Então o inevitável aconteceu, o destino inexorável que alcança a todos os seres humanos finalmente me alcançou. Morri. Morri uma morte calma e não me lembro de dor ou de sofrimento, agora estou a caminho do paraíso.
Estou em uma longa fila. Não vejo nenhum rosto conhecido. À frente, um alto portão dourado para o qual uma massa de pessoas movimentam-se lentamente, bloqueando minha visão. Espero minha vez.
Quando chego ao portão, vejo uma figura impressionante: alto, moreno, musculoso como um halterofilista, vestindo uma túnica tão branca que faz os olhos doerem. De sua cintura pende uma corda dourada e grossa como cabos de sustentação de uma ponte.
- Você, – aponta para mim com uma voz de trovão – venha até aqui filho.
Aproximo-me da figura imponente.
- Como vai, João? – Sinto um arrepio. Ele sabe o meu nome.
- Vou bem, Senhor – respondo quase gaguejando.
- Bem, como você pode ter percebido, estamos nos portões do paraíso e eu vou fazer algumas perguntas de praxe e você pode entrar. Ok? – enquanto tirava não sei de onde uma prancheta com uma ficha e caneta.
- Ok – respondi, tentando parecer confiante, mas me sentindo muito pequeno.
- Você foi honesto em sua vida mortal?
- Sim.
- Derramou sangue inocente?
- Claro que não – percebendo que não seria complicado.
- Cuidou bem de sua companheira e dos seus amigos.
- Sim, muito bem – sentindo a confiança crescer.
- Cuidou do seu corpo mortal?
- Sim, eu fazia exercícios físicos diariamente, não bebia, nunca fumei, nunca consumi drogas e tirava a gordura da carne vermelha.
Nesse momento a gigante figura celestial tira os olhos da prancheta sem mover a cabeça e me olha por cima dos papéis.
- Tirava o quê?
- Sim, eu tirava a gordura da carne vermelha. Sabe aquela gordurinha da picanha? Eu tirava, faz mal para o coração e… – calei-me sentindo que já falava muito.
A gigante figura colocou as mãos na cintura e olhou sério para mim.
- Você tirava a capa de gordura da picanha? – falando devagar como quem precisava digerir bem as palavras.
- Bem… sim, tirava – respondi, sentindo-me ainda menor.
- Espera ali no canto – apontando para uma cadeira ao lado de uma grande mesa – próximo!
A atitude daquele gigante me deixou preocupado.
- Só um momento, eu não estou entendendo…
- Sente-se ali com aqueles outros. – ele esbraveja.
Ele disse “outros” de maneira quase pejorativa. Desesperei-me.
- Não, espera, você não entende, me falaram que a gordura fazia mal – sinto as mãos de dois poderosos anjos seguranças me puxando para minha cadeira.
- Senhor, sente-se aqui com os outros que tiveram atitudes suspeitas em vida – ordena o anjo enquanto continua me empurrando.
- Atitude suspeita? Que atitude suspeita? – pergunto vendo os portões se distanciarem.
- Essa moça que não gostava de sorvetes, o cara que não comia chocolate e o padre que não bebia vinho, sente-se e espere – a mão forte do anjo me força a sentar na cadeira.
Nesse momento, acordo suando frio. As mãos tremem. Minha esposa acorda junto com meu movimento brusco.
- O que foi querido? Teve um pesadelo?
Respondi ainda ofegante.
- Amor, vamos almoçar na churrascaria hoje!


