto ela escrevia no quadro negro.

Seu cabelo loiro de um dourado cintilante era quase tão hipnotizante quanto seus lábios grandes carnudos e vermelhos.

Quando deu por si já estava dentro da escola conversando com o diretor, explicando que era um antigo aluno e que gostaria de visitar o prédio.

A velha inspetora de alunos encarregada de acompanhá-lo durante a visita, reconheceu naquele homem o “jovenzinho de boca suja” e relembrou os vários petelecos de reprovação que recebeu dela ao usar um palavreado inadequado.

Ele foi discreto ao perguntar pela Pofessora Rose, mas não conteve o sorriso ao saber que ela ainda dava aulas naquela mesma escola, naquela mesma sala. Prendeu a respiração ao olhar pela porta e novamente ver sua antiga professora.

Ela estava de pé explicando algum esquema no quadro, ele olhou com atenção para aquele par de pernas, seus seios, seus cabelos. E um pensamento tornou-se palavras suspiradas que escaparam de sua boca.

- Mas que merda!

E então a velha inspetora acertou-lhe um peteleco reprovador no alto da cabeça.

maio 25th, 2010

Desculpa, não resisti

Marcela se levantou e foi até  o banheiro no fim do corredor, havia muito tempo que não tomava tanta cerveja e isso apenas intensificava o efeito diurético da bebida. No banheiro pensou no rapaz que conhecerá, notou os olhares indiscretos dele, se lamentou por ele ter uma noiva.

Quando saiu cruzou com ele no corredor, o espaço diminuto do local fez com que eles “dançarem” por alguns segundos tentando passar, ela parou e sorriu, olhou para ele, não tinha notado como ele era alto.

- Desculpa – disse ela sem graça.

Ele olhou um segundo para trás, depois segurou o rosto dela com as duas mãos e beijo sua boca vigorosamente, ela teve uma leve intenção de resistir, mas quando se deu conta estava retribuindo, de repente ele parou.

- Desculpa, eu… eu simplesmente não resisti. Você é muito maravilhosa – disse ele visivelmente constrangido.

Ela não respondeu, apenas respirou fundo recuperando o ar.

- Me encontra lá fora por favor.

Ele se encolheu contra a parede e foi ao banheiro.

Mais tarde no carro dela ele falou que nunca havia se sentido tão atraído assim por alguém, que agiu por impulso, se desculpou e beijo sua boca de novo. Terminaram em um quarto de motel.

Na semana seguinte ele foi para a festa na casa do antigo vizinho, encontrou com Roberta na saída da cozinha e enquanto ninguém olhava segurou o rosto dela com as duas mãos e beijou sua boca.

- Desculpa, eu… eu simplesmente não resisti. Você é muito maravilhosa.

abril 13th, 2010

Poesia sensorial

- Gosto da fazenda, adoro os finais de semana aqui. Quando me levantei agora pela manhã escutei ao longe o barulho do rio que passa depois da estrada, suave, calmo, e assim minha audição se deleitou. O cheiro do café sendo moído e torrado na hora invadiu minhas narinas me deixando quase embriagado. Estendi a mão e peguei uma broa de milho ainda quente que havia acabado de sair do forno e mordi com gosto. O paladar foi invadido pelo gosto das ervas misturados na massa e me deliciei com isso. Olhei pela janela da cozinha e vi as árvores ao longe, os animais pastando calmamente e o sol nascendo acanhado no horizonte. Meu único sentido que não se deleitava nesse cenário brejeiro e delicioso era o tato. E foi por isso que eu peguei na bunda da Mariazinha, que estava na cozinha preparando o desjejum com tanta gana. Estava apenas aproveitando toda essa poesia sensorial. Você entende querida? Não foi por maldade ou malícia!

E a esposa contrariada respondeu sem entender a conotação sensível e rítmica daquela experiência sensorial.

- Você é um babaca!

abril 1st, 2010

Vestido vermelho

Abriu a porta e apareceu com seu vestido vermelho curto, seu salto alto e seu cabelo solto. Olhou para cima e abriu um sorriso ao olhar para a lua. Sentiu-se como se tivesse de novo vinte anos, apesar de nunca ter agido assim quando realmente o tinha.

Caminhou pela rua estreita andando fora da calçada, acenou com uma ponta de escárnio para a a vizinha da frente que observava tudo com olhar de reprovação. A vizinha recolheu sua cabeça coberta pelo lenço para dentro de casa antes de bater a janela dizendo em tom indiscreto para que pudesse ser ouvida:

- Vagabunda!

Ao invés de ficar chateada ou responder, ela apenas sorriu fazendo pouco caso.

Antes de chegar ao final da rua cruzou com a benemérita presidenta da associação de moradores do bairro. Esta olhou para ela dos pés as cabeça, desviou o olhar com um movimento brusco da cabeça quando notou seu sorriso de satisfação.

- Piriguete!

Ao cruzar com o marido da louvável presidenta, que se apressava caminhando atrás da esposa segurando as pesadas sacolas de compras, cumprimentou polidamente.

- Boa noite, Alberto!

- Boa!… noi… noite – gaguejou enquanto se equilibrava entre segurar as compras, desviar o olhar das longas pernas e não derrubar as sacolas.

Ela se afastou segurando a risada enquanto ouvia a esposa que repreendia o marido por dar atenção para “essa mulherzinha”.

Lembrou da época que era convidada para jantar com os vizinhos, de quando chorava no sofá delas sofrendo suas dores amargas, de quando consternava-se melancólica enquanto observava as famílias “amigas” a sua volta trazendo lembranças doloridas.

Lembrou de tudo isso sem nenhuma saudade e continuou caminhando até seu destino com o mais malicioso dos sorrisos nos lábios.

fevereiro 2nd, 2010

Atitude suspeita

Então o inevitável aconteceu, o destino inexorável que alcança a todos os seres humanos finalmente me alcançou. Morri. Morri uma morte calma e não me lembro de dor ou de sofrimento, agora estou a caminho do paraíso.

Estou em uma longa fila. Não vejo nenhum rosto conhecido. À frente, um alto portão dourado para o qual uma massa de pessoas movimentam-se lentamente, bloqueando minha visão. Espero minha vez.

Quando chego ao portão, vejo uma figura impressionante: alto, moreno, musculoso como um halterofilista, vestindo uma túnica tão branca que faz os olhos doerem. De sua cintura pende uma corda dourada e grossa como cabos de sustentação de uma ponte.

- Você, – aponta para mim com uma voz de trovão – venha até aqui filho.

Aproximo-me da figura imponente.

- Como vai, João? – Sinto um arrepio. Ele sabe o meu nome.

- Vou bem, Senhor – respondo quase gaguejando.

- Bem, como você pode ter percebido, estamos nos portões do paraíso e eu vou fazer algumas perguntas de praxe e você pode entrar. Ok? – enquanto tirava não sei de onde uma prancheta com uma ficha e caneta.

- Ok – respondi, tentando parecer confiante, mas me sentindo muito pequeno.

- Você foi honesto em sua vida mortal?

- Sim.

- Derramou sangue inocente?

- Claro que não – percebendo que não seria complicado.

- Cuidou bem de sua companheira e dos seus amigos.

- Sim, muito bem – sentindo a confiança crescer.

- Cuidou do seu corpo mortal?

- Sim, eu fazia exercícios físicos diariamente, não bebia, nunca fumei, nunca consumi drogas e tirava a gordura da carne vermelha.

Nesse momento a gigante figura celestial tira os olhos da prancheta sem mover a cabeça e me olha por cima dos papéis.

- Tirava o quê?

- Sim, eu tirava a gordura da carne vermelha. Sabe aquela gordurinha da picanha? Eu tirava, faz mal para o coração e…  –  calei-me sentindo que já falava muito.

A gigante figura colocou as mãos na cintura e olhou sério para mim.

- Você tirava a capa de gordura da picanha? – falando devagar como quem precisava digerir bem as palavras.

- Bem… sim, tirava – respondi, sentindo-me ainda menor.

- Espera ali no canto – apontando para uma cadeira ao lado de uma grande mesa – próximo!

A atitude daquele gigante me deixou preocupado.

- Só um momento, eu não estou entendendo…

- Sente-se ali com aqueles outros. – ele esbraveja.

Ele disse “outros” de maneira quase pejorativa. Desesperei-me.

- Não, espera, você não entende, me falaram que a gordura fazia mal – sinto as mãos de dois poderosos anjos seguranças me puxando para minha cadeira.

- Senhor, sente-se aqui com os outros que tiveram atitudes suspeitas em vida – ordena o anjo enquanto continua me empurrando.

- Atitude suspeita? Que atitude suspeita? – pergunto vendo os portões se distanciarem.

- Essa moça que não gostava de sorvetes, o cara que não comia chocolate e o padre que não bebia vinho, sente-se e espere – a mão forte do anjo me força a sentar na cadeira.

Nesse momento, acordo suando frio. As mãos tremem. Minha esposa acorda junto com meu movimento brusco.

- O que foi querido? Teve um pesadelo?

Respondi ainda ofegante.

- Amor, vamos almoçar na churrascaria hoje!

janeiro 11th, 2010

Programa de TV

O novo quadro do programa vespertino de domingo não tinha chances de fracassar; possuía todos os elementos populares para ser um sucesso. O apresentador iria procurar uma antiga celebridade fracassada, a que estivesse na pior situação possível, e presentear-lhe com uma casa nova, mobiliada e super moderna.

O felizardo ganhador da estreia do quadro não podia ter sido melhor: o antigo ajudante de palco do apresentador. Ele ficou famoso com o apelido de Pombinho por causa da coreografia engraçada que fazia com sua fantasia de pombo e o escárnio que sofria do apresentador em um clima de brincadeira em que chutava o seu traseiro aos gritos de “Xô Pombinho, xô!”

Pombinho não podia estar em situação pior: morava com a esposa e um filho embaixo de um viaduto na periferia da cidade, seus móveis se resumiam a dois colchões, um fogareiro, algumas caixas empilhadas que servem de armário e muito papelão que servia de cobertura, divisórias e cobertores em alguns dias.

O apresentador chegou ao local vestindo seu terno de dois mil reais com uma equipe pequena de cinco pessoas e começou a entrevistar seu antigo companheiro de palco.

- Pombinho, como você veio aqui, sob essa ponte?

- Então Augusto, eu trabalhei muitos anos no seu programa… Quando saí para seguir carreira solo, não tive a mesma sorte… Lancei o disco do Pombinho e investi um dinheiro em uma linha de brinquedos, mas não tive sorte.

- Então, Pombinho, estou aqui para te fazer uma surpresa. Você foi escolhido para ganhar uma casa toda mobiliada do Programa do Augusto.

Sobe a música orquestrada, a câmera fecha no rosto de Pombinho abraçando a esposa aos prantos.

Toda a construção da casa foi acompanhada pelo programa, da escolha do terreno, passando pelo trabalho da decoradora, parte elétrica, acabamentos, metais até finalmente o dia da grande entrega.

Um grande show com a banda de sucesso local em um palco em frente a casa, que estava toda coberta com redes que sustentavam balões de gás. A família ganhadora chega. Pombinho veste um terno branco e parece ter passado por um banho de loja, assim como a esposa.

- Como está o coração Pombinho? – pergunta o generoso apresentador.

- Muita emoção, meu amigo. Muita emoção.

- Então, vamos conhecer a sua casa nova?

A rede sustentando os balões é solta vindo a baixo. Os balões livres ganham os céus e a nova casa é revelada. Linda e cheirando a nova, sobe novamente a música de impacto. Augusto e a família, aos prantos, entram.

Augusto mostra a sala, os móveis, passa para a cozinha todo equipada, para a sala de jantar com os pratos postos e organizados com meia dúzia de talher cada um; sobem por uma escada e mostra o quarto da criança cheio de brinquedos; passam para o quarto do casal, Pombinho senta-se na beira da cama com lágrimas nos olhos.

- Então Pombinho, gostou da sua casa nova?

- Gostei muito Augusto, estou muito feliz.

- Então Pombinho, para encerrar nosso quadro só falta uma coisa. Abra o guarda-roupa. Eu tenho uma surpresa.

Pombinho se levanta e abre o guarda-roupa. Seu sangue gela e seus olhos arregalados parecem em destaque no vídeo com a maçã do rosto brilhando por causa das lágrimas recém-derramadas. De dentro do moderno e bonito guarda-roupa embutido, ele tira sua antiga fantasia de ajudante de palco.

- Agora Pombinho, vista-se e vamos lá embaixo no palco fazer sua apresentação.

Alguns minutos depois, Pombinho desce com sua fantasia de pombo. Seu olhar para o público que grita seu nome é apreensivo. Augusto já está no palco. Ele sobe e sua antiga música começa a tocar. Ele olha para trás procurando o olhar da esposa que está com expressão suplicante.

- Vamos lá Pombinho, vamos dançar, dança pombinho, dança.

E Pombinho dançou tão bem quanto se lembrava: mexia as asas, virava de costas e requebrava, balançava a cabeça de um lado para outro, a música aumentava seu ritmo e enquanto encaminhava-se ao seu clímax, o apresentador gritou.

- Chega, Xô Pombinho, xô pombinho – e começou a chutar o pombinho para fora do palco.

O público gargalhava e repetia “xô Pombinho”. Augusto continuava chutando o ajudante de palco. Pombinho virou-se subitamente nesse momento de frente para Augusto e avançou contra ele com tanta fúria que o derrubou em um único golpe. Subiu sobre ele e arrancou seu microfone. A equipe ficou atônita e o público não tinha certeza do que estava acontecendo quando viram Pombinho enfiar o microfone pela boca de Augusto, empurrando violentamente para dentro de sua garganta. Um segurança mais truculento conseguiu derrubar o louco enquanto a produtora tentava retirar o microfone de dentro de Augusto que sufocava.

O quadro de estreia que tinha tudo para ser um sucesso nunca foi exibido na televisão.

dezembro 8th, 2009

Confissão

Ele usava um lenço para enxugar o suor que escorria pela testa, as mãos tremiam enquanto descia pelo elevador. Espantou-se quando notou que estava sorrindo.Como podia ter a coragem?

Desceu na garagem e foi para o carro. O misto de satisfação e arrependimento o dominava. Ligou o carro e ganhou a rua. Ainda sentia o cheiro e isso o incomodava assim como o deixava com um ar de contentamento. Não conseguia mais se conter, sentia que dirigia sem saber para aonde estava indo, apenas seguindo o fluxo. Entrou no primeiro retorno. Achou melhor parar.

Descansou a cabeça entre as mãos sobre o volante, respirou fundo e quando levantou a cabeça notou que havia estacionado em frente a uma igreja. Desceu e entrou.

Enquanto andava pelo corredor de bancos, entre as imagens imóveis de anjos, homens e mulheres considerados santos, sentiu-se mal, culpado, sujo.

Suas mãos estavam escarlates, mas era apenas por que apertava vigorosamente o celular. Olhou para o aparelho e se viu discando os números. Ele precisava falar com alguém, precisava contar o que fez. Ligou para a noiva. Quando o telefone atendeu com um carinhoso “oi amor!”, ele pensou no que estava fazendo.

- Oi meu doce, preciso te falar uma coisa!

- Pois não meu lindo, fala, o que foi?

Então ele contou, contou tudo, sem tomar fôlego, sem parar para ouvi-la, cada detalhe fresco em sua mente. Descreveu cenário, cores, a posição dos móveis antes e como ficaram depois, tudo o que usou, como segurou e enquanto narrava seu corpo parecia reviver o momento. Foi ficando ofegante, agitado, falava cada vez mais rápido e intensamente e terminou. Então se calou para ouvir.

Mas não houve resposta, com o aparelho colado no ouvido chamou pela noiva, não escutou nada, afastou o aparelho da cabeça e viu que ele estava desligado. Ficou olhando para o aparelho apagado em sua mão como se fosse um singular artefato há muito perdido.

Ainda estava ofegante quando o celular tremeu em sua mão e começou a tocar. Era ela, levou o aparelho até o ouvido.

- Amor? Alô?

- Oi, você me ouviu?

- Não amor, a ligação caiu depois que você começou a falar. O que você ia dizer?

- Nada, apenas queria dizer que eu te amo muito e que você me faz muito feliz!

Se despediu, desligou o telefone e foi para casa.

dezembro 3rd, 2009

Manifestação contra os culpados

Tudo começou quando estudantes e lideres sindicais invadiram a câmara legislativa local para protestar contra as recentes denuncias de corrupção envolvendo políticos e empresas locais.

A manifestação tomou um rumo inesperado quando teve seu avanço impedido por outra manifestação, não de estudantes ou membros de sindicatos, mas dos políticos envolvidos. A surpresa foi ainda maior quando foi possível notar as reivindicações que esses partidários faziam.

Gritavam palavras em defesa de seu direito de serem corruptos e desonestos. Carregavam placas com as frases “Vocês já sabiam! Então por que votaram em nós?”, “Não cheguei ao poder sem seu voto!” e “Não fomos eleitos por marcianos! Mas pelo povo!”.  Essas foram as declarações do líder da manifestação José Rutáceos que fez as seguintes declarações:

- Somos sim corruptos, e quem não sabia disso quando votou? Eu já menti, jurei futilmente na televisão para todo mundo ver. Mesmo assim votaram em mim e cá estou! O que vocês esperavam?

O vice-governador, empresário e acusado de esquemas fraudulentos que acompanhava as declarações completou.

- Se você contratar um ladrão para ser seu empregado e tomar conta do seu caixa o que você pode esperar dele? Que ele respeite seus bens e sua instituição? É claro que não!

A manifestação continuou deixando a câmara legislativa e ganhou as ruas. Agora munidos de um carro de som, a estranha manifestação seguiu caminhando por todo o Brasil, foi a inúmeros cantos do Brasil declarando, sem vergonha, seus atos ilícitos apenas para desmenti-los em seguida. Praticamente todas as ruas e bairros e cidades do país receberam essas mensagens em suas portas.

Na eleição seguinte estavam todos reeleitos.

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http://noticias.br.msn.com/brasil/artigo.aspx?cp-documentid=22778698

novembro 24th, 2009

O Gladiador

Acordou cedinho e colocou os óculos com suas grossas e pesadas lentes. Olhou-se no espelho, apenas de cueca, pensou na grana que gastou em seis meses de academia e em como essa grana parecia pouca e barata perto do sofrimento e das dores que sentia durante e após as sessões de exercícios. Estava mais esquelético do que nunca.

Entrou na cozinha e deu um pulo quando o pé descalço tocou a água fria, a cozinha estava inundada. Por algum motivo, a geladeira descongelou no meio da noite e uma água misturada com os resíduos de comida estava espalhada pelo chão, o que fez o cômodo lembrar brevemente um pântano. Suspirou e mesmo assim entrou cozinha adentro.

Abriu a geladeira e uma nova onda de água gelada banhou sua canela, pegou uma caixa de leite e despejou no copo, mas pelotas de gordura com cheiro característico encheram o copo. Pareceu ver um rosto sorrindo entre o leite. Deixou o copo sobre a pia.

Tomou um banho, se vestiu e ao sair passou pela caixa de correspondências. Lá tinha contas, propagandas, contas, folhetos, contas, contas e contas. Suspirou mais uma vez, movimentou os ombros e os deixou cair como de costume.

Chegou a parada e o ônibus não demorou, no entanto, não havia lugar para ele se sentar. Uma senhora gorda com um cheiro estranho o espremia de um lado e um loiro musculoso do outro. Ele não teve espaço para suspirar, mas pensou o que aconteceria se ele pisasse na garganta da mulher gorda, e o pensamento lhe trouxe um certo prazer tenebroso no seu âmago.

No trabalho e entrou no segundo elevador que chegou ao térreo, por que o primeiro fechou a porta na sua cara. Sentou no seu cubículo sem cumprimentar ninguém e ligou o computador. O plano de fundo do seu equipamento era uma imagem de um filme antigo, então, ouviu aquele personagem falar com ele. Não era uma voz em sua cabeça, era uma voz vinda do passado.

Com sua cabeça inclinada para frente e para a direita, levantou suas sobrancelhas, sem mexer nenhum músculo além do necessário.

Seu gerente apareceu na porta e começou a falar com ele, reclamando sobre o atraso de um relatório, mas ele não ouvia. Seu olho esquerdo começou a pular compulsivamente, como um personagem de desenho animado em uma crise de nervos, mas tudo o que ele ouvia era o som de espadas, escudos, cavalos, lanças e por fim ouviu uma ordem retumbante.

Levantou tão rápido quanto um raio. O gerente não teve tempo nem de entender o que aconteceu quando o teclado acertou sua cabeça, a sensação foi como uma martelada em sua têmpora, ele sentiu o sangue começando a escorrer pelo rosto ao mesmo tempo que uma dor lancinante atingia seu cérebro. Atordoado, ele tropeçou e caiu derrubando as lixeiras, fazendo um grande barulho. Cabeças apareceram de seus cubículos para identificar a origem do estardalhaço, e tudo o que puderam ver foi o momento em que ele, com o pé esquerdo sobre o corpo do gerente caído no chão, rasgou sua camisa, soltando um rugido de ira tão forte e alto, que fez as pessoas do escritório sentirem suas espinhas se retesando como em resposta a um medo ancestral.

Viram ele saindo, camisa (ou o que sobrara dela) aberta com um peito branco, quase pálido, sem pêlos, a mostra. Em uma mão segurava o teclado como quem segura a lâmina de uma gládio e em outra o monitor LCD como um escudo com os fios pendurados. Avançou gritando, pisando sobre o gerente, que ainda não tinha se recuperado do susto.

Acertou Reinaldo, o colega de trabalho que fazia piadinhas sobre seu porte físico e montagens com suas fotos, com o teclado com tanta força, que o periférico se despedaçou. Por um momento, seus dentes e as teclas do teclado foram vistos saltando ensanguentados de sua boca. Tudo o que ele sentiu foi um estalo no maxilar e de repente teve a sensação de estar no coliseu romano, tendo seu rosto esmigalhado por um bárbaro. Reinaldo desmaiou no momento em que sentiu os dois pés do colega de trabalho ensandecido pousarem violentamente sobre seu peito. Ele estava sendo literalmente esmagado pelo outro, que pulava sobre ele como um gorila em fúria.

Paulo, o moreno forte que havia recebido a promoção que ele estava de olho, correu para tentar segurá-lo, mas com a agilidade de um samurai, ele desviou-se e, continuando o movimento, acertou a nuca de Paulo com o monitor, derrubando-o em um único golpe. Paulo ainda teve tempo de pensar em por que tinha se levantado da cama naquele dia, sentiu muita dor, e um formigamento estranho pelo corpo todo antes que o gladiador começasse a girar o monitor sobre si mesmo como uma maça medieval, e por fim o pousasse pesadamente em sua cabeça.

Seguiu mais a frente, já todo ensanguentado e com o olhar mais determinado que jamais exibira em sua vida. Derrubou mais quatro homens, incluindo um segurança. Neste ponto, já não possuia mais armas, tudo o que usava era seus punhos, até que dois encarregados e dois funcionários conseguiram, por fim, derrubá-lo.

Ele continuava a gritar em fúria, proferia palavras, mas não parecia nenhum idioma conhecido e às vezes apenas rugia, liberando toda a raiva concentrada que esteve contida em seu peito.

A maioria dos seus colegas de trabalho ficou perguntando-se “qual mesmo era seu nome” ou “como ele enlouqueceu”.

Ele gritava palavras ininteligíveis enquanto era arrastado para fora do prédio. Nunca mais foi visto.

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