fevereiro 2nd, 2010

Atitude suspeita

Então o inevitável aconteceu, o destino inexorável que alcança a todos os seres humanos finalmente me alcançou. Morri. Morri uma morte calma e não me lembro de dor ou de sofrimento, agora estou a caminho do paraíso.

Estou em uma longa fila. Não vejo nenhum rosto conhecido. À frente, um alto portão dourado para o qual uma massa de pessoas movimentam-se lentamente, bloqueando minha visão. Espero minha vez.

Quando chego ao portão, vejo uma figura impressionante: alto, moreno, musculoso como um halterofilista, vestindo uma túnica tão branca que faz os olhos doerem. De sua cintura pende uma corda dourada e grossa como cabos de sustentação de uma ponte.

- Você, – aponta para mim com uma voz de trovão – venha até aqui filho.

Aproximo-me da figura imponente.

- Como vai, João? – Sinto um arrepio. Ele sabe o meu nome.

- Vou bem, Senhor – respondo quase gaguejando.

- Bem, como você pode ter percebido, estamos nos portões do paraíso e eu vou fazer algumas perguntas de praxe e você pode entrar. Ok? – enquanto tirava não sei de onde uma prancheta com uma ficha e caneta.

- Ok – respondi, tentando parecer confiante, mas me sentindo muito pequeno.

- Você foi honesto em sua vida mortal?

- Sim.

- Derramou sangue inocente?

- Claro que não – percebendo que não seria complicado.

- Cuidou bem de sua companheira e dos seus amigos.

- Sim, muito bem – sentindo a confiança crescer.

- Cuidou do seu corpo mortal?

- Sim, eu fazia exercícios físicos diariamente, não bebia, nunca fumei, nunca consumi drogas e tirava a gordura da carne vermelha.

Nesse momento a gigante figura celestial tira os olhos da prancheta sem mover a cabeça e me olha por cima dos papéis.

- Tirava o quê?

- Sim, eu tirava a gordura da carne vermelha. Sabe aquela gordurinha da picanha? Eu tirava, faz mal para o coração e…  –  calei-me sentindo que já falava muito.

A gigante figura colocou as mãos na cintura e olhou sério para mim.

- Você tirava a capa de gordura da picanha? – falando devagar como quem precisava digerir bem as palavras.

- Bem… sim, tirava – respondi, sentindo-me ainda menor.

- Espera ali no canto – apontando para uma cadeira ao lado de uma grande mesa – próximo!

A atitude daquele gigante me deixou preocupado.

- Só um momento, eu não estou entendendo…

- Sente-se ali com aqueles outros. – ele esbraveja.

Ele disse “outros” de maneira quase pejorativa. Desesperei-me.

- Não, espera, você não entende, me falaram que a gordura fazia mal – sinto as mãos de dois poderosos anjos seguranças me puxando para minha cadeira.

- Senhor, sente-se aqui com os outros que tiveram atitudes suspeitas em vida – ordena o anjo enquanto continua me empurrando.

- Atitude suspeita? Que atitude suspeita? – pergunto vendo os portões se distanciarem.

- Essa moça que não gostava de sorvetes, o cara que não comia chocolate e o padre que não bebia vinho, sente-se e espere – a mão forte do anjo me força a sentar na cadeira.

Nesse momento, acordo suando frio. As mãos tremem. Minha esposa acorda junto com meu movimento brusco.

- O que foi querido? Teve um pesadelo?

Respondi ainda ofegante.

- Amor, vamos almoçar na churrascaria hoje!

janeiro 15th, 2010

Presente de aniversário

- Amor, pode olhar? – pergunta Paula ansiosa com as mãos sobre a venda improvisada com a gravata do namorado.

- Ainda não, estamos quase chegando. Cuidado com o degrau – responde Pedro.

Ela ouve um tilintar de um sino batendo na porta que se abre e a voz do namorado – Agora pode tirar…

Ela olha e se vê em uma grande sala com a atendente do sexshop sorrindo.

- Pedro, que isso! – exclama – ainda boquiaberta.

- É um dos seus presentes de aniversário, escolha o que quiser, qualquer coisa, estou pagando.

Paula sorri, e já sabendo as intenções do namorado, escolhe uma fantasia de colegial, alguns óleos e um incrementado vibrador, daqueles com uma dezena de funções, rotações e intensidades.

Saem de lá direto para o motel, onde mais da metade dos óleos ficam no lençol do quarto. Depois de duas horas de entretenimento, ela se lembra do jantar com os pais.

Saem do motel direto para a casa dela. Pedro dirige com um sorriso de satisfação proporcionado apenas por momentos tórridos de sexo como aquele. Do lado de fora da casa dos sogros já sentem o cheiro do churrasco e ouvem as conversas dos amigos e familiares. Paula entra ao som de um vigoroso “parabéns pra você” entoado pelos presentes.

Depois de cumprimentar todos e servirem-se do churrasco, o pai de Paula, acompanhado da esposa e de alguns amigos, pergunta para a filha ao lado do namorado sentado na área da casa próximo ao portão da rua.

- Como está sendo o aniversário de minha filhota?

- Perfeito pai, tenho vocês, todos meus amigos estão aqui, ganhei vários presentes lindos de vocês, dos meus amigos, do meu namorado.

- Qual presente o Pedro te deu filha? Eu não vi ainda – pergunta a curiosa mãe da moça.

Paula arregala os olhos, Pedro mastigava uma fatia de carne e congelou instantaneamente. Olhou para a namorada sem mexer a cabeça.

- Qual presente? – disse Paula tentando achar a resposta.

- Sim filha, que presente?.

Pedro se esforçava para engolir o pedaço de carne.

- É… foi… ai… é… nossa… tão lindo… é um…

- Um o quê filha? – solta o pai, já estranhando a demora.

Nesse momento, Pedro dá um salto e fica em pé, coloca o prato na mesa enquanto leva a mão até a garganta. Parecia ter algo obstruindo sua respiração.

- Ele engasgou, ele engasgou – gritou a mãe em desespero.

Pedro sai tossindo violentamente e puxando Paula pela mão.Deixam o portão da casa e a família observa tudo sem entender direito. Pedro vira a esquina da casa saindo do campo de visão de quem ainda estava lá e cospe longe o pedaço da carne.

- Vamos correndo para o shopping agora! Se eles perguntarem, você me levou para o hospital.

- Vamos fazer o que no shopping?

- Nem me fale! Depois daquela grana que custou o vibrador, ainda vou ter que te comprar uma joia. Droga!

janeiro 11th, 2010

Programa de TV

O novo quadro do programa vespertino de domingo não tinha chances de fracassar; possuía todos os elementos populares para ser um sucesso. O apresentador iria procurar uma antiga celebridade fracassada, a que estivesse na pior situação possível, e presentear-lhe com uma casa nova, mobiliada e super moderna.

O felizardo ganhador da estreia do quadro não podia ter sido melhor: o antigo ajudante de palco do apresentador. Ele ficou famoso com o apelido de Pombinho por causa da coreografia engraçada que fazia com sua fantasia de pombo e o escárnio que sofria do apresentador em um clima de brincadeira em que chutava o seu traseiro aos gritos de “Xô Pombinho, xô!”

Pombinho não podia estar em situação pior: morava com a esposa e um filho embaixo de um viaduto na periferia da cidade, seus móveis se resumiam a dois colchões, um fogareiro, algumas caixas empilhadas que servem de armário e muito papelão que servia de cobertura, divisórias e cobertores em alguns dias.

O apresentador chegou ao local vestindo seu terno de dois mil reais com uma equipe pequena de cinco pessoas e começou a entrevistar seu antigo companheiro de palco.

- Pombinho, como você veio aqui, sob essa ponte?

- Então Augusto, eu trabalhei muitos anos no seu programa… Quando saí para seguir carreira solo, não tive a mesma sorte… Lancei o disco do Pombinho e investi um dinheiro em uma linha de brinquedos, mas não tive sorte.

- Então, Pombinho, estou aqui para te fazer uma surpresa. Você foi escolhido para ganhar uma casa toda mobiliada do Programa do Augusto.

Sobe a música orquestrada, a câmera fecha no rosto de Pombinho abraçando a esposa aos prantos.

Toda a construção da casa foi acompanhada pelo programa, da escolha do terreno, passando pelo trabalho da decoradora, parte elétrica, acabamentos, metais até finalmente o dia da grande entrega.

Um grande show com a banda de sucesso local em um palco em frente a casa, que estava toda coberta com redes que sustentavam balões de gás. A família ganhadora chega. Pombinho veste um terno branco e parece ter passado por um banho de loja, assim como a esposa.

- Como está o coração Pombinho? – pergunta o generoso apresentador.

- Muita emoção, meu amigo. Muita emoção.

- Então, vamos conhecer a sua casa nova?

A rede sustentando os balões é solta vindo a baixo. Os balões livres ganham os céus e a nova casa é revelada. Linda e cheirando a nova, sobe novamente a música de impacto. Augusto e a família, aos prantos, entram.

Augusto mostra a sala, os móveis, passa para a cozinha todo equipada, para a sala de jantar com os pratos postos e organizados com meia dúzia de talher cada um; sobem por uma escada e mostra o quarto da criança cheio de brinquedos; passam para o quarto do casal, Pombinho senta-se na beira da cama com lágrimas nos olhos.

- Então Pombinho, gostou da sua casa nova?

- Gostei muito Augusto, estou muito feliz.

- Então Pombinho, para encerrar nosso quadro só falta uma coisa. Abra o guarda-roupa. Eu tenho uma surpresa.

Pombinho se levanta e abre o guarda-roupa. Seu sangue gela e seus olhos arregalados parecem em destaque no vídeo com a maçã do rosto brilhando por causa das lágrimas recém-derramadas. De dentro do moderno e bonito guarda-roupa embutido, ele tira sua antiga fantasia de ajudante de palco.

- Agora Pombinho, vista-se e vamos lá embaixo no palco fazer sua apresentação.

Alguns minutos depois, Pombinho desce com sua fantasia de pombo. Seu olhar para o público que grita seu nome é apreensivo. Augusto já está no palco. Ele sobe e sua antiga música começa a tocar. Ele olha para trás procurando o olhar da esposa que está com expressão suplicante.

- Vamos lá Pombinho, vamos dançar, dança pombinho, dança.

E Pombinho dançou tão bem quanto se lembrava: mexia as asas, virava de costas e requebrava, balançava a cabeça de um lado para outro, a música aumentava seu ritmo e enquanto encaminhava-se ao seu clímax, o apresentador gritou.

- Chega, Xô Pombinho, xô pombinho – e começou a chutar o pombinho para fora do palco.

O público gargalhava e repetia “xô Pombinho”. Augusto continuava chutando o ajudante de palco. Pombinho virou-se subitamente nesse momento de frente para Augusto e avançou contra ele com tanta fúria que o derrubou em um único golpe. Subiu sobre ele e arrancou seu microfone. A equipe ficou atônita e o público não tinha certeza do que estava acontecendo quando viram Pombinho enfiar o microfone pela boca de Augusto, empurrando violentamente para dentro de sua garganta. Um segurança mais truculento conseguiu derrubar o louco enquanto a produtora tentava retirar o microfone de dentro de Augusto que sufocava.

O quadro de estreia que tinha tudo para ser um sucesso nunca foi exibido na televisão.

dezembro 18th, 2009

Papai-Noel

O marido chega em casa depois do trabalho e as crianças e a esposa estão assistindo um filme natalino como outros tantos sem muito a acrescentar. Enquanto trocava de roupa, ele ouve a conversa da família.

- Mamãe… o Papai-Noel mora aonde?

- No pólo norte.

- E e lá é muito frio?

- Muito, muito mesmo.

- E ele vem no Natal trazer presentes?

- Isso mesmo

Quando o marido tem oportunidade de ficar sozinho com a esposa, pergunta:

- E essa história de Papai-noel?

- Que que tem?

- Papai-Noel não existe! Você esta mentindo para eles! – indignado.

- Mas o que tem? É uma fantasia sem nenhuma maldade.

- Quem faz os brinquedos?

- Os anões, ué…

- Sei, os anões chineses de Taiwan. Só se for. Se formos mentir sobre Papai-Noel, temos que mentir também sobre Coelho da Páscoa, sereia, bruxa, políticos honestos e rockstars que não usam drogas.

- Não seja exagerado! – protesta a esposa já perdendo a paciência.

- Como ele entra dentro de casa? – indaga o ainda relutante marido.

- Ele quem?

- Quem? Os rockstars – revoltado com a irônia – O Papai-Noel né!?!?! Como ele entra em casa?

- Sei lá, ele é mágico.

-  Mágico? Nem o Superman conseguiria fazer o que a história fala que ele faz, visitar todas as crianças do planeta em uma única noite…

- Ele não visita todas, apenas as boazinhas…

- Isso reduz bastante o trabalho, mas mesmo assim… Não gosto dessa história não. Papai-Noel não existe e não vou mentir para meus filhos.

- Para de ser chato! Apenas coloque os presentes do lado da cama deles e diga que foi o bom velhinho.

- Bom velhinho o caramba!Eu que trabalho e compro, e ele que leva o crédito? Se eu vir um velho barbudo com saco vermelho dentro de casa, ele vai é levar umas bordoadas!

dezembro 8th, 2009

Confissão

Ele usava um lenço para enxugar o suor que escorria pela testa, as mãos tremiam enquanto descia pelo elevador. Espantou-se quando notou que estava sorrindo.Como podia ter a coragem?

Desceu na garagem e foi para o carro. O misto de satisfação e arrependimento o dominava. Ligou o carro e ganhou a rua. Ainda sentia o cheiro e isso o incomodava assim como o deixava com um ar de contentamento. Não conseguia mais se conter, sentia que dirigia sem saber para aonde estava indo, apenas seguindo o fluxo. Entrou no primeiro retorno. Achou melhor parar.

Descansou a cabeça entre as mãos sobre o volante, respirou fundo e quando levantou a cabeça notou que havia estacionado em frente a uma igreja. Desceu e entrou.

Enquanto andava pelo corredor de bancos, entre as imagens imóveis de anjos, homens e mulheres considerados santos, sentiu-se mal, culpado, sujo.

Suas mãos estavam escarlates, mas era apenas por que apertava vigorosamente o celular. Olhou para o aparelho e se viu discando os números. Ele precisava falar com alguém, precisava contar o que fez. Ligou para a noiva. Quando o telefone atendeu com um carinhoso “oi amor!”, ele pensou no que estava fazendo.

- Oi meu doce, preciso te falar uma coisa!

- Pois não meu lindo, fala, o que foi?

Então ele contou, contou tudo, sem tomar fôlego, sem parar para ouvi-la, cada detalhe fresco em sua mente. Descreveu cenário, cores, a posição dos móveis antes e como ficaram depois, tudo o que usou, como segurou e enquanto narrava seu corpo parecia reviver o momento. Foi ficando ofegante, agitado, falava cada vez mais rápido e intensamente e terminou. Então se calou para ouvir.

Mas não houve resposta, com o aparelho colado no ouvido chamou pela noiva, não escutou nada, afastou o aparelho da cabeça e viu que ele estava desligado. Ficou olhando para o aparelho apagado em sua mão como se fosse um singular artefato há muito perdido.

Ainda estava ofegante quando o celular tremeu em sua mão e começou a tocar. Era ela, levou o aparelho até o ouvido.

- Amor? Alô?

- Oi, você me ouviu?

- Não amor, a ligação caiu depois que você começou a falar. O que você ia dizer?

- Nada, apenas queria dizer que eu te amo muito e que você me faz muito feliz!

Se despediu, desligou o telefone e foi para casa.

dezembro 3rd, 2009

Manifestação contra os culpados

Tudo começou quando estudantes e lideres sindicais invadiram a câmara legislativa local para protestar contra as recentes denuncias de corrupção envolvendo políticos e empresas locais.

A manifestação tomou um rumo inesperado quando teve seu avanço impedido por outra manifestação, não de estudantes ou membros de sindicatos, mas dos políticos envolvidos. A surpresa foi ainda maior quando foi possível notar as reivindicações que esses partidários faziam.

Gritavam palavras em defesa de seu direito de serem corruptos e desonestos. Carregavam placas com as frases “Vocês já sabiam! Então por que votaram em nós?”, “Não cheguei ao poder sem seu voto!” e “Não fomos eleitos por marcianos! Mas pelo povo!”.  Essas foram as declarações do líder da manifestação José Rutáceos que fez as seguintes declarações:

- Somos sim corruptos, e quem não sabia disso quando votou? Eu já menti, jurei futilmente na televisão para todo mundo ver. Mesmo assim votaram em mim e cá estou! O que vocês esperavam?

O vice-governador, empresário e acusado de esquemas fraudulentos que acompanhava as declarações completou.

- Se você contratar um ladrão para ser seu empregado e tomar conta do seu caixa o que você pode esperar dele? Que ele respeite seus bens e sua instituição? É claro que não!

A manifestação continuou deixando a câmara legislativa e ganhou as ruas. Agora munidos de um carro de som, a estranha manifestação seguiu caminhando por todo o Brasil, foi a inúmeros cantos do Brasil declarando, sem vergonha, seus atos ilícitos apenas para desmenti-los em seguida. Praticamente todas as ruas e bairros e cidades do país receberam essas mensagens em suas portas.

Na eleição seguinte estavam todos reeleitos.

————————————————

http://noticias.br.msn.com/brasil/artigo.aspx?cp-documentid=22778698

dezembro 2nd, 2009

Melhor amigo – segunda versão

Estava arrasada! Nem sabia por onde começar: trabalho, diarista, contas, balança, mas o principal era o idiota do Felipe, ainda não conseguia acreditar no que ele tinha feito. Largou-me no sofá encolhida, chorando solitariamente.

Toca o celular, é o Anderson. Tento me segurar, mas me desabo em lágrimas. Ele diz que preciso sair para me distrair, digo que não estou no clima, mas ele diz que uma mulher linda não deve ficar em casa em uma sexta-feira à noite.

Ele chega quarenta minutos depois, abraça-me forte quando abro a porta, diz que estou linda.No sofá, começo a reclamar do meu dia , mas ele me interrompe, diz que não preciso me preocupar, que uma mulher linda como eu não devia esquentar “a sua cabecinha linda” com essas “coisas” e diz que eu devo trocar de roupa, colocar um vestido por que ele vai me levar para jantar. Protesto que não estou no clima, mas ele é persistente. Coloco um tubinho preto e um salto alto. Quando volto para a sala ele está com cara de impaciente, mas ainda assim solta um longo assovio e diz que estou maravilhosa.

Vamos a uma pizzaria animada, muitos jovens.Ele faz o pedido de uma meia calabresa, meia quatro queijos. Fico pouco a vontade, mas ele pede um vinho e começo a relaxar. Ele me faz rir e esquecer um pouco dos problemas. Terminamos rápido tanto a pizza, quanto o vinho e ele me arrasta para uma festa. Não reclamo. Começo a pensar que ele tem razão, que preciso me divertir. Eu queria dançar, mas  ele protestou que não levava jeito.Ainda sobre o efeito do vinho, arrasto ele para a pista e descubro que ele tinha razão!Ele não leva o menor jeito, mas parece ter gostado, porque tentou me beijar três vezes em apenas uma música.

Ele me leva de volta para casa, tenta me beijar mais uma vez na saída da festa, mais uma em um sinal fechado e duas quando chega ao meu prédio. Ele pergunta se pode subir para usar o banheiro.Olho para ele meio torto e penso essa é a última vez que bebo uma garrafa de vinho. Subimos, eu me jogo no sofá e ele vai para o banheiro. Coloca a cabeça no meu ombro. Começa a afagar meus cabelos. Sinto uma sensação estranha, uma vibração, era o celular dele no bolso da calça. Ele não atende.

- Você é muito linda sabia?

- Sabia!

- É?

- É, deve ser a centésima vez que você fala isso essa noite.

- E?

- E está na hora de você ir embora – me levanto em um impulso só, o puxo  pelo braço.

- Mas já?

- Sim.

- Está cedo – protesta ele, enquanto o empurro porta a fora.

- Boa noite Anderson! – estou sorrindo deliciada.

- Nem um beijinho?

Bato a porta e caio no sofá meio que rindo.Até que ele é gatinho, quem sabe na próxima?

Quando o elevador abre, Anderson sem entender o que aconteceu e lembrando-se do preço daquela garrafa de vinho pensa: mas que vadia filha de uma puta!

dezembro 1st, 2009

Dia Mundial de Luta Contra a AIDS e o Preconceito

Hoje, dia 1º de dezembro de 2009, é o Dia Mundial de Luta Contra a AIDS e o Preconceito.

Fiquei pensando sobre o que há ainda para escrever sobre a AIDS, ou melhor ainda, contra ela. Alguém aí realmente ainda não sabe como se contrai o HIV? Alguém? Precisa reforçar?

Como o vírus da AIDS está presente no sangue, sêmen, secreção vaginal e leite materno, a doença pode ser transmitida de várias formas:

  • Sexo sem camisinha. Por ser vaginal, anal ou oral;
  • De mãe infectada para filho durante a gestação, o parto ou a amamentação;
  • Uso da mesma seringa ou agulha contaminada por mais de uma pessoa;
  • Transfusão de sangue contaminado com o HIV;
  • Instrumentos que furam ou cortam, não esterilizados.

Se isso era novidade, provavelmente você mora em outro planeta.

Se todo mundo sabe as formas de transmissão, por que ainda somos infectados com aquele outro vírus: o preconceito?

Sabemos que pessoas com HIV/AIDS também podem ter uma vida normal: beijar, namorar, fazer sexo com camisinha, trabalhar, praticar esportes, sair com amigos. Mas muitos soropositivos parecem ter esses direitos privados por quem está a sua volta.

Preconceito geralmente não combina com aquela expressão “coloque-se no lugar dele”, mas se você tivesse uma doença séria, gostaria de ser isolado da família e amigos? A qualidade de vida não depende apenas de tratamento, mas de uma vida social, aceitação, contato.

Simples assim, como eu falei antes, sobre um assunto sério como esse, o que ainda tem para falar que no fundo já não saibamos?

novembro 27th, 2009

Melhor amigo

Estava arrasada! Nem sabia por onde começar: trabalho, diarista, contas, balança, mas o principal era o idiota do Felipe, ainda não conseguia acreditar no que ele tinha feito. Largou-me no sofá encolhida, chorando solitariamente.

Toca o celular, é o Marcos. Tento me segurar, mas me desabo em lágrimas. Ele espera eu me acalmar, diz que está indo me ver imediatamente! Insisto que não precisa, que eu vou ficar bem, mas ele obstina-se que virá do mesmo jeito.

Ele chega quarenta minutos depois, abraça-me forte quando abro a porta, escuta-me reclamar no sofá, mostra-me um lado da situação que eu não tinha visto. Passa a mão no meu cabelo devagar, sorrindo-me de forma iluminada, enxuga minhas lágrimas e diz que eu devo trocar de roupa, colocar um vestido por que ele vai me levar para jantar. Protesto que não estou no clima, mas ele é persistente. Coloco um tubinho preto e um salto alto. Depois de me esperar pacientemente solta um longo assovio e diz que estou maravilhosa.

Vamos a um restaurante japonês, ele faz o pedido e conversamos sobre tudo. Marcos me faz rir e esquecer os problemas. Quando terminamos, ele me arrasta para uma festa. Eu protesto que não é preciso, mas novamente é inútil argumentar com ele. Dançamos o resto da noite. Como o Marcos dança bem! Conduzindo com força, mas com delicadeza ao mesmo tempo; suave, mas firme.

Ele me leva de volta para casa, eu me jogo no sofá e ele vai para a cozinha. Volta com uma garrafa de vinho tinto e duas taças. Serve-me uma, tira meus sapatos, encosta-se e coloca minha cabeça no seu ombro. Começa a afagar meus cabelos. Um arrepio percorre meu corpo. Olho para cima e ele está me observando sorrindo meigamente.

- Preciso te falar uma coisa.

- O que? – pergunto eu, sorrindo como quem está voando.

- Preciso ir, o Paulão falou que vai passar em casa pela manhã e eu estou morrendo de saudade dele.

Ele se despede e vai embora. Fico olhando para as taças sujas de vinho vazias na mesinha de centro depois de fechar a porta e penso: mas que viado filho de uma puta!

novembro 24th, 2009

O Gladiador

Acordou cedinho e colocou os óculos com suas grossas e pesadas lentes. Olhou-se no espelho, apenas de cueca, pensou na grana que gastou em seis meses de academia e em como essa grana parecia pouca e barata perto do sofrimento e das dores que sentia durante e após as sessões de exercícios. Estava mais esquelético do que nunca.

Entrou na cozinha e deu um pulo quando o pé descalço tocou a água fria, a cozinha estava inundada. Por algum motivo, a geladeira descongelou no meio da noite e uma água misturada com os resíduos de comida estava espalhada pelo chão, o que fez o cômodo lembrar brevemente um pântano. Suspirou e mesmo assim entrou cozinha adentro.

Abriu a geladeira e uma nova onda de água gelada banhou sua canela, pegou uma caixa de leite e despejou no copo, mas pelotas de gordura com cheiro característico encheram o copo. Pareceu ver um rosto sorrindo entre o leite. Deixou o copo sobre a pia.

Tomou um banho, se vestiu e ao sair passou pela caixa de correspondências. Lá tinha contas, propagandas, contas, folhetos, contas, contas e contas. Suspirou mais uma vez, movimentou os ombros e os deixou cair como de costume.

Chegou a parada e o ônibus não demorou, no entanto, não havia lugar para ele se sentar. Uma senhora gorda com um cheiro estranho o espremia de um lado e um loiro musculoso do outro. Ele não teve espaço para suspirar, mas pensou o que aconteceria se ele pisasse na garganta da mulher gorda, e o pensamento lhe trouxe um certo prazer tenebroso no seu âmago.

No trabalho e entrou no segundo elevador que chegou ao térreo, por que o primeiro fechou a porta na sua cara. Sentou no seu cubículo sem cumprimentar ninguém e ligou o computador. O plano de fundo do seu equipamento era uma imagem de um filme antigo, então, ouviu aquele personagem falar com ele. Não era uma voz em sua cabeça, era uma voz vinda do passado.

Com sua cabeça inclinada para frente e para a direita, levantou suas sobrancelhas, sem mexer nenhum músculo além do necessário.

Seu gerente apareceu na porta e começou a falar com ele, reclamando sobre o atraso de um relatório, mas ele não ouvia. Seu olho esquerdo começou a pular compulsivamente, como um personagem de desenho animado em uma crise de nervos, mas tudo o que ele ouvia era o som de espadas, escudos, cavalos, lanças e por fim ouviu uma ordem retumbante.

Levantou tão rápido quanto um raio. O gerente não teve tempo nem de entender o que aconteceu quando o teclado acertou sua cabeça, a sensação foi como uma martelada em sua têmpora, ele sentiu o sangue começando a escorrer pelo rosto ao mesmo tempo que uma dor lancinante atingia seu cérebro. Atordoado, ele tropeçou e caiu derrubando as lixeiras, fazendo um grande barulho. Cabeças apareceram de seus cubículos para identificar a origem do estardalhaço, e tudo o que puderam ver foi o momento em que ele, com o pé esquerdo sobre o corpo do gerente caído no chão, rasgou sua camisa, soltando um rugido de ira tão forte e alto, que fez as pessoas do escritório sentirem suas espinhas se retesando como em resposta a um medo ancestral.

Viram ele saindo, camisa (ou o que sobrara dela) aberta com um peito branco, quase pálido, sem pêlos, a mostra. Em uma mão segurava o teclado como quem segura a lâmina de uma gládio e em outra o monitor LCD como um escudo com os fios pendurados. Avançou gritando, pisando sobre o gerente, que ainda não tinha se recuperado do susto.

Acertou Reinaldo, o colega de trabalho que fazia piadinhas sobre seu porte físico e montagens com suas fotos, com o teclado com tanta força, que o periférico se despedaçou. Por um momento, seus dentes e as teclas do teclado foram vistos saltando ensanguentados de sua boca. Tudo o que ele sentiu foi um estalo no maxilar e de repente teve a sensação de estar no coliseu romano, tendo seu rosto esmigalhado por um bárbaro. Reinaldo desmaiou no momento em que sentiu os dois pés do colega de trabalho ensandecido pousarem violentamente sobre seu peito. Ele estava sendo literalmente esmagado pelo outro, que pulava sobre ele como um gorila em fúria.

Paulo, o moreno forte que havia recebido a promoção que ele estava de olho, correu para tentar segurá-lo, mas com a agilidade de um samurai, ele desviou-se e, continuando o movimento, acertou a nuca de Paulo com o monitor, derrubando-o em um único golpe. Paulo ainda teve tempo de pensar em por que tinha se levantado da cama naquele dia, sentiu muita dor, e um formigamento estranho pelo corpo todo antes que o gladiador começasse a girar o monitor sobre si mesmo como uma maça medieval, e por fim o pousasse pesadamente em sua cabeça.

Seguiu mais a frente, já todo ensanguentado e com o olhar mais determinado que jamais exibira em sua vida. Derrubou mais quatro homens, incluindo um segurança. Neste ponto, já não possuia mais armas, tudo o que usava era seus punhos, até que dois encarregados e dois funcionários conseguiram, por fim, derrubá-lo.

Ele continuava a gritar em fúria, proferia palavras, mas não parecia nenhum idioma conhecido e às vezes apenas rugia, liberando toda a raiva concentrada que esteve contida em seu peito.

A maioria dos seus colegas de trabalho ficou perguntando-se “qual mesmo era seu nome” ou “como ele enlouqueceu”.

Ele gritava palavras ininteligíveis enquanto era arrastado para fora do prédio. Nunca mais foi visto.

Get Adobe Flash playerPlugin by wpburn.com wordpress themes