Arquivo janeiro, 2010

Fev 15

Presente de aniversário

- Amor, pode olhar? – pergunta Paula ansiosa com as mãos sobre a venda improvisada com a gravata do namorado.

- Ainda não, estamos quase chegando. Cuidado com o degrau – responde Pedro.

Ela ouve um tilintar de um sino batendo na porta que se abre e a voz do namorado – Agora pode tirar…

Ela olha e se vê em uma grande sala com a atendente do sexshop sorrindo.

- Pedro, que isso! – exclama – ainda boquiaberta.

- É um dos seus presentes de aniversário, escolha o que quiser, qualquer coisa, estou pagando.

Paula sorri, e já sabendo as intenções do namorado, escolhe uma fantasia de colegial, alguns óleos e um incrementado vibrador, daqueles com uma dezena de funções, rotações e intensidades.

Saem de lá direto para o motel, onde mais da metade dos óleos ficam no lençol do quarto. Depois de duas horas de entretenimento, ela se lembra do jantar com os pais.

Saem do motel direto para a casa dela. Pedro dirige com um sorriso de satisfação proporcionado apenas por momentos tórridos de sexo como aquele. Do lado de fora da casa dos sogros já sentem o cheiro do churrasco e ouvem as conversas dos amigos e familiares. Paula entra ao som de um vigoroso “parabéns pra você” entoado pelos presentes.

Depois de cumprimentar todos e servirem-se do churrasco, o pai de Paula, acompanhado da esposa e de alguns amigos, pergunta para a filha ao lado do namorado sentado na área da casa próximo ao portão da rua.

- Como está sendo o aniversário de minha filhota?

- Perfeito pai, tenho vocês, todos meus amigos estão aqui, ganhei vários presentes lindos de vocês, dos meus amigos, do meu namorado.

- Qual presente o Pedro te deu filha? Eu não vi ainda – pergunta a curiosa mãe da moça.

Paula arregala os olhos, Pedro mastigava uma fatia de carne e congelou instantaneamente. Olhou para a namorada sem mexer a cabeça.

- Qual presente? – disse Paula tentando achar a resposta.

- Sim filha, que presente?.

Pedro se esforçava para engolir o pedaço de carne.

- É… foi… ai… é… nossa… tão lindo… é um…

- Um o quê filha? – solta o pai, já estranhando a demora.

Nesse momento, Pedro dá um salto e fica em pé, coloca o prato na mesa enquanto leva a mão até a garganta. Parecia ter algo obstruindo sua respiração.

- Ele engasgou, ele engasgou – gritou a mãe em desespero.

Pedro sai tossindo violentamente e puxando Paula pela mão.Deixam o portão da casa e a família observa tudo sem entender direito. Pedro vira a esquina da casa saindo do campo de visão de quem ainda estava lá e cospe longe o pedaço da carne.

- Vamos correndo para o shopping agora! Se eles perguntarem, você me levou para o hospital.

- Vamos fazer o que no shopping?

- Nem me fale! Depois daquela grana que custou o vibrador, ainda vou ter que te comprar uma joia. Droga!

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Fev 11

Programa de TV

O novo quadro do programa vespertino de domingo não tinha chances de fracassar; possuía todos os elementos populares para ser um sucesso. O apresentador iria procurar uma antiga celebridade fracassada, a que estivesse na pior situação possível, e presentear-lhe com uma casa nova, mobiliada e super moderna.

O felizardo ganhador da estreia do quadro não podia ter sido melhor: o antigo ajudante de palco do apresentador. Ele ficou famoso com o apelido de Pombinho por causa da coreografia engraçada que fazia com sua fantasia de pombo e o escárnio que sofria do apresentador em um clima de brincadeira em que chutava o seu traseiro aos gritos de “Xô Pombinho, xô!”

Pombinho não podia estar em situação pior: morava com a esposa e um filho embaixo de um viaduto na periferia da cidade, seus móveis se resumiam a dois colchões, um fogareiro, algumas caixas empilhadas que servem de armário e muito papelão que servia de cobertura, divisórias e cobertores em alguns dias.

O apresentador chegou ao local vestindo seu terno de dois mil reais com uma equipe pequena de cinco pessoas e começou a entrevistar seu antigo companheiro de palco.

- Pombinho, como você veio aqui, sob essa ponte?

- Então Augusto, eu trabalhei muitos anos no seu programa… Quando saí para seguir carreira solo, não tive a mesma sorte… Lancei o disco do Pombinho e investi um dinheiro em uma linha de brinquedos, mas não tive sorte.

- Então, Pombinho, estou aqui para te fazer uma surpresa. Você foi escolhido para ganhar uma casa toda mobiliada do Programa do Augusto.

Sobe a música orquestrada, a câmera fecha no rosto de Pombinho abraçando a esposa aos prantos.

Toda a construção da casa foi acompanhada pelo programa, da escolha do terreno, passando pelo trabalho da decoradora, parte elétrica, acabamentos, metais até finalmente o dia da grande entrega.

Um grande show com a banda de sucesso local em um palco em frente a casa, que estava toda coberta com redes que sustentavam balões de gás. A família ganhadora chega. Pombinho veste um terno branco e parece ter passado por um banho de loja, assim como a esposa.

- Como está o coração Pombinho? – pergunta o generoso apresentador.

- Muita emoção, meu amigo. Muita emoção.

- Então, vamos conhecer a sua casa nova?

A rede sustentando os balões é solta vindo a baixo. Os balões livres ganham os céus e a nova casa é revelada. Linda e cheirando a nova, sobe novamente a música de impacto. Augusto e a família, aos prantos, entram.

Augusto mostra a sala, os móveis, passa para a cozinha todo equipada, para a sala de jantar com os pratos postos e organizados com meia dúzia de talher cada um; sobem por uma escada e mostra o quarto da criança cheio de brinquedos; passam para o quarto do casal, Pombinho senta-se na beira da cama com lágrimas nos olhos.

- Então Pombinho, gostou da sua casa nova?

- Gostei muito Augusto, estou muito feliz.

- Então Pombinho, para encerrar nosso quadro só falta uma coisa. Abra o guarda-roupa. Eu tenho uma surpresa.

Pombinho se levanta e abre o guarda-roupa. Seu sangue gela e seus olhos arregalados parecem em destaque no vídeo com a maçã do rosto brilhando por causa das lágrimas recém-derramadas. De dentro do moderno e bonito guarda-roupa embutido, ele tira sua antiga fantasia de ajudante de palco.

- Agora Pombinho, vista-se e vamos lá embaixo no palco fazer sua apresentação.

Alguns minutos depois, Pombinho desce com sua fantasia de pombo. Seu olhar para o público que grita seu nome é apreensivo. Augusto já está no palco. Ele sobe e sua antiga música começa a tocar. Ele olha para trás procurando o olhar da esposa que está com expressão suplicante.

- Vamos lá Pombinho, vamos dançar, dança pombinho, dança.

E Pombinho dançou tão bem quanto se lembrava: mexia as asas, virava de costas e requebrava, balançava a cabeça de um lado para outro, a música aumentava seu ritmo e enquanto encaminhava-se ao seu clímax, o apresentador gritou.

- Chega, Xô Pombinho, xô pombinho – e começou a chutar o pombinho para fora do palco.

O público gargalhava e repetia “xô Pombinho”. Augusto continuava chutando o ajudante de palco. Pombinho virou-se subitamente nesse momento de frente para Augusto e avançou contra ele com tanta fúria que o derrubou em um único golpe. Subiu sobre ele e arrancou seu microfone. A equipe ficou atônita e o público não tinha certeza do que estava acontecendo quando viram Pombinho enfiar o microfone pela boca de Augusto, empurrando violentamente para dentro de sua garganta. Um segurança mais truculento conseguiu derrubar o louco enquanto a produtora tentava retirar o microfone de dentro de Augusto que sufocava.

O quadro de estreia que tinha tudo para ser um sucesso nunca foi exibido na televisão.

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