junho 29th, 2010

Física e infância

Estava no parquinho com as crianças observando elas brincarem. E corre para cá, e corre para lá, e corre para acolá.

Um dos disputados balanços ficou livre quando uma das crianças desceu dele correndo para subir no tobogã, minha filha mais velha correu até o brinquedo recentemente desocupado e logo começou a se balançar.

Ela segurando as correntes firmemente esticadas inclinou o balanço para trás enquanto dobrava os joelhos, soltou o corpo e deixou a gravidade e a inércia fazerem o resto, quando o balanço alcançou o ponto mais alto ela esticou as pernas para cima, colocando mais energia no movimento que começava a retroceder.

Rapidamente ela encolheu as pernas fazendo com que os pés ficassem abaixo do quadril, tão próximo do chão que parecia que as pontas dos pés tocariam o chão atrapalhando o movimento, mas a posição era perfeita. Quando a energia do movimento começava a perder para a força da gravidade a jovenzinha habilidosamente jogava os pés de encontro ao chão, empurrando o seu corpo e o brinquedo mais acima, em seguida esticava novamente as pernas para ajudar no movimento de ascensão.

E ela repetia esse movimento com perfeição, sem interrupção, com ritmo e com uma graciosidade mecânica. Gravidade, energia, inércia, gravidade de novo, inércia e então começava tudo de novo.

Pensei nas minhas aulas de física, e em como toda essa brincadeira gostosa de movimento e velocidade seria um dia, transformada em algo desinteressante e maçante por algum professor ou pela responsabilidade de um vestibular. Crescer às vezes é muito chato!

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junho 22nd, 2010

Eu pegava

- Oi amor – cumprimenta ela antes mesmo de sentar-se à mesa do bar.

- Oi minha namorada linda! – respondeu ele beijando delicadamente os lábios da namorada.

Já era quase uma tradição assistirem os jogos da Copa do Mundo naquele mesmo bar, mesmo sendo apenas a segunda Copa que faziam isso. Ele se sentia um homem privilegiado de ter uma namorada que gostava de futebol. Um chopp para cada um e estavam prontos para acompanhar o

jogo de abertura: África do Sul contra México.

- Você viu a abertura dos jogos meu amor? – perguntou ela depois de tomar um gole da bebida gelada.

- Vi pelo Youtube e adorei principalmente a apresentação da Shakira, eu pegava – completou um segundo antes de perceber que talvez estivesse falando uma besteira.

- Como assim?

- Como assim o que? – respondeu ele tentando ganhar tempo.

- Você esta me falando que me trairia com a Shakira?

Ele achou melhor ser sincero.

- Poxa amor, a Shakira… pensa bem, até você pegaria a Shakira.

Ela riu com deboche

- Vai dizer que você não toparia um “waka waka” com ela?

- Bem, é – ela pensou por um segundo – ela é um mulherão mesmo.

- Nem seria uma traição não é mesmo? – argumentou ele tentando ganhar terreno.

Ela parou e observou ele por um momento.

- Seria uma traição sim!

Ele abaixou a cabeça e tomou um gole de chopp tentando desviar o olhar como quem procura uma saída, mas ela completou.

- Seria uma traição sim, mas seria mais fácil de perdoar, concordo que com a Shakira valeria a pena. Não é?

- Com certeza valeria a pena – e sorriu novamente se sentindo um homem de sorte.

Ela se aproximou, acariciou o cabelo dele, e falou colado no ouvido com um sussurro sensual.

- Lembra que você falou outro dia sobre swing?

- Lembro sim, o que tem – respondeu ele olhando para o rosto da namorada com ar de lascivo.

- Então, eu topo! Mas com uma condição!

Ele se esqueceu do jogo que começava.

- Qual?

- Tem que ser com a Angelina Jolie e o Brad Pitt. Assim valeria a pena, você não acha. – ela sorriu se deliciando com o argumento.

Ele suspirou, tomou outro gole do chopp e voltou sua atenção para o jogo com a certeza que tinha caído em uma armadilha astuta e cruel.

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junho 16th, 2010

Dentro do carro

Ela não segura o sorriso quando vê o número que aparece no visor de seu celular.

- Oi Celso!

- Oi gata, tudo bom?

Ela tentou não demonstrar o entusiasmo, mas a verdade era que Celso mexia com ela, já haviam ficado várias vezes e ela sempre esperava a oportunidade de se divertir com o amigo sarado.

- Tudo bom, o que você manda? – perguntou ela.

- Então, te liguei para pedir um favor!

- Só assim para você me ligar é, para pedir coisas, olha que vou cobrar.

Ele riu do outro lado da linha, ela entendeu isso como um sinal para avançar.

- Acho que o preço vai ser outra noite como aquela depois do baile no clube, você me levou para trás do estacionamento no meu carro e fez de tudo comigo – ela faz uma pausa para suspirar – como foi gostoso, eu nunca tinha feito no carro antes, adorei. E ai? O que acha?

Celso suspirou quando ela finalmente parou de falar.

- Foi legal mesmo, vou ter que desligar agora.

- Ué! Você não ia me pedir um favor?

- Deixa para lá!

- Não, agora fala!

- Eu ia pedir seu carro emprestado para levar a Suelem em um baile no clube, mas…

E ela desligou antes que ele termina-se a frase.

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maio 31st, 2010

Nostalgia

Sempre sentia-se assim quando chegava à rodoviaria da cidade. O mesmo buteco com salgado ruim e cerveja quente, o mesmo mendingo bêbado sentado próximo aos táxis, e estes, barrigudos,   jogando dominó na mesma velha mesa de bar. O pensamento que ocorreu em sua mente foi: Que merda!

Resolve não pegar um táxi apesar da mala pesada, segue a pé para a casa dos pais e aproveita para observar a cidade.

A velha loja de chapéus virara uma velha loja de sapatos, a antiga ótica tornara-se um restaurante. A velha farmácia transformou-se numa velha padaria. E dessa maneira tudo estava no mesmo lugar.

Novamente lhe ocorreu: Que merda!

Quando passou pelo velho colégio uma nostalgia gostosa tomou seu coração, suspirou profundamente. Já havia deixado a cidade há mais de quinze anos e a última aula que assistiu naquele prédio fora há mais de vinte.

E dessa vez seu pensamento não foi de lamentação ou reprovação, mas de uma saudade boa que fez um sorriso brotar em seus lábios.

Se lembrou das brincadeiras de criança, do velho time de futebol, do primeiro beijo, da velha lanchonete, dos professores odiados e amados.

E quando se lembrou dos professores, uma em particular veio à sua mente: Rose.

- Professora Rose… – repetiu como quem saboreava as palavras.

Era sua professora de história, loira, não muito alta, sempre sorrindo, seios grandes que durante explicações empolgantes sobre reis e revoluções, faziam ele se perder na esperança de vislumbrar um pouco mais deles.

Ela tinha pernas grossas e firmes e uma bunda tão impressionantemente redonda que ele diversas vezes se perdia em pensamentos obscenos enquanto ela escrevia no quadro negro.

Seu cabelo loiro de um dourado cintilante era quase tão hipnotizante quanto seus lábios grandes carnudos e vermelhos.

Quando deu por si já estava dentro da escola conversando com o diretor, explicando que era um antigo aluno e que gostaria de visitar o prédio.

A velha inspetora de alunos encarregada de acompanhá-lo durante a visita, reconheceu naquele homem o “jovenzinho de boca suja” e relembrou os vários petelecos de reprovação que recebeu dela ao usar um palavreado inadequado.

Ele foi discreto ao perguntar pela Pofessora Rose, mas não conteve o sorriso ao saber que ela ainda dava aulas naquela mesma escola, naquela mesma sala. Prendeu a respiração ao olhar pela porta e novamente ver sua antiga professora.

Ela estava de pé explicando algum esquema no quadro, ele olhou com atenção para aquele par de pernas, seus seios, seus cabelos. E um pensamento tornou-se palavras suspiradas que escaparam de sua boca.

- Mas que merda!

E então a velha inspetora acertou-lhe um peteleco reprovador no alto da cabeça.

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maio 25th, 2010

Desculpa, não resisti

Marcela se levantou e foi até  o banheiro no fim do corredor, havia muito tempo que não tomava tanta cerveja e isso apenas intensificava o efeito diurético da bebida. No banheiro pensou no rapaz que conhecerá, notou os olhares indiscretos dele, se lamentou por ele ter uma noiva.

Quando saiu cruzou com ele no corredor, o espaço diminuto do local fez com que eles “dançarem” por alguns segundos tentando passar, ela parou e sorriu, olhou para ele, não tinha notado como ele era alto.

- Desculpa – disse ela sem graça.

Ele olhou um segundo para trás, depois segurou o rosto dela com as duas mãos e beijo sua boca vigorosamente, ela teve uma leve intenção de resistir, mas quando se deu conta estava retribuindo, de repente ele parou.

- Desculpa, eu… eu simplesmente não resisti. Você é muito maravilhosa – disse ele visivelmente constrangido.

Ela não respondeu, apenas respirou fundo recuperando o ar.

- Me encontra lá fora por favor.

Ele se encolheu contra a parede e foi ao banheiro.

Mais tarde no carro dela ele falou que nunca havia se sentido tão atraído assim por alguém, que agiu por impulso, se desculpou e beijo sua boca de novo. Terminaram em um quarto de motel.

Na semana seguinte ele foi para a festa na casa do antigo vizinho, encontrou com Roberta na saída da cozinha e enquanto ninguém olhava segurou o rosto dela com as duas mãos e beijou sua boca.

- Desculpa, eu… eu simplesmente não resisti. Você é muito maravilhosa.

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abril 13th, 2010

Poesia sensorial

- Gosto da fazenda, adoro os finais de semana aqui. Quando me levantei agora pela manhã escutei ao longe o barulho do rio que passa depois da estrada, suave, calmo, e assim minha audição se deleitou. O cheiro do café sendo moído e torrado na hora invadiu minhas narinas me deixando quase embriagado. Estendi a mão e peguei uma broa de milho ainda quente que havia acabado de sair do forno e mordi com gosto. O paladar foi invadido pelo gosto das ervas misturados na massa e me deliciei com isso. Olhei pela janela da cozinha e vi as árvores ao longe, os animais pastando calmamente e o sol nascendo acanhado no horizonte. Meu único sentido que não se deleitava nesse cenário brejeiro e delicioso era o tato. E foi por isso que eu peguei na bunda da Mariazinha, que estava na cozinha preparando o desjejum com tanta gana. Estava apenas aproveitando toda essa poesia sensorial. Você entende querida? Não foi por maldade ou malícia!

E a esposa contrariada respondeu sem entender a conotação sensível e rítmica daquela experiência sensorial.

- Você é um babaca!

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abril 1st, 2010

Vestido vermelho

Abriu a porta e apareceu com seu vestido vermelho curto, seu salto alto e seu cabelo solto. Olhou para cima e abriu um sorriso ao olhar para a lua. Sentiu-se como se tivesse de novo vinte anos, apesar de nunca ter agido assim quando realmente o tinha.

Caminhou pela rua estreita andando fora da calçada, acenou com uma ponta de escárnio para a a vizinha da frente que observava tudo com olhar de reprovação. A vizinha recolheu sua cabeça coberta pelo lenço para dentro de casa antes de bater a janela dizendo em tom indiscreto para que pudesse ser ouvida:

- Vagabunda!

Ao invés de ficar chateada ou responder, ela apenas sorriu fazendo pouco caso.

Antes de chegar ao final da rua cruzou com a benemérita presidenta da associação de moradores do bairro. Esta olhou para ela dos pés as cabeça, desviou o olhar com um movimento brusco da cabeça quando notou seu sorriso de satisfação.

- Piriguete!

Ao cruzar com o marido da louvável presidenta, que se apressava caminhando atrás da esposa segurando as pesadas sacolas de compras, cumprimentou polidamente.

- Boa noite, Alberto!

- Boa!… noi… noite – gaguejou enquanto se equilibrava entre segurar as compras, desviar o olhar das longas pernas e não derrubar as sacolas.

Ela se afastou segurando a risada enquanto ouvia a esposa que repreendia o marido por dar atenção para “essa mulherzinha”.

Lembrou da época que era convidada para jantar com os vizinhos, de quando chorava no sofá delas sofrendo suas dores amargas, de quando consternava-se melancólica enquanto observava as famílias “amigas” a sua volta trazendo lembranças doloridas.

Lembrou de tudo isso sem nenhuma saudade e continuou caminhando até seu destino com o mais malicioso dos sorrisos nos lábios.

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março 31st, 2010

Papai não sabe

Estávamos eu e as crianças em uma fila no shopping, um pouco mais a frente um rapaz com uma opção sexual diferente da tradicional vestindo uma calça tipicamente feminina, com sapato de salto alto tipicamente femininos, uma blusa tipicamente feminina e segurando uma bolsa que seria denominada por alguns como absolutamente fashion, e claro, com a maior cara de homem.

A menina foi a primeira a perceber.

- Pai, aquele é homem ou mulher?

Pensei em explicar sobre o terceiro sexo, mas se eu tomasse esse caminho teria que explicar sobre os outros dois com mais detalhes.

- Bem filha, é…. não sei!

- Não sabe?

- É filha, papai não sabe se é homem ou mulher.

Então o menino se manifestou.

- Vamos lá perguntar pra ele.

- Não filho, não vamos!

- Porque pai?

- Por que ele também provavelmente também não sabe.

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março 16th, 2010

Respostas para perguntas inadequadas

- Oi, tudo bom?

- Oi – responde a moça olhando o rapaz de cima abaixo.

- Conhece o Paulo? – querendo saber se foi o dono da festa que convidou a beldade.

- Sim, colega que trabalho.

- Que legal, veio com seu namorado?

A moça não parecia acompanhada, e obviamente o moço não está interessado na existência de um namorado, ou melhor está interessado na inexistência dele.

- Não tenho namorado. – responde a moça, já visualizando as intenções do rapaz.

- Sério? Por que não? – retruca o infeliz rapaz.

É aí então que a falta de saber o que falar resulta em uma pergunta estúpida. O rapaz já teve o seu objetivo alcançado, sabe que a moça não tem namorado. Qual o objetivo de perguntar “por que” ela não tem namorado?

Abaixo algumas sugestões de respostas adequadas a essa situação:

1)    – Não quero namorar, quero ir direto para o altar.

2)    – Estou esperando as vozes na minha cabeça indicarem a pessoa certa.

3)    – Não sei por que, a propósito meu nome é Paulão, mas pode me chamar de Carol.

4)    – Meu psicólogo disse que primeiro preciso controlar minha raiva dos homens e dominar minha tendência homicida.

5)    – É cedo para isso, nem desovei completamente o corpo do meu ex ainda.

6)    – Seria complicado, meu presídio não permite visita intima.

7)    – Geralmente os homens correm quando tiro meu strap-on da bolsa.

8)    – Depois da operação de mudança de sexo, tenho que esperar pelo menos seis meses para fazer sexo.

9)    – O pessoal da clinica de doenças venéreas disse que eu preciso esperar mais algumas semanas.

10)  – Papai me fez prometer esperar ele sair da cadeia.

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março 7th, 2010

Sobre o jugo dessa poderosa força

Vem sem aviso. Você levanta um dia pela manhã e simplesmente acontece. Todos estão propensos a ela, ninguém escapa: pobres, ricos, solteiros, casados. Todos um dia vão se submeter a sua força implacável.

Nesse momento, alguns estarão mais preparados, terão serenidade apesar do medo e do desespero que tentará dominar seus corações.

Outros, sentirão o pânico desse momento que dominará o cerne de suas almas tentando  desesperados encontrar uma mão amiga.

Seu único desejo pode ser de, assim como um soldado ferido nas frentes inimigas, procurar um lugar seguro. Mas assim como em uma guerra, nem sempre isso é possível.

Alguns terão a sorte de estarem em um lugar confortável ou mesmo em braços e lares aconchegantes, onde o gentio será recebido com a compreensão de quem já sofreu do mesmo mal.

Estamos todos condenados  a um dia passar por ela que é a foça que irá nos relembrar de nossa finitude. Mesmo o mais bravo guerreiro um dia se sentirá humilde e pequeno diante da luta que terá que travar contra a revolta que oprime seu interior de forma cruel.

Existem poucas situações, se realmente houver, que podem fazer a pessoa se sentir tão submissa e simplória. Tudo o que ela quer é um local livre de inquietações, a chance de expulsar a revolta que oprime seu interior.

Quando esse momento chegar, pode ser que o suor escorra pelo seu rosto, que suas pernas tremam, que o mundo gire fora do eixo te desequilibrando. Mas por incrível que pareça, esses sinais virão para aqueles que são cheios de auspício.

Pior será o destino daqueles que não sentirão ela chegando, que serão tomados de súbito. Pode acontecer quando, sozinhos em casa, sem ninguém para testemunhar sua tristeza; dentro do seu carro em meio a uma viagem em uma estrada perigosa; durante um banho ou ainda durante uma festa alegre, entre seus amigos a tempo de sentir todo o compadecimento deles antes mesmo de notar direito o que aconteceu.

Todos estão sujeitos a uma grande e assombrosa diarreia.

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