Não viu a porta se abrir, nem mesmo quando ele entrou no quarto, apenas olhou para o lado entre um suspiro e outro e lá estava ele.
Terno preto com riscas de giz, gravata vermelho sangue, um elegante chapéu, um sorriso no rosto maduro e cheio de marcas de expressão.
- Boa noite Cleber – disse ele com uma voz firme e grave – eu cheguei
Cleber achou que teria dificuldade para se ajeitar no leito e olhar direito para o visitante, mas foi fácil.
- Eu sei quem você é, e sei por que você está aqui.
O elegante homem sorriu.
- É claro que sabe, quando chega a hora todos sabem.
- E já está na hora? – perguntou Cleber com um pingo de esperança.
- Eu nunca chego antes da hora, nem depois da hora, eu sempre chego na exata hora de cada um.
- Mas todos te evitam.
Cleber abaixou os olhos e inspecionou seus sentimentos.
- Estranho, achei que quando você chegasse eu seria tomado por medo, desespero, mas estou tranquilo, sereno.
- Sim, a maioria sente a tranquilidade da inevitabilidade do momento, algo que se vocês aceitassem com mais frequência seriam mais felizes. Vocês passam a vida tentando evitar o inevitavel e gastando tempo e energia com o que não é importante, depois reclamam que a vida é curta.
- E vai ser assim, apenas eu e você?
Ele sorriu de novo
- É sempre assim Cleber, eu vou até vocês de forma individual e exclusiva, para todos vocês, sempre sozinhos.
Cleber pareceu sentir-se triste pela primeira vez durante esta conversa, olhou para cima, e viu o rosto familiar de seus filhos, estavam olhando para ele, e seguravam suas mãos.
- Meus filhos estão aqui, não estou sozinho.
- Mas você vem sozinho comigo, vocês chegam e saem sozinhos, não importa as condições, o choro de entrar nesse mundo é apenas seu, a hora da partida também.
Cleber olhou novamente para os filhos, sem deviar os olhos deles perguntou:
- Eu fiz o que tinha que fazer?
Não recebeu resposta nos primeiros instantes então se virou novamente para a figura sóbria sentada ao lado dele, ele parecia distraído acendendo um charuto.
- Se você cumpriu sua missão? Não sei, não é minha função saber, mas se você quiser saber eu aprendi algumas coisas durante essa eternidade.
- Que tipo de coisa? – perguntou Cleber estranhando o rumo da conversa.
- Bem – disse ele dando uma tragada no charuto – você teve filhos, isso aumenta a sua herança.
- Herança?
- Sim, o que você deixa para o mundo, sua marca, sua assinatura, sei que deixar uma boa assinatura é algo bom. Você também foi um bom amigo até onde observei.
- Eu não fui uma pessoa exemplar apesar disso tudo.
- Sim, eu sei disso também, quase ninguém é, acho que vocês vivem em dias que o parametro do que é bom e ruim, certo e errado ficou muito complexo de ser compreendido, vocês sempre distorcem tudo, mas não é meu trabalho julgar.
- E o que vem agora?
- Também não sei – ele encarou o olhar de questionamento de Cleber por entre a fumaça do charuto – sério, não sei, não é meu trabalho, eu apenas levo, mas você vai descobrir assim que eu deixá-lo. O que posso falar é que o passeio é mais bonito na saída desse mundo que na chegada, paradoxal não é? Todos pensam que existe dor e choro, mas do meu lado não é assim, claro que alguns dão mais trabalho, mas no final todos entendem.
- Acho que entendo, chegar aqui é mais tumultuado, mais doloroso.
- É isso mesmo – respondeu com uma nova tragada no charuto – mas é disfarçado com festa e alegria pela nova vida, ninguém pensa que esse final é inexoravel, ninguém gosta de pensar sobre isso, talvez se vocês me vissem como realmente sou, o outro lado da mesma moeda…
- Bem, já que não tem nada que eu possa fazer, podemos ir? Está na hora?
- Como falei, nunca chego nem antes, nem depois da hora, vem comigo, eu te mostro o caminho.
E Cleber fechou os olhos, e não abriu mais…
- Entenda, meu amor, existem coisas na vida que são inexoráveis, por mais poderoso que um homem seja, ele não pode parar as ondas do mar, não pode mover os continentes.
Ronaldo olhou de longe, fixamente para ter certeza, a loira alta, , e notou que ela olhou de volta, disfarçou. Era o sinal que ele precisava para ter certeza…
Entrou na sala logo atrás do oficial, sentou–se em uma cadeira que foi apontada pelo delegado calvo, que estava atrás da grande mesa de madeira com um cigarro no canto da boca.
Após o almoço do dia dos pais, relaxado no sofá da casa da avó enquanto assiste a um filme na pequena tevê da sala com os filhos, o pai sente-se maravilhosamente a vontade.
Hoje o assunto que está na boca da mídia é a homofobia e os direitos dos gays, uma luta que só ganhou voz na imprensa nos dias atuais, apesar de existir a décadas. Agora vemos esse tema nas revistas, em passeatas, em blogs, todos levantando a bandeira colorida de defesa do grupo LGBT.
Ele entrou na loja timidamente e observou em volta como quem procura algo; uma atenta vendedora notou e abordou o cliente rapidamente antes que outra colega o fizesse.
- Senhor, infelizmente …
Rafael se debateu, fez força, pulou, mas a cadeira onde estava amarrado nem ao menos se mexeu, parecia parafusada no chão.
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